Mãe de coração

O Diário traz a história de uma mãe que mudou completamente a vida após adoção do filho com paralisia cerebral

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“Foi o presente que Deus me deu porque a hora que eu olhei para ele e ele olhou para mim eu já sabia que era meu porque o olho dele brilhou e o meu também”.

Alguém duvida que a declaração acima é de uma mãe para o filho? Esse amor considerado puro e sincero tocou o coração de Maria Carolina Luna, quando ainda jovem, com apenas 22 anos e ninguém botava fé em sua decisão. Na época estudava e apenas tinha o sonho de ser voluntária, se cadastrou em um abrigo de crianças, mas nunca havia sido convocada. Até que um dia o telefone toca. Do outro lado era a responsável pelo lar de menores: “Estou ligando porque teremos uma dedetização, as crianças precisam passar um tempo na casa de voluntários e um menino sobrou porque ele é doente e ninguém quis”, disse a mulher. Carolina frisa que foi exatamente este termo usado “sobrou”. Naquele momento ela e o pai não hesitaram e foram em busca da criança.

Foi ai que esta história de amor começou. Foi ai que os primeiros olhares se encontraram e não precisou estar no ventre, ele estava ali pronto aos dois anos de idade a espera de uma mãe. Mesmo assim foram nove meses para conseguir a adoção e leva-lo definitivamente para casa. “Começamos a luta na justiça, porém como era muito nova, contei com apoio dos meus pais. Eu costumo dizer que não o gerei no meu útero, mas sim no meu coração”, fala com a voz embargada.

O menino faz parte de uma triste realidade quando se fala em adoção: o preconceito com algumas crianças. Ele era portador de paralisia cerebral. O parto teve complicações e o menino ficou com lesões cerebrais por conta da falta de oxigenação por muito tempo.

A mãe que gerou, não o quis, mas isso foi exatamente o que influenciou para ser acolhido por outra família, a da Carol. A criança era Bruno Henrique Bernardes. “Eu sai do trabalho e durante os nove meses de espera ficava das 13 às 23 horas no abrigo cuidando dele. Quando saiu a guarda, voltei a estudar, trabalhava, mas sempre com apoio da minha mãe. Fomos nos adaptando com o tempo, conforme a rotina do Bruno”, conta.

E claro como toda mãe, também foi julgada, Carol relembra que muitas pessoas disseram que ela não daria conta, que em um mês iria devolver o menino. Ela relata ainda que nunca tinha pensado na hipótese de adotar uma criança mas quando chegou para pegá-lo, apenas para um fim de semana, foi amor à primeira vista.

Carolina deixa claro que a concretização só foi possível por conta do amor de sua mãe Izabel Maria Joaquim Luna por ela, que a apoio em todas as decisões e até hoje com o menino que se tornou um jovem, agora na maior idade, está com 18 anos.

A Maria Carolina hoje é assistente social, trabalha com recuperação e reinserção social para dependentes químicos. Profissão que escolheu também por conta do filho, tanto vó quanto mãe acima de tudo, gostam de destacar a própria superação de Bruno, que parecia frágil, mas que enfrentou tantos obstáculos e hoje é exemplo de superação e de luta pela vida. “Ele é a maior lição de vida e de amor, o mais frágil e ao mesmo tempo maior guerreiro. Veio pra casa com vários problemas, com quase 2 anos não tinha sustentação de seu corpo. Sua mudança e melhora foram cada vez mais visíveis, e apesar de algumas sequelas serem irreversíveis sua vida foi sendo normal, ganhou peso, seus braços e pernas foram desatrofiando, aprendeu a andar, podia se alimentar normalmente e aprendeu a se comunicar, mesmo sem poder falar”, relembra a mãe.

Como relata Carolina tudo estava caminhando bem, mas aos 10 anos de idade, com saúde recuperada, sofreu um grave acidente de carro, no veículo no qual ele estava de cinco ocupantes somente Bruno sobreviveu, a gravidade desse episódio levou a vida de 7 pessoas na hora. Entre as vítimas fatais o avô do Bruno, Antônio Luiz Luna que era uma referência para o menino. Luna considerava a criança a paixão da vida dele.

Bruno foi levado gravemente ferido para o hospital mais próximo e com pouca chance de sobreviver. Os médicos desenganaram e deram um curto prazo de horas de vida, estava muito machucado onde além dos membros externos teve graves ferimentos em seus órgãos internos e para os médicos nada mais seria possível além de um milagre de Deus.

E assim que a família gosta de dizer, que Deus agiu. Bruno começou a superar, lutou, sobreviveu e em pouco mais de um mês teve alta da UTI e pode voltar para casa. Devido as fraturas nos braços e pernas sua recuperação foi lenta, e embora com dificuldades voltou a andar e foi recuperando aos poucos.

Até que em 2016 a família teve novamente um grande susto. Bruno se engasgou e embora tenha recebido os primeiros socorros imediatamente, foi perdendo o ar e perdeu os sentidos, suas funções vitais começaram a parar. “Contamos com ajuda de uma mulher que incansavelmente iniciou a massagem cardíaca e manteve o seu coração batendo, até a chegada do resgate. Enquanto ela fazia a massagem cardíaca o médico socorrista através de sucção conseguiu desafoga-lo, mas o tempo que ele ficou sem oxigenação foi muito extenso, aproximadamente 40 minutos, teve uma parada cardíaca, ainda assim o médico utilizou o desfibrilador e Deus agiu novamente e o Bruno respiro. Sua entrada na UTI foi dada como grave, pois com a baixa imunidade ele adquiriu uma bactéria em seu pulmão e suas chances eram poucas”, detalha Carolina.

O menino surpreendeu novamente, conseguiu reagir. Mas a falta de oxigenação prolongada o deixou em estado de paralisia e seu tratamento é continuado em casa. Atualmente precisa ir a médicos muitas vezes, passa por fonoaudióloga, fisioterapia. Se encontra num quadro de Tetraplagia Espástica, não se move, se alimenta por sonda gástrica e respira por traqueostomia. “Apesar de alguns médicos acharem q ele não está consciente, eu, minha mãe e família temos certeza q ele está sim, pois nos responde tudo através do olhar”, ressalta Carol.

As responsabilidades diárias são compartilhadas com a avó Izabel que assume os cuidados enquanto Carol trabalha. “Quando a Carol cogitou a adoção eu tive medo de não saber cuidar de uma criança especial, mas desde então Deus tem ajudado muito. Tenho certeza que meu amor vai além das dificuldades. Cuido com prazer e esperança de dias melhores para ele que o e o meu tudo” diz Izabel.

A história das três pessoas, mãe, vó e filho representa além de superação o amor mais verdadeiro. “Bruno representa tudo na minha vida, eu sou uma pessoa melhor e que não meço esforços para ajudar o próximo. Sou grata a toda minha família, amigos, religiosos, e muitas pessoas desconhecidas que me ajudam anonimamente. Para minha mãe eu só posso deixar meu eterno agradecimento e dizer que sem ela eu não teria tido condições de fazer o melhor pelo Bruno, e se hoje sou uma super-mãe é porque tenho uma super-mãe, juntas somos guerreiras e unidas num só propósito que é amar e cuidar até que Deus nos permita, finaliza Carolina emocionada.

Hoje o menino que foi adotado aos 2 anos completou a maior idade. Mesmo desenganado várias vezes está com 18 anos

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