Há exatos 518 anos Pero Vaz de Caminha começou a redigir um diário único, histórico, emocionante.

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Se por vezes as efemérides orientam os temas de nossas conversas, o de hoje não haveria como ser diferente. Dia 22 de abril de 1500, a frota de 12 embarcações liderada por Pedro Álvares Cabral avistou terra. Os portugueses chegaram no sul da Bahia.

O documento mais precioso que restou da viagem do descobrimento do Brasil, destinada, na realidade, a criar um entreposto comercial na Índia, é o diário redigido pelo contador da missão, o escrivão Pero Vaz de Caminha. Foram 27 páginas manuscritas de uma riqueza extraordinária, cheia de detalhes, envolvente, mais conhecido como Carta de Caminha, enviada ao rei Dom Manuel I.

E é nesse diário que nos concentramos agora. Vale muito a pena pinçarmos alguns trechos dos muitos de grande interesse, revelador de uma realidade completamente nova para os europeus. O Novo Mundo nada tinha a ver com a secular Europa. Repare, por exemplo, como Caminha descreve os instantes que antecedem a primeira visão da terra, 44 dias depois de sair de Lisboa a 9 de março de 1500, uma segunda-feira:

– Neste dia, a horas de véspera (fim da tarde), houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz. Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças (45 metros); e ao sol posto, obra de seis léguas da terra (25 quilômetros), surgimos âncoras, em dezenove braças (34 metros) — ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite.

No dia seguinte, pela manhã, se aproximaram da praia:

– E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos. Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro. Então lançamos fora os batéis e esquifes (barcos diminutos), e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram entre si. E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.

Fascinante, não acham?, esse relato do primeiro contato dos portugueses com os índios brasileiros, na tribo dos tupiniquins, impressionados com o fato de ser natural a eles caminharem nus, sem esconder “suas vergonhas”.

No dia seguida, já 24 de abril, sexta-feira, a frota estava um pouco mais ao norte, pois precisava de um porto seguro para lançar âncora. Um grupo deixou as caravelas e naus para ir a terra a fim de recolher lenha e água para o restante da viagem até a Índia, com escala na África.

Leia mais, do original, desse relato emocionante:

– E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia (canoa). Trouxe-os logo, já de noite, ao Capitão, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa.

Imagine qual não foi também a reação dos indígenas, ao ver pela primeira vez o homem branco e aquela caravela imensa para seus padrões? Caminha descreve:

– O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa (tapete). Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém.

Bem, nossa história poderia ir longe. Como temos aqui limitações, convido vocês, com energia, a acessar o link abaixo. É o do diário de Caminha, disponibilizado na íntegra pela Fundação Biblioteca Nacional.

http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/carta.pdf

O que você não vai ler no diário de Caminha é que depois de chegar em Calicute, em setembro de 1500, os portugueses estabelecerem a feitoria, ou o entreposto comercial, mas os muçulmanos, preocupados com a perda do monopólio dos negócios, atacaram a feitoria. Foi no dia 15 de dezembro. Nada menos de 30 portugueses morreram, dentre eles Caminha. Tinha 50 anos. Cabral estava na sua embarcação e escapou, mas bombardeou Calicute antes de zarpar para Cochim, abastecer o que restou da frota, apenas seis embarcações, com as tão desejadas especiarias e regressou a Portugal.

 

liviooricchio@gmail.com

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