Esse câncer para o Brasil chamado Gilmar Mendes

51

Livio Oricchio, de São Paulo

Início

Se fosse feito uma pesquisa nacional nestes dias que antecedem as festas de fim de ano sobre quem é o inimigo público número 1 do Brasil, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, ganharia de goleada de qualquer outro candidato.

Encontro-me no Brasil com parte da família que reside comigo em Nice, na França. Alguns dessas pessoas me perguntaram como é possível um homem que deveria ser o primeiro a buscar justiça ser o primeiro a negá-la.

Gilmar Mendes decidiu, por exemplo, libertar Adriana Ancelmo, a esposa do ex-governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral. Ela não foi apenas beneficiária do esquema bilionário liderado pelo marido, que já tem nas costas 87 anos de condenação. E vem mais pela frente. O escritório de advocacia de Adriana recebeu milhões de repasses de verbas fraudulentas da quadrilha de Cabral.

Alegar que os filhos seriam prejudicados com a ausência do pai e da mãe no lar, por estarem presos, é algo que agride o mais elementar dos direitos: o que a torna diferente de outros casais na mesma condição? Por que só Adriana, que com os bilhões que roubou, deixando milhares sem saúde e educação minimamente apropriadas, tem esse direito? E para cumprir prisão domiciliar em um apartamento de alto luxo no elegante bairro de Leblon. É uma fantasia.

Gilmar Mendes foi ainda mais lesivo aos reais interesses do Brasil ao proibir a condução coercitiva, ou a convocação de um investigado para interrogatório. É fundamental todos saberem que o sucesso da Operação Lava Jato só se deu por conta de os investigadores recorrerem com frequência constante à condução coercitiva.

A cada decisão, Gilmar Mendes e seu colega, Dias Toffoli, afrontam a opinião de 200 milhões de brasileiros que, estarrecidos, se perguntam como é possível defender interesses tão particulares em detrimento dos de uma nação?

Voltando ao discurso inicial, sobre a popularidade de Gilmar Mendes, pesquisa realizada em novembro, pelo Instituto Ipsos, apontou que entre os 1.200 entrevistados nada menos de 83% responderam abominar o juiz. Hoje seria ainda maior.

Há vários movimentos no sentido de afastar Gilmar Mendes do STF. Um deles o acusa de partidarismo, explícito no telefonema que deu para o senador tucano Aécio Neves, do PSDB. Na conversa gravada, Neves pede a Gilmar Mendes para “dar uma palavrinha com outro senador tucano sobre certo projeto”.

Em outra conversa gravada, Gilmar Mendes liga para o então governador do seu estado, Mato Grosso, Silval Barbosa, do PMDB, algo de investigação por corrupção na Operação Ararath. “Que confusão é essa, governador? Que absurdo, meu Deus do céu!” No fim, envia um abraço de solidariedade a Barbosa.

Num gesto que mostra como Gilmar Mendes pratica justiça, disse a Barbosa que iria conversar com Dias Toffoli, o responsável por autorizar a Operação Ararath.

Quem lê os milhares de comentários nos pés das notícias surpreendentes que Gilmar Mendes está envolvido, ultimamente quase todos os dias, compreende logo a rejeição feroz do povo ao magistrado. Assim como já ocorreu o impeachment de dois presidentes no Brasil, Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff, há no STF pedidos de impeachment assinados pela população contra o ministro.

Outra decisão que revoltou os brasileiros foi a concessão de habeas corpus, pela terceira vez, ao megaempresário Jacob Barata Filho, conhecido como o Rei dos Ônibus no Rio. Junto dele saiu da cadeia o presidente da Fetranspor, Lélis Teixeira.

São investigados em um esquema milionário de propina aos deputados da assembleia estadual para que aprovassem leis do seu interesse. E contrário aos do povo, lógico. Obviamente esses deputados eram muito bem pagos. Coisa de bilhões.

Como pode um juiz que foi padrinho de casamento da filha de Barata Filho, Beatriz, com Francisco Feitosa Filho, sobrinho de Gilmar Mendes, julgar um pedido que libertação do próprio amigo e agora parente?

E o magistrado chamou ainda a atenção do juiz Marcelo Bretas, responsável pela Lava Jato no Rio, quem mandou prender de novo Barata e Teixeira: “O rabo não abana o cachorro, mas o cachorro abana o rabo”, num gesto de presunção ao lembrar Bretas da hierarquia do judiciário.

Outro acinte é o fato de a esposa de Gilmar Mendes, Guiomar, trabalhar no escritório do advogado Sérgio Bermudes, que atuou em processos da Operação Ponto Final, a que desvendou o esquema de corrupção no transporte público do Rio.

Para o bem da nação, é de extrema importância que esses movimentos que visam o afastamento de Gilmar Mendes do STF sejam bem sucedidos. Em outros países onde a lei é mais observada, alguém que é capaz de ignorá-la tão descaradamente em pró de interesses duvidosos correria riscos elevados.

liviooricchio@gmail.com

COMPARTILHAR

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA