O OBSCURANTISMO INTELECTUAL

320

No século V, a ignorância e insciência prevaleciam nas populações humanas. Magnificamente, existia uma civilização em que estava floreando uma cultura científica. Sua base era a biblioteca de Alexandria, que era a maior cidade do Egito.

Esta biblioteca, edificada por reis gregos no século III a. C. durante sete séculos, de 280 a.C. a 415, reuniu o maior acervo cultural e científico então vivente, milhares de rolos de papiro e livros conservavam toda a ciência até então conseguida, igualava-se culturalmente à Atenas, mas, Alexandria era o cérebro cultural do mundo antigo, era o local preferido dos interessados em ciência. Poderia ter deixado extraordinária contribuição para o desenvolvimento, se não fossem as hordas cristãs, infectadas de cobiça, extremismo e total ignorância, terem iniciado a época de obscurantismo para a humanidade. Nesta época, a ascendência romana sobre o Egito estava em declínio.

A biblioteca de Alexandria foi incendiada, e seu acervo pulverizado com todo seu conhecimento.

Contemporaneamente, vivemos um novo incêndio intelectual nas mentes humanas que retroagem ao obscurantismo ético, científico, moral, entre outros fatores, que contribuem para a volta aos tempos primitivos da humanidade.

A crise humanitária dos refugiados na Europa, a ascensão de Donald Trump nas eleições americanas, a crescente homofobia contaminando as civilizações, as guerras primitivas do Estado Islâmico e as forças de coalização, e o ressurgimento da direita mais fascista são sintomas insofismáveis da era obscurantista em que vivemos.

Esse momento nos leva ao sectarismo extremo como ao fundamentalismo perigoso. Segundo o teólogo do século XIII, o italiano Tomás de Aquino, um dos grandes pensadores dizia: “Temo o homem de um livro só.  Porque acaba caindo no risco de se fechar, de ser obsessivo de disseminar o sectarismo. Já o fundamentalismo está associado à ideia da obsessão dogmática seja religiosa, política, cultural, inflexível à contradição e à aceitação das diferenças”.

Vivemos a triste ilusão de que teremos resultados diferentes de ideários velhos, a renúncia ou simples ignorância, em pensamentos retrógrados, leva-nos à perigosas situações.

O sectarismo obscurantista tem em sua essência a estupidez que é temerária em pessoas com influência e poder.

Ninguém está imune a estupidez, maneira pueril de agir, modo anacrônico de pensar, e extremamente perigoso para quem exerce autoridade.

Exemplo clássico disso foi a acessão de Adolf Hitler numa das sociedades mais sofisticadas da história da humanidade, – ressalta-se que a Alemanha sempre foi referência da filosofia e pensamento humano -, grandes vultos da intelectualidade nasceram ou produziram naquele país.

Em seu livro, “Minha luta”, cita a horrenda conceituação: “temos que ser cruéis, temos de recuperar a consciência tranquila para sermos cruéis” e isso se tornou base no nazi fascismo na Europa.

Relacionar tranquilidade da consciência para a prática da crueldade é a síntese da estupidez e do obscurantismo sectário.

Temos que romper com o anacronismo conceitual, a utilização de ideias de uma época obscura, para renascer contemporaneamente.

E isso deve ser evitado, rechaçado, pois não podemos regredir aos tempos primitivos, de uma era de trevas.

É preciso apagar o incêndio de Alexandria.

 

Henrique Matthiesen

COMPARTILHAR

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA