O IMPONDERÁVEL E AS GRANDES INTERROGAÇÕES

GAUDÊNCIO TORQUATO

A morte do ministro Teori Zavascki cobre o país com um manto de tristeza. Primeiro, pelo imponderável que volta a acinzentar o horizonte com sombras cheias de interrogações. Teremos um ministro com o senso do dever de Teori para dar o tom adequado às investigações da Operação Lava Jato? Nem bem líamos sobre sua disposição de abreviar férias para ler as delações dos 77 executivos da Odebrecht e nos chocamos com a tragédia que ceifa sua vida. Discreto, compunha aquele figurino tão bem traçado por Francis Bacon: “os juízes devem ser mais instruídos que sutis, mais reverendos do que aclamados, mais circunspetos do que audaciosos. Acima de todas as coisas, a integridade é a virtude que na função os caracteriza”. Que juiz será tão comedido quanto Teori? Foi um magistrado sobre o qual não reinavam dúvidas.
O FIADOR DA LAVA-JATO
Teori ganhou respeito pela qualidade de seus votos. Guardava a maior coleção de delações de toda a história do Judiciário, sobre a qual se dedicará seu sucessor, possivelmente um ministro da 2ª turma. Teori era, para a sociedade, o fiador-mor da Lava Jato.
Se o processo decisório nas mãos do novo relator abrir espaço para aliviar a situação de políticos, a inferência será imediata: “a Lava Jato mudou de rumo. A morte de Teori abre espaço para a absolvição de corruptos”. Outra hipótese: “ se apenas alguns políticos forem condenados, é porque o novo relator decidiu aliviar a maioria dos implicados, acomodando as camadas do terremoto que ocorreria com a prisão de grande número de políticos”. Dessa forma, a Lava Jato seguiria seu rumo sob uma coleção de suspeitas.
A tendência na área política, como é sabido, é a de buscar um meio termo. Há forte disposição para se aprovar um dispositivo que possa ampliar o raio de ação do caixa 2. Isso levaria partidos e atores a procurar se abrigar nesse esconderijo e escapar da zona perigosa da propinagem. Essa ideia também será lançada no “vácuo deixado por Teori”. Ou seja, tudo o que poderá doravante ocorrer acabará ganhando um selo de desconfiança, de complô.
O Brasil perdeu um baluarte na arena jurídica. Ele expressava domínio técnico das matérias sob sua responsabilidade e não se mostrava contrariado ante eventuais posições de colegas que confrontavam seu parecer. Não foi objeto de polêmica, mesmo com decisões como as que implicaram a prisão do senador Delcídio do Amaral e o afastamento do deputado Eduardo Cunha da presidência da Câmara.
A TRAVESSIA SOBRE O ABISMO
O Poder Executivo, por sua vez, terá enorme papel na ordenação do equilíbrio no Supremo, a partir da nomeação do magistrado para o lugar de Zavascki. As indicações já começaram em torno de perfis e as abordagens abrem posições: uma ala que defende a imediata nomeação do novo ministro, que abriga a ideia de o presidente Michel Temer aliviar a carga de pressões que continuará até o desfecho do caso; e o grupo que defende uma decisão não tão imediata, ou seja, após o término do recesso congressual.
Ao Senado compete endossar ou negar a indicação do nome escolhido pelo presidente da República. Nesse momento, observa-se intensa preocupação com os desdobramentos da Operação Lava Jato.
Comentários e análises de todos os lados se multiplicam. A disputa de interesses acende os polos de poder e faz emergir uma torrente de insinuações e suspeitas.
A pergunta é pertinente? E se o novo relator foi designado pela presidente Carmen Lúcia e sob sorteio entre os ministros da segunda turma ou mesmo junto ao corpo inteiro do Supremo? As ilações e interrogações continuarão? A resposta é positiva. A Operação Lava Jato entra em um novo ciclo.
Que a lembrança do ministro Teori Zavascki sirva de lume.

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

VAMOS CONSTRUIR A PÁTRIA

GAUDÊNCIO TORQUATO
            Os Países são expressões geográficas e os Estados são formas de equilíbrio político. A Pátria, porém, transcende esse conceito: é sincronismo de espíritos e corações, aspiração à grandeza, comunhão de esperanças, solidariedade sentimental de uma raça. Enquanto um País não é Pátria, seus habitantes não formam uma Nação. Este breve resumo, pinçado de um dos mais belos ensaios morais sobre a mediocridade, de autoria de José Ingenieros, deve servir como lição aos nossos governantes neste ano que chega ao fim. Construir a Pátria para se alcançar o estágio avançado de Nação se configura como o primeiro dever do homem público.
A ideia pode até parecer despropositada aos porta-vozes da politicagem e demagogos que fartam os apetites com a exploração do sentimento cívico das populações. Mas a verdade é que, depois de 517 anos do Descobrimento, a Pátria brasileira é apenas arremedo de um bom conceito. Estamos longe daquela emulação coletiva que distingue na Mãe Pátria o anelo da dignidade. Basta observar a deficiência das estruturas públicas. A crise entre os Poderes se intensifica. A sociedade toma distância oceânica da política. A descrença nas instituições se espraia vertiginosamente. Um poder sem moral se instala nos ambientes. As fontes éticas se esgotam. As investigações em curso mostram o poço profundo em que o Brasil foi jogado. As injustiças ganham corpo, escudadas no desleixo e na incúria de administrações, na irresponsabilidade de governantes, na desobediência às leis e no acesso ainda desigual dos cidadãos aos canais da Justiça.
Os traços da civilização brasileira carregam uma dose elevada de tintas da barbárie. O Brasil é um país moderno. Basta olhar ao redor os avanços da tecnologia, a capacidade de produzir bens e serviços sofisticados, a revolução nas comunicações, os mais de 100 milhões de brasileiros conectados à Internet, o avanço da moda, a socialização da cultura, entre outros aspectos. Apesar de tudo isso, tem sido uma tarefa complexa, às vezes impossível, passar a borracha no país do analfabetismo funcional, dos assassinatos; da ladroagem que continua a assaltar os cofres públicos; do território onde a pobreza convive ao lado da riqueza; dos potenciais devastados por ambição; da desintegração de padrões de relacionamento social e do solapamento de valores fundamentais, como o culto à família, o cumprimento do dever, o respeito às tradições e a defesa do bem comum.
Alguém poderá objetar: mas essa é a inversão moral que toma conta do mundo, ou o paradigma do “puro caos”, como assim designa Samuel P. Huntington, em seu livro O Choque das Civilizações, onde assinala a ruptura da ordem, a anarquia crescente, a onda global de criminalidade, a debilitação geral da família e o declínio na solidariedade social.
A hipótese é razoável, mas o adendo é indispensável: o Brasil põe um molho peculiar no menu da entropia universal, com as mazelas do passado colonial, entre as quais a árvore do patrimonialismo, que continua a brotar galhos tortos, transformando a res publica em coisa privada. Essa é a razão da crise entre nós. A política passa a ser profissão, deixando de ser missão. Para corrigir o conceito, é necessário refundar a República corrompida. Quando uma República se corrompe – lembra Montesquieu –, não se pode remediar nenhum dos males que nascem, a não ser eliminando a corrupção e voltando aos princípios. Como combater a corrupção sem eliminar os corruptos? Vamos esperar que o Judiciário e o Ministério Público deem respostas satisfatórias. Não usando, porém, os recursos da espetacularização.
A assepsia deve ser geral. A começar pelos Poderes do Estado, cujas atitudes devem se guiar pelo cumprimento de suas funções constitucionais, evitando interpenetração de territórios.  É oportuno que cada Poder se esforce pela construção da Pátria. Não é hora de casuísmos, gastos perdulários, renegociação de dívidas de Estados sem contrapartidas, cooptação ilícita de apoios e partidarização do Estado. Convém eliminar o empreguismo e o loteamento de setores. O corpo parlamentar há de aceitar a concepção de que mandato ganho nas urnas pertence ao povo, não pertencendo a ele. O representante é um fiduciário que defende interesses gerais, e não particulares, com deveres e direitos, entre os quais o ganho pelo trabalho. Urge cortar despesas, não gastar mais do que se arrecada.
Os quadros do Judiciário hão de lembrar que “os juízes devem ser mais reverendos que aclamados e mais circunspectos que audaciosos”, elegendo a integridade como virtude, como ressalta Francis Bacon. Se os Poderes cumprirem as obrigações que lhes são atinentes, o País caminhará sem atropelos. As leis precisam ser cumpridas. E as instituições devem ser respeitadas. A cidadania há de ampliar seus espaços principalmente na base da pirâmide social. As sombras precisam dar lugar a luz. Transparência é a palavra-chave. A violência deve ser banida das ruas. Partidos e candidatos hão de vestir o manto da assepsia.  Que os horizontes de 2017 sejam mais límpidos. Mais éticos e menos espalhafatosos. Ouçamos discursos sérios. Vejamos administrações mais racionais. Menos escândalos. Menos sujeira nas sarjetas da política. Menos invencionice. Mais verdade. Sob essa teia de valores e princípios, podemos fazer com que a fé volte a brotar nos corações.  
  Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato  
 

VIDA PRIVADA E VIDA PÚBLICA

GAUDÊNCIO TORQUATO
              “O estadista deve trazer o coração na cabeça.” A frase de John Kennedy, o mais querido presidente dos EUA, possivelmente explique por que sua vida íntima foi cercada de mistérios e boatos, abrigando um relacionamento com o mais famoso símbolo da sensualidade feminina no cinema, Marilyn Monroe. Guiar-se pela razão tem sido desafio dos mais instigantes para todos os que militam na vida pública, sendo raros os que conseguem atravessar os longos corredores do poder sem cair nas armadilhas da vida privada. Estas marcam de maneira indelével o seu perfil. Lembremos o affaire envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky, no gabinete anexo ao famoso Salão Oval da Casa Branca, símbolo máximo do poder norte-americano. E, mais recentemente, as conversas de Estado feitas pela candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, usando seu e-mail pessoal. Esse foi seguramente um dos fatores responsáveis por sua derrota.
Em nossa memória, ainda é forte a imagem do ex-governador Sérgio Cabral, em um hotel chique de Paris, comemorando com amigos o aniversário de sua mulher, a advogada Adriana Ancelmo, cuja vida passou a ser vasculhada pelos órgãos de controle e pela mídia. Ambos são objeto de investigação. A fotografia de Cabral, de camiseta verde de presidiário em Bangu, no Rio, junta-se à imagem de guardanapos enfeitando as cabeças do grupo dançante em Paris. Olhem-se para as fotos dos polêmicos imóveis (sítio em Atibaia e duplex no Guarujá), cuja propriedade é atribuída a Lula, para se concluir que a vida privada acaba criando impacto sobre a vida pública de protagonistas da política.
VIDA PRIVADA E INTERESSE SOCIAL
A deterioração da imagem de atores políticos por eventos escandalosos tem sido comum no ciclo de fosforescência midiática em que vivemos. A questão é: a vida privada do homem público deve ser objeto de interesse social? Resposta inapelável: sim. O homem público tem o dever de compatibilizar a vida privada e a pública, na medida em que ambas são forjadas por valores e princípios que expressam seu caráter. A Constituição expressa serem invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. É inquestionável tal pletora de direitos. Mas estes devem ser exercidos para garantir a cidadania.
Uma coisa é o ato particular, que ocorre no sagrado espaço do lar ou no ambiente pessoal de trabalho, outra é o evento privado que se desenvolve em território público. E mesmo em locais privados a conduta do homem público há de ser condizente com os valores republicanos e com preceitos éticos e morais da sociedade. Quando altas autoridades de uma nação são flagradas em situações torpes, despencam no ranking da credibilidade social. Passam a ser motivo de vergonha e chacota. Os pacotes de dinheiro, flagrados por pessoas em fuga, as gravações (sem cobertura legal) entre políticos e seus advogados, adereços e jóias (algumas de alto custo) acabam plasmando a imagem de interlocutores e acusados.
É bastante tênue, como se pode perceber, a linha divisória que separa o comportamento íntimo do ator político de sua vida pública. Na história dos governantes, alguns souberam tirar proveito (e fazer marketing) de situações privadas, principalmente por meio de gestos, atitudes e manifestações voltadas para conquistar a simpatia popular. Líderes que procuram “humanizar” a imagem são, em geral, aplaudidos e admirados, eis que despertam nas massas sentimentos de familiaridade, simplicidade e proximidade. Na França, o presidente Giscard d’Estaing costumava sair pelas ruas, participar de partidas de futebol, exibir-se em festivais de acordeão, visitar prisões, convidar varredores de rua para tomar café da manhã no Palácio Eliseu. Outros exageram nos gestos, resvalando, por conseguinte, pelo perigoso terreno da galhofa. Pierre Trudeau, pai do atual primeiro-ministro do Canadá, em recepção cerimoniosa, chegou a escorregar pelo corrimão de uma escada. Noutra feita, ocupou lugar na Câmara dos Comuns envergando camisa polo, paletó esporte e sandálias. Dessacralizar o poder, descer do Olimpo para a terra dos mortais, circular no meio do povo completam a bagagem de artifícios de governantes para atrair a simpatia da população. Tal sinalização contém alta taxa de demagogia.
CARISMA E REJEIÇÃO
Há, portanto, atos privados que são apreciados pela sociedade. E esta tolera certa liberdade de costumes e até uma dose de insolência. Mas o carisma do governante ajuda a aplainar arestas. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, vale recordar, foram presidentes namoradores, o que não lhes corroeu a fama. Thomas Jefferson, um dos homens mais admirados dos EUA, protagonizou um “escândalo” amoroso, o caso com uma de suas escravas, Sally Hemings, que fora a Paris cuidar da filha mais velha do presidente, na época com 9 anos de idade. Já o político inglês John Profumo, que tinha o cargo equivalente ao de ministro da Guerra, um dos heróis do Dia D (desembarque aliado na Normandia durante a 2.ª Guerra Mundial), foi protagonista de um grande escândalo: o envolvimento com a modelo Christine Keeler, no começo dos anos 60.
A rejeição a comportamentos de governantes tem a ver com o espírito do tempo. Por aqui, a permissividade, particularmente no que concerne à apropriação do patrimônio da res publica, tem sido enorme, bastando ver os mais de R$ 6 bilhões roubados da Petrobras. Daí a onda ética e moral que se espraia pelo país sob o empuxo da República de Curitiba. Um sentimento de repúdio toma a alma de classes, grupos e setores. Respeito às leis, igualdade, consciência de direitos começam a ser parâmetros para avaliar o desempenho na vida pública. A comunidade passa a exigir mais rigor na política. Desvios de padrão são denunciados pelo universo abarcado na Operação Lava Jato. Só da Odebrecht serão 77 executivos a abrir o bico na “delação de fim do mundo”, como está sendo designada. Doravante, quem se arriscar a trilhar descaminhos afundará, inexoravelmente, no poço do descrédito.
Quem desejar galgar os degraus mais altos do poder, aprenda a lição de Kennedy: “guarde o coração na cabeça”.
    
  Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato  

O PLEITO E OS PRIMEIROS SINAIS DO FUTURO

GAUDÊNCIO TORQUATO

O PSDB aparece como o grande vencedor do pleito que se encerra. Deverá eleger mais de 800 prefeitos, 15% a mais do que obteve em 2012. A vantagem dos tucanos se dá principalmente na esfera das 92 maiores cidades brasileiras, onde já elegeu 15 prefeitos no primeiro turno, disputando hoje em outros 19 municípios. Sua vitória permite divisar horizontes. O primeiro diz respeito ao campo doutrinário. A social-democracia, de matiz brasileira, sai fortalecida. Isso quer significar a fixação de pinos no espaço central do arco ideológico, com tendência de ocupação mais forte no campo de centro-esquerda. Esse empurrão mostra um eleitor contrário aos radicalismos e extremos ideológicos.
O tucanato se alinha ao governo Temer, endossando sua política de racionalização do Estado com a consequente desestatização de áreas, e adoção de programas de cunho social, entre eles o da Bolsa Família, gerado no ciclo petista, importante instrumento de distribuição de renda. A vitória do PSDB também representa um veto do eleitor ao PT e suas lideranças, a partir de Lula e Dilma, aos quais se atribuem a derrocada da economia e a maior recessão de nossa história. Portanto, o maior derrotado é o PT, que leva a fama de ter coordenado monumental esquema de corrupção, objeto de investigação da Operação Lava Jato. O último bastião petista, João Paulo, ex-prefeito do Recife, tende a ser derrubado, hoje, pelo atual alcaide, Geraldo Júlio, do PSB.
Os tucanos ganham cacife para entrar fortes no tabuleiro de 2018. Três deles se apresentam como protagonistas centrais: Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra. Alckmin certamente assume posição de maior relevo em função da extraordinária vitória de João Doria no primeiro turno em São Paulo, metrópole de maior densidade eleitoral do país. Já a vitória ou derrota do tucano João Leite, em Belo Horizonte, medirá a temperatura de Neves. Caso vença, melhora sua posição no ranking. A recíproca é verdadeira. José Serra, atual chanceler, acompanhará atentamente o desenrolar do ativismo tucano nos próximos tempos para tomar, mais adiante, a decisão: se quiser ser candidato à presidente em 2018, poderá sê-lo em outra agremiação.
CAPILARIDADE DO PMDB
O pleito mostra, ainda, que o PMDB continuará a dar as cartas no jogo, eis que, mesmo não obtendo a maior votação, contará com o maior número de prefeitos: elegeu 1029 no primeiro turno, vencendo em 5 das 92 maiores cidades e disputando, hoje, em mais 15. Trata-se da entidade com maior capilaridade no território. Além de médios, abarca considerável quantidade de pequenos municípios. O PMDB simboliza o equilíbrio da balança do poder, fazendo alianças à esquerda ou à direita, detendo, assim, imensa capacidade de ser o maestro da orquestra. Sua força poderá ainda ser avaliada pelo maior número de vereadores eleitos, ao qual se somam as maiores bancadas de deputado estadual, federal e de senadores.
Partidos médios e pequenos avançam nas cidades, sendo mais competitivos que na eleição de 2012. Chamam a atenção candidatos dessas siglas disputando o segundo turno em Belo Horizonte (Alexandre Kalil-PHS), Aracaju (Edvaldo Nogueira-PC do B), Belém do Pará (Edmilson Rodrigues- PSOL), Macapá (Clécio Luís-Rede), Vitória( Luciano Rezende-PPS) e no Rio, onde o PSOL tem o perfil para conquistar o maior número de votos, Marcelo Freixo. Os partidos médios, em sua maioria (exceção do PDT, parte do PSB), tendem a se incorporar ao amplo grupamento que ancora o governo, reforçando a tese de que os horizontes do amanhã ganharão uma tintura acentuadamente situacionista.
A FORÇA DO SITUACIONISMO
Analisemos a hipótese. Sobre o território municipalista que hoje estabelece nova base serão edificados os pilares das campanhas estaduais e federal de 2018. A radiografia política que começa a ser vista exibe um corpo intensamente situacionista, formado por um aglomerado de partidos inseridos na base do governo. Os traços oposicionistas, fragmentados e dispersos, sugerem que as forças por eles representadas terão chances reduzidas de marcar forte presença na paisagem eleitoral de 2018. O PT foi praticamente triturado do mapa político, transferindo ao pequeno PSOL a herança de oposição ideológica no espectro partidário. O PT não estará morto e Lula continuará muito vivo para tentar resgatar a história de conquistas do partido. Mas em dois anos essa perspectiva é remota.
O calibre da força e da fraqueza da situação e da oposição será dado pela economia. Arrumada, organizada, trará confiança ao mercado, recuperará investimentos e diminuirá o tamanho da massa desempregada. Sob essa hipótese, é provável que o aumento do Produto Nacional Bruto da Felicidade e da Harmonia produza intensa adesão à gestão governamental. Os atores políticos agirão sob o pragmatismo. Governo aprovado puxará seguramente seu apoio. Nesse caso, também a recíproca é verdadeira. Se o país permanecer no fosso da recessão e do desemprego, os blocos oposicionistas ganharão volume. Nessa onda, PT, PSOL e PC do B teriam chances de apostar em urnas gordas. Dessa forma, fatores exógenos – recuperação da economia, diminuição do desemprego – determinarão os rumos partidários.
Se a conjuntura econômica, portanto, se apresentar favorável, é viável apostar na hipótese de que candidatos mais competitivos em 2018 serão aqueles que colaboraram para a melhoria de vida da população. PSDB, PMDB, PSD, PSB ou DEM, por exemplo, serão motivados a lançar candidatos. Nesse caso, dois, três ou mesmo quatro competidores deverão surgir, representando sentimentos e posicionamentos de um gigantesco centro social: um mais centro-direita, outro mais centro-esquerda e até outro que encarne o papel de antipolítico, nos moldes de Doria, em São Paulo, ou Kalil, em BH. Haverá tempo para uma acomodação das “placas tectônicas” da política até as margens de 2018. O ano de 2017 será acompanhado com muita atenção, deixando espaço para trocas partidárias, reposicionamentos de lideranças, formação de parcerias. A tendência de agregação de siglas será forte caso o governo Michel Temer adquira musculatura e aprovação social.

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

A ESQUERDA DE BANDEIRAS ENROLADAS

GAUDÊNCIO TORQUATO
              Onde estão as bandeiras da esquerda? O que pode ser ainda eixo do discurso da esquerda no Brasil? Depois da estrondosa derrota do PT e da pequena movimentação que eleva em alguns pontos a posição do PSOL no espectro ideológico, torna-se bastante difícil enxergar colheitas vermelhas (identificadas nas roças da esquerda) no território. É claro que não se pode afirmar que a cor vermelha se apagará na paisagem, eis que grupamentos como MST, CUT, MTST e outros minúsculos enclaves ainda se vestirão com o manto cor de sangue. Mas as bandeiras da esquerda, no sentido do discurso, estas, sim, passarão um bom tempo esquecidas no baú.
Nesses tempos de alta tensão política, com o desdobramento do processo de investigação pela Operação Lava Jato, a preocupação central dos atores políticos é a de sobreviver aos sobressaltos. Se os inputs ideológicos sofrem refluxo na esteira das crises econômicas que têm abalado as Nações, imagine-se o que se infere sobre a esquerda brasileira quando sua fortaleza avançada – o PT – é derrubada por bombardeios devastadores. E mais: quando o país ingressa na maior recessão de sua história. Desde os tempos do mensalão, o Partido dos Trabalhadores tem sido considerado o eixo central da engrenagem de corrupção que consome os recursos do Estado. Logo, seu discurso de “esquerda” deixou de receber endosso. Passou a ser mentiroso.
O DISCURSO DE ESQUERDA
Afinal, o que seria de esquerda para os ideólogos petistas? Dar ao Estado uma conformação paquidérmica; locupletar a máquina administrativa com milhões de militantes; fechar as empresas do Estado para qualquer iniciativa que implique abertura de programas e compartilhamento de ações com a iniciativa privada; e promover uma gastança sem fim, na crença de que os recursos do Tesouro são infinitos. Por aí se mede o tamanho do legado esquerdista que o arquipélago petista gostaria de imprimir ao país. O fato é que nem aqui nem alhures a esquerda consegue expandir seu roçado. Ao contrário, o que tem ocorrido é uma ligeira inclinação à direita, sob o empuxo de forças do mercado, que tentam buscar alternativas para os gargalos das economias em todos os recantos.
É evidente que o Estado deverá continuar a deter seu papel de controle e intervenção quando as crises assim o exigirem. Isso foi o que aconteceu na crise de 2008, quando a maior democracia ocidental, os Estados Unidos, se obrigou a intervir no mercado e a controlar os rumos da economia. Mas o fato é que o Estado não tem cumprido suas tarefas e funções, ante a inexorável pressão de populações desassistidas e carentes. Os serviços públicos têm entrado em situação de penúria. Os equipamentos das estruturas de saúde, educação e mobilidade são precários e defasados. Ante as demandas crescentes, por parte de conjuntos cada vez mais críticos e exigentes, o Estado só tem uma alternativa: repartir suas funções com a iniciativa privada.
Essa é a radiografia que remanescentes da ortodoxa esquerda não querem enxergar. Por isso, abrem suas tubas de ressonância para deflagrar campanhas negativas contra gestores e representantes que pregam o avanço e jogam suas fichas no tabuleiro da modernidade. O presidente Macri, na Argentina, tenta viabilizar uma administração voltada para salvar a economia do país. Por aqui, é visível o esforço do governo Temer para tirar o país do buraco mais fundo de sua história econômica. A economia é o foco da administração. Azeitada, a locomotiva econômica puxará os carros do trem para os trilhos, garantindo recursos para pagar os aposentados, expandindo o mercado de trabalho, consolidando os eixos da educação de qualidade, garantindo investimentos na infraestrutura.
O DISCURSO DO AVANÇO
         Na maior metrópole do país, São Paulo, o prefeito eleito, João Doria, promete agir sob o mesmo espírito de modernização das estruturas. Teremos uma máquina menor, mais funcional, mais ágil, tocada por quadros qualificados. Em muitos municípios, entre os 5.668, o discurso de avanços poderá dar o tom do novo ciclo político-administrativo que se inicia. Não há mais condições para que velhas práticas da administração e da política continuem a ser usadas. Daí a necessidade de um choque de cultura. Os grupos que agem no entorno do Estado precisam mudar  comportamentos. As Centrais Sindicais constituem um exemplo. Parecem arremedos do sindicalismo de proveta. Lutam para receber contribuições cada vez mais gordas do sistema confederativo. E usam recursos para aumentar ricos patrimônios com imóveis e instalações suntuosas.
         Os partidos políticos, por sua vez, haverão de ganhar escopos conceituais, de forma a criar e a preservar uma identidade. Não são necessários mais que 10 a 15 partidos. Cláusulas de desempenho – votação acima de um teto em um determinado grupo de Estados – condicionarão sua existência. Sua participação nas administrações se faz necessária, até porque a meta de um partido é alcançar o poder. Mas os entes devem fazer indicações meritórias, quadros preparados e tecnicamente capacitados para exercer os cargos. A responsabilidade no campo da administração pública se fará absolutamente necessária. De forma que serviços malfeitos, desleixo, apatia, desorganização, falta de zelo por parte dos gestores implicará seu imediato afastamento das estruturas públicas nos três níveis da administração – União, Estados e Municípios.
         Transparência e controle – eis dois valores que haverão de ganhar força nos próximos tempos. A abertura dos canais da administração dará clareza aos contratos, propiciando disputas ordenadas por critérios de justiça. Controlar o fluxo e o cronograma de obras será fundamental para dar eficiência à administração pública, ao mesmo tempo em que aumentará o grau de confiança dos cidadãos em seus gestores.
           Não há como inserir a tecla da “esquerda” nessa planilha de conceitos e valores. Por isso mesmo, sugere-se aos retardatários que ainda não chegaram ao século XXI, que despertem de seus sonhos. Parecem  ter adormecido antes da queda do Muro de Berlim e ainda não despertaram. Abram os olhos antes que sejam jogados no monturo das coisas rotas e sem uso.    
  Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato  

AONDE A CRISE NOS LEVARÁ?

GAUDÊNCIO TORQUATO
 

        A crise política ganhou alto grau de tensão, mas ainda não chegou ao ponto de combustão. Ao pedir a prisão de Renan Calheiros, presidente do Senado, do senador Romero Jucá, do ex-presidente da República e ex-presidente do Senado, José Sarney e do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, cometeu o ato mais polêmico de sua ação no desenrolar da Operação Lava Jato. A polêmica começa com o pedido conjunto de prisão de Cunha e dos outros três. Se  Cunha, mesmo afastado das funções de presidente, é acusado de tentar torpedear a votação sobre sua cassação pela Comissão de Ética, na Câmara, os outros são acusados de obstruir as investigações da Lava Jato.

         A clara distinção de motivos produz certa dissonância para a compreensão da decisão do procurador, na medida em que os pesos dos dois lados da balança adotada são diferentes. A massa expressiva que se extrai das gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com seus interlocutores – Sarney, Renan e Jucá – não ultrapassa o território da opinião. Uma coisa é opinar, emitir juízo de valor, criticar, denunciar, enfim, manifestar contrariedade; outra coisa é partir para a ação, operar, organizar ações para brecar investigações. Se a motivação para o pedido de prisão dos três estiver ancorada no exclusivo espaço das interlocuções ouvidas, Janot poderá ver negado seu pedido por parte do ministro Teori Zavascki. Há indicação de que outras razões, extraídas da delação de Sérgio Machado, teriam sido alinhavadas.

         Analisemos, agora, os efeitos da bomba jogada por Rodrigo Janot. A expansão das tensões no Congresso cria embaraços de monta, atiçando as preocupações de todos, formando um escudo corporativo de defesa do corpo parlamentar, estabelecendo o espírito de corpo. O resultado da contra-ofensiva deverá ser a desaprovação pelo plenário da Câmara Alta das prisões dos senadores Renan e Jucá. Claro, se o STF decidir nesse sentido. A crise entre os Poderes Legislativo e Judiciário chegaria, nesse caso, ao pico da montanha. A fissura  do tecido institucional estaria exposta. A análise desse abalo certamente pesará na cognição do ministro Teori nesses dias que precedem sua decisão sobre a matéria.

         O affaire deixa ver outras sequelas. Os vazamentos de investigações levadas a cabo pelo Ministério Público, Polícia Federal e pela primeira instância do Judiciário apontam para a quebra da ordem, escancarando a  ruptura da disciplina que deve reger a administração da justiça no país. A desordem – que se instala com vazamentos muito bem ordenados – não pode ser uma arma a serviço de operadores do direito e da justiça. Se a intenção é buscar, por meio de informações vazadas,  o apoio da opinião pública para colocar poderosos no xilindró, pode-se aduzir que o princípio maquiavélico –o fim justifica os meios – instala-se no altar dos nossos valores republicanos. Será difícil removê-lo, até porque contingentes de jovens procuradores – muitos até com sólidos ideais – decidiram vestir o manto de “Salvadores da Pátria”. Muito cuidado com o método do “vale tudo”.

          Os recentes eventos mostram que o aparato político-partidário nacional está em frangalhos. Demonstração da hipótese é este pedido de prisão de quatro perfis que habitam o fechado circuito da presidência: Sarney, ex-presidente da República e do Senado; Renan, presidente do Senado; Jucá, presidente do PMDB e Cunha, presidente da Câmara. Mesmo que se livrem da prisão, os estragos sujam a imagem da instituição política. Se as mais fortes lideranças são tragadas pelo terremoto que destrói as belas linhas das cúpulas côncava e  convexa do Congresso, que visão pode se ter do amanhã de nossa política? A impressão é: chegamos ao fim da linha. Estamos fechando o ciclo da velha política. Não significa que o país, de maneira abrupta, passe a mergulhar na era banhada por águas da ética e da moral. Não se muda uma cultura política da noite para o dia. Mas é possível prever um espaço político mais asséptico e menos focado nos ismos da árvore patrimonialista: fisiologismo, mandonismo, filhotismo, nepotismo, caciquismo, grupismo.

         Para tanto, as alternativas são estas: práticas políticas comprometidas com as demandas da população; disciplina e fidelidade partidárias; partidos com ideias e programas, não massas amorfas e pasteurizadas; atores conscientes de sua missão, que não vejam a política como escada para enriquecimento; um sistema de governo capaz de enfrentar dissabores, tensões e crises, como o parlamentarismo; ou um presidencialismo de coalizão, à base de compartilhamento não apenas de espaços na administração, mas com efetiva participação dos partidos nas políticas públicas. Outras instituições hão de se amoldar aos novos sistemas e práticas. Não é admissível que vivamos sob o terror de um Estado policial, povoado de câmeras e gravadores, conjuntos tecnológicos montados para invadir a intimidade de pessoas e famílias. Urge extirpar o vírus do arbítrio e do autoritarismo que parece ganhar acolhida por parte de grupos sectários.

         O Estado-Espetáculo, em cujos palcos atores de muitas peças apreciam se exibir, há de ceder lugar ao Estado da Ordem e do Direito, onde baderneiros se verão impedidos de bloquear estradas, fechar ruas e ameaçar o fluxo da vida produtiva. Como se dará o ponta-pé inicial deste magnífico empreendimento para mudar a política? Por meio de um pacto entre as instituições. Cada qual deve procurar acertar seus prumos, ajustar ponteiros, redimensionar processos. Na área política, os representantes precisam ter coragem de olhar para  a frente. Não se pode impedir que operadores do Direito deixem de cumprir suas funções. Após se concluir a  Operação Lava Jato, as instituições nela envolvidas haverão de buscar formas de aperfeiçoar funções, adaptando-se à modelagem necessária à modernização do Estado.

         Nada se fará sem a aprovação da sociedade. O poder emana do povo e em seu nome será exercido. Que seja essa a chama a iluminar a Nação brasileira.  

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

SER E ESTAR NO GOVERNO

GAUDÊNCIO TORQUATO

Reinar, mas não governar. Essa é a ameaça que paira sobre a cabeça de mandatários que fazem da autossuficiência o molde de seus governos. Nas democracias modernas, governar é repartir, dividir, compartilhar com os parceiros políticos a administração pública. Pela ausência dessa prática, os governos, particularmente por estas plagas, têm perdido força. Nos anos do lulopetismo, incluindo a gestão da presidente Rousseff, os atores partidários até foram convidados a participar da administração. Mas não como parceiros; foram chamados para integrar o time governamental, sem direito, porém, a opinar sobre políticas públicas. Em termos mais concretos, o governo nomeou ministros de muitos partidos, mas estes viram seus poderes limitados. Alguns até passaram a ser monitorados por quadros petistas fincados ao seu redor.

Governos que assim agem acabam experimentando derrotas sucessivas no Congresso. E até impedimentos. O passado registra o caso de Fernando Collor de Mello. Não fazia articulação com a base política. Sem capital político, foi empurrado para fora da Presidência da República por um impeachment. Algum verniz de distanciamento entre o Executivo e o Congresso também pode ser enxergado no ciclo Dilma. Que, como se sabe, cultivou imenso desprezo pela base parlamentar.

O nosso chamado “presidencialismo de coalizão”, portanto, não se apoia em bases sólidas. Frequentemente, balança em areia movediça que gera instabilidade. A explicação é a forma de relacionamento do Executivo com os partidos que lhe dão sustentação. Adota uma forma considerada ortodoxa, unilateral, sem reciprocidade. O maior partido do país, o PMDB, por exemplo, sempre se queixou por não ser governo, mas estar no governo. Foi assim durante a era petista.

A diferença entre ser e estar conduz aos fundamentos do “presidencialismo de coalizão”, nos termos descritos pelo cientista político Sérgio Abranches em 1988, que pressupõem três momentos: a constituição pelos partidos de uma aliança eleitoral e sua união em torno de um programa mínimo; a formação do governo, a partir do preenchimento de cargos e compromissos com a plataforma política; e a transformação da aliança inicial em coalizão governativa. Ser governo significa assumir responsabilidades nesses três momentos.

Sob essa perspectiva, os governos deveriam amalgamar as posições programáticas dos partidos, contemplando-os na operação administrativa de acordo com a sua respectiva densidade política no Congresso Nacional e observando a identidade e as vocações de cada um. Mas isso não é visto no cotidiano da administração. A disparidade no atendimento das demandas partidárias abre contrariedades, organiza emboscadas, gera traições.

As disputas por espaços se acirram sob o leque do fisiologismo, mazela histórica de nossa cultura política. A crise política por que passa o país tem muito a ver com essa distorção. O PT sempre cultivou a ideia de formar sua redoma de poder, só admitindo (a fórceps) compartilhar espaços na Esplanada dos Ministérios. Nunca arredou mão do lema “nós aqui e eles lá”. Em outros termos, o PT sempre quis dizer: nós somos governo, e vocês, aliados, estão aqui de passagem. São convidados circunstanciais. Estar no governo, pois, é ocupar cargos sem a prerrogativa dos ocupantes de interferir no ideário governamental. Essa tem sido a modelagem que gera insatisfação das bases partidárias.

O resultado é um embate permanente entre alas e grupos. Ao deixar de contemplar posições e visões dos participantes da base, o Executivo faz uma interpretação enviesada do “presidencialismo de coalizão”. Qual a razão para tanta autossuficiência? Resposta: o caráter do hiper-presidencialismo. O Poder Executivo ganhou força com a Constituição federal de 1988, que dotou o governo de extraordinário instrumento legiferante (a medida provisória). Além deste, outros meios têm expandido o cacife presidencial: a adoção do regime de urgência na tramitação de projetos de lei; o mecanismo de votação simbólica de lei pelos líderes partidários; a legislação tributária centralizadora e a própria Lei de Responsabilidade Fiscal.

Com essa armação, o Palácio do Planalto, nos últimos anos, passou a enquadrar as políticas do Estado em duas bandas: uma com capacidade decisória sobre metas de câmbio, política de juros, cujos efeitos se fazem sentir nas políticas de emprego e renda; a outra, sem poder decisório central, fica repartida entre os apoiadores. Não por acaso floresce no País um autoritarismo civil sem precedentes. As tensões entre os Poderes atingem um clímax. O barão de Montesquieu (quem se lembra dele?), com seu sistema de pesos e contrapesos, vê quebrada a harmonia que pregava entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Diante dessa moldura, cai bem a proposta do presidente em exercício, Michel Temer, de dar forças aos ministros, permitindo-lhes conduzir suas áreas com conceitos e estratégias próprias, bastando que sejam afinadas ao escopo governamental. Ou seja, ele quer ajustar a gramática do poder, começando com a declinação dos verbos ser e estar. Os integrantes da plataforma governista agora poderão dizer que são governo e, assim, participar da elaboração das regras do jogo, não apenas nele entrando como coadjuvantes. Esse é o desafio que se apresenta ao “presidencialismo de coalizão”. Sem essa condição, o que teremos é a continuidade da colisão.

É evidente que a aprendizagem na cartilha dessa feição presidencialista demandará compromisso dos entes partidários com valores éticos e princípios morais, sem os quais os domínios administrativos se tornarão feudos de caciques e interesseiros. Posições mais transparentes, articulação das forças sociais para participar da formulação das políticas e calendário de implementação dos programas ajudariam a compor uma identidade governativa homogênea. Ganharíamos, sem dúvida, uma República mais limpa.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

MOSQUITOS, TRAGÉGIAS E DESLEIXO

                       O mosquito da dengue continua sugando corpos e deixando um rastro de sofrimento pelo país. A conclusão é patente: o Brasil tem fracassado no combate a esse bichinho, o Aedes Aegypti, eis que, a cada ano, um surto explode em algumas regiões. Mas a crônica das doenças é mais densa: esse mesmo mosquito, responsável pelo surto de febre chikungunya no ano passado, transmite também o zika vírus, um séria ameaça e um tormento para as gestantes desde meados deste ano.

Os cientistas o chamam de arbovírus, que aportou por estas plagas tropicais vindo das florestas africanas e espalha terror, com o mal assemelhado à dengue. Seus efeitos aparecem na má formação congênita do cérebro, cujo perímetro cefálico é menor que o normal, habitualmente superior as 33 cm. O pavor da epidemia de microcefalia se espalha entre famílias, sinalizando que as férias de final do ano no Nordeste, principal região afetada, serão acompanhadas pelo medo do vírus africano.

Em Minas Gerais, a tragédia que se abateu sobre a região, a partir de Mariana, devastando 15 km2, é o retrato purchasing Plavix online da irresponsabilidade de governos e empresas em relação ao meio ambiente. Nessa frente, o discurso é de mais e as ações preventivas são de menos. De tragédia em tragédia, o Brasil vai apagando das páginas de sua História o mito de paraíso terrestre que aqui se cultiva desde os tem­pos em que Pero Vaz de Caminha, embevecido com a exuberância das matas, as águas cristalinas dos rios, a beleza das praias, o jardim paradisíaco habitado por homens pacatos e mulheres nuas, descreveu a el-rei a condição ímpar de uma terra em que “se plantando, tudo dá”.

Lévi-Strauss, após uma excursão por Goiás, Mato Grosso e Paraná,  em seu livro Tristes Trópicos (1955) foi cruel: “é o ambiente mais hostil ao homem sobre a superfície da Terra”. Descrevia o antropólogo o reino horripilante de insetos e artrópodes,  picadas de mosquitos, mutucas e miruins, piuns e carrapatos, aranhas, lacraias e escorpiões, o espec­tro das moléstias e do calor, sob o qual padeceu nos grotões de Mato Grosso. Dos idos de 1935 a 38 para cá, as entranhas nacionais foram ocupadas de modo acelerado, ganhando as tintas da devastação. E assim o território passou a conviver com order Xenical online as curvas que entrelaçam a estética de uma maravilha do planeta com paisagens aterradoras, geradas pela força da na­tureza e pela incúria humana.

A tragédia que devastou as terras banhadas pelo Rio Doce é a inequívoca demonstração de que o nosso pa­raíso vira, às vezes, um inferno. As catástrofes, de tão previsíveis, começam a fazer parte do calendário entre o Natal e a folia carnavalesca. Em 1984, um incêndio na Vila Socó, em Cubatão, por falha em um duto subterrâneo da Petrobras, ocasionou 93 mortos; em 1987, a contaminação por Césio 137, em Goiânia, contaminou pessoas, água, solo e ar; em 2000, um vazamento de 1,3 milhão de litros de óleo na Baía de Guanabara causou a morte da fauna local, poluindo o solo de vários municípios; em 2002, purchase Asacol na Região Serrana do Rio de Janeiro morreram 42 pessoas. No final de 2009, houve o deslizamento de terra na Ilha Grande, em Angra dos Reis, que chegou a matar 30 pes­soas; em 2003, o rompimento de uma barragem em Cataguases, em MG, atingiu os rios Pomba e Paraíba do Sul.

Em 2007, mais um rompimento de barragem em Minas, desta feita em Miraí, com vazamento de 3 milhões de m3 de água e argila; em 2008, as águas devastaram Santa Catarina, afetando mais de 1,5 milhão de pessoas e 25 comunidades e registrando mais de 100 mortos; em 2011, outra tragédia na região serrana do Rio resultou em cerca de 800 mortos; nesses mesmo ano, um novo vazamento na bacia de Campos deixou um rastro de destruição numa área de 162 Premarin km2. E, por último, assistimos ao rompimento da barragem de Mariana, que provocou a liberação de 62 milhões de m3 de rejeitos.

Esse painel de desastres aponta para o desleixo. Há cerca de 7 milhões de pessoas que vivem em áreas de risco no Brasil. A qualquer hora podem ser aterradas. Onde estão os planos para administrar os acidentes que podem acontecer? Não existem. O que há é muita polêmica, a partir da questão: qual a autoridade com responsabilidades para cuidar de tragédias? Há muitos órgãos nas três instâncias Professional Viagra online federativas, porém sem nenhuma integração entre eles. União, Estados e municípios deveriam adotar uma linguagem homogênea em matéria de Defesa Civil, até porque essa frente faz parte das estruturas das municipalidades. Se não há ar­ticulação entre os entes federativos, inexistem planos integrados de prevenção.

Não são necessárias mais leis. Importa, isso sim, fazer que os códigos existentes sejam aplicados. Lembremos a lição de Montesquieu: “Quando vou a um País não examino se há boas leis, mas se são executadas as que há, pois há boas leis por toda parte”. Urge que o Minis­tério Público ponha a mão na cumbuca, identificando os atores responsáveis pelo desleixo nas instâncias municipal, estadual e federal. No dia em que governantes forem flagrados e punidos por não cumprirem a Order Tadalafil lei que coíbe construções precárias e irregulares em solo urbano, o Brasil estará dando um passo à frente no terreno da ordem pública.

Na esteira do descontrole, há outro fundo do poço na área da saúde. Todos os anos, as mesmas epidemias, as mesmas endemias, a mesma lengalenga. O Nordeste e o Rio de Janeiro emergem com seus surtos de dengue. Recursos para combate às urgências são escassos. Esta semana, o Congresso teve de alterar a meta de superávit de 2015 para um déficit de R$ 119,9 bilhões. A máquina pública está praticamente estancada. O cúmulo da situação é ler que pode faltar dinheiro para água, luz e até papel higiênico na administração federal. Ou saber que, em outubro de 2016, poderemos nos deparar com a volta da velha cédula eleitoral por falta de recursos para bancar a eleição eletrônica. O Brasil do Século XVIII está à vista.

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

A CRISE DO CARÁTER

– Alkmin, para onde você vai?
– Para Brasília.
– Para Brasília, ah, sim, Brasília. Sei.
Os três seguiram conversando até o cafezinho. Até que Benedito, piscando um olho, cutucou o braço de Olavo:
-É, o Alkmin está dizendo que vai para a Brasília para eu pensar que ele vai para o Rio. Mas ele vai mesmo é para Brasília. order Vermox online
A artimanha é conhecida nos tratados de guerra como engano de segundo grau. Alkmin queria tapear Benedito dizendo-lhe a verdade para tirar proveito de sua desconfiança. cheap Zithromax
Ao longo da história, a enganação tem feito carreira. Nos últimos tempos, porém, os jogos do engodo, da simulação e da dissimulação atingem níveis absurdos. Temos visto tapeação de primeiro, segundo e terceiro grau. Delatores apontam pessoas que teriam recebido propina dos dutos da Petrobras e são desmentidos; o governo ensaia a volta da CPMF, mas retrocede; tira, por decreto, poderes dos Ministros militares em matéria de política de pessoal e os repõe ante a onda negativa; põe na agenda um enxugamento dos ministérios e fica por isso mesmo; TCU e TSE sugerem dúvidas sobre os próximos passos em relação às pedaladas e contas de campanha da presidente. O Brasil perde o grau de investimento, com o rebaixamento feito pela S&P, e Lula diz que isso não vale nada. De arrepiar. A palavra distancia-se de seu significado. A imprensa registra algo em um dia e, no seguinte, o contraditório.
A administração federal mais parece barata tonta depois de forte dose de inseticida. Não sabe onde rodopiar. Enchentes em alguns pontos, grande seca em outros, e reservatórios de água suprem populações com seus volumes mortos. A dúvida se instala: as chuvas de setembro e outubro garantem normalidade ou sofreremos crise hídrica e energética?
A violência registra casos de horror extremo, como a chacina que matou 19 pessoas em Osasco (SP), deixando suspeitas sobre o próprio aparelho policial. O palavrório de sempre se instala. As ruas se enchem com desfiles de pedintes e, nos semáforos, meninos e adolescentes se multiplicam na tarefa de mostrar habilidades com bolas, pernas de pau, facas e tochas de fogo. A estética da miséria expande cores cinzentas e escancara a desilusão de milhões de brasileiros que, após subirem um degrau na escada da pirâmide social, se vêem arrastados para o andar de baixo, onde a classe D tenta sobreviver no meio de um turbilhão de carências. Falta dinheiro para completar a fatia de carne, o saquinho de arroz, o quilo de feijão. Verduras? Nem pensar. E o  Bolsa Família para as margens? Já deu o que tinha de dar. É coisa pouca.
A tétrica anatomia urbana, como a pedrinha do dominó empurrando a seguinte, ameaça a queda de todas. Mas há algo pior: é a miséria moral que o país herda do seu aglomerado de crises. A necessidade de sobrevivência acaba corroendo a base do caráter. Os efeitos aparecem na propensão para a violência, para desvios e inclinação de certos núcleos na apropriação de bens de outros. O engodo que se instalou em cima desce a outros níveis.
Daí a conclusão: as fontes da seara do caráter também secam. Sentimentos e relações sociais se impregnam da ordem moral que recai sobre a sociedade. Torna-se difícil manter a coluna vertebral ereta quando os poderosos a dobram, em todos os instantes, no atendimento às suas conveniências.
A desconfiança, quando não a indignação, passa a imperar, principalmente no seio de grupos de sólida formação moral. Que passam a cristalizar e a verbalizar o sentimento de repúdio à classe dirigente, com ênfase aos integrantes do partido que, há quase 13 anos, ocupa o centro do poder. Convém lembrar, porém, que parcela da população, aflita com o cinturão que aperta seu corpo, faz prevalecer o bem material sobre o valor moral. Essa é horrenda feição desenhada pela miséria. Purchase Retin-A
Caráter é o espelho da grandeza humana. Integra um sistema de valores compostos, entre outros, por lealdade, compromisso, companheirismo, confiança, comunhão de propósitos. De nossos avós, uma frase comum era: “aquele era um homem de palavra”. Queriam dizer: “ um homem de caráter”. Quem pode afirmar a mesma coisa neste ciclo de deterioração do escopo moral?
A paisagem é celeremente contaminada pela crise da corrosão do caráter, terrível doença que Richard Sennett, professor de sociologia da Universidade de Nova Iorque, aponta como uma das mais trágicas do mundo moderno.  A degradação do caráter é metástase que se propaga em função das mazelas da vida pública. A crise  de caráter puxa a da credibilidade. A crença nas instituições e nos agentes públicos se esvanece.
Leis não obedecidas, justiça lenta, projetos casuísticos, distorção de prioridades, violência extremada, tibieza de governantes, culto à improbidade, mais impostos e muita mentira amortecem o ânimo nacional. Ante esse quadro, o povo clama por ações de um Estado que se mostra anêmico e inerte.
Quem imaginaria um ex-presidente da República idolatrado e uma mandatária bem aclamada em seu primeiro mandato vestirem o manto de bonecos infláveis representando o engodo? Teriam faltado à verdade com o eleitor? Teriam mistificado as massas pela propaganda política?
Que tempos. Tempos de grandes mentiras.
O libertador Simon Bolívar, tão admirado pelas esquerdas latino-americanas, fazia, há 165 anos, um desabafo: “não há boa fé na América, nem entre os homens nem entre as nações. Os tratados são papéis, as constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia e a vida um tormento”. O timoneiro fez uma profecia, mais que um queixume. A vida brasileira se aproxima do tormento.
Gaudêncio Torquato, diflucan without prescription Order Retin-A jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

generic Lithium