Na véspera do 30º dia da morte de Marielle, Anistia cobra solução do crime

A organização Anistia Internacional cobrou na sexta-feira (13) prioridade do Estado brasileiro na solução do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A execução deles completou um mês no domingo (14), quando oorreram diversos protestos na cidade do Rio de Janeiro. Outras cidades também realizaram manifestações. Em comunicado emitido pela organização e em entrevista coletiva à imprensa internacional, em Lisboa, a entidade exigiu que as autoridades acelerem a investigação com recursos humanos e financeiros disponíveis, de maneira completa, imparcial e independente, sob risco de o país assistir novas execuções de ativistas.
“A gente quer saber: quem matou e quem mandou matar. Não aceitamos que se pegue só o braço armado dessa operação. Queremos saber quais interesses, quais as razões e por quê. Queremos que todos sejam processados na forma da lei, queremos que isso cesse”, disse a diretora da Anistia no Brasil, Jurema Werneck, em Lisboa. Ela afirmou que o país é o que mais mata defensores de direitos humanos e a impunidade aumenta os riscos. Em 2017, foram 58 mortos.
O crime contra a vereadora, além de afrontar a intervenção federal, que estava prestes a completar um mês no dia do assassinato, passa um recado claro, avalia Jurema Werneck: “Quiseram nos dizer que a vida de quem luta por direitos não vale nada. [Os assassinos] estão dizendo para o Brasil e ao mundo que eles dão a última palavra”, com intenção de gerar medo e insegurança, completou. Por isso, cada dia sem respostas, segundo Jurema, aumenta os riscos e ameaças aos ativistas, explicou.
Uma das vereadoras mais bem votadas na cidade do Rio, em 2016, Marielle Franco tinha reconhecida atuação em defesa dos direitos das mulheres negras, em particular, da população LGBTI, e por denunciar abusos da polícia, assim como execuções praticadas por grupos paramilitares. Oriunda da favela da Maré, na zona norte do Rio, conhecia a realidade de guerra às drogas imposta pela atual política de segurança, que vitima mais jovens negros, com a morte ou o encarceramento. Socióloga e mestre em administração pública, ela tinha 38 anos e deixa a esposa e uma filha.
Nesta semana, o ministro interino da Defesa, general Joaquim Silva e Luna, afirmou que a investigação “está avançando, mas essas informações estão todas restritas à polícia que está fazendo a investigação”. As primeiras pistas foram imagens das câmeras de segurança espalhadas pelo trajeto percorrido por Marielle e Anderson até a rua onde foram mortos, mas exatamente no local há um “ponto cego” das câmeras, que não gravaram o momento do assassinato. A polícia chegou a apreender um carro em Ubá (MG) que poderia ter sido usado no crime, o que depois foi descartado.
Integrante do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) e da organização Justiça Global, Sandra Carvalho, diz que há indícios de que as balas do mesmo lote já teriam sido utilizadas em chacinas e outras situações criminosas anteriores ao caso de Marielle. “Isso requer uma situação muito rigorosa também, porque pode ser um elemento muito importante para desvendar esse crime e vincular com outros, podendo até levar a uma teia criminosa que possa estar articulada.”
O Sistema das Nações Unidas no Brasil (ONU Brasil) emitiu nota em que espera “rigor na investigação do caso e breve elucidação dos fatos pelas autoridades, aguardando a responsabilização da autoria do crime”, posicionamento seguido por outras organizações nacionais e internacionais de direitos humanos.

Rio de Janeiro – O ato Luzes para Marielle e Anderson reúne pessoas segurando velas e lanternas em memória de ambos (Vladimir Platonow/Agência Brasil)

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