A reflexão no combate às ‘fake news’

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Em tempos de redes sociais, whatsapp e internet, o texto passou a ocupar boa parte da vida das pessoas. O que num passado remoto poderia soar como um avanço na educação, incentivo à leitura e à construção de escritos, se tornou um verdadeiro ‘assassinato’ à gramática, mas, antes de tudo à interpretação textual.
A falta de compreensão de texto é tão recorrente que até virou ‘meme’ [imagem ou vídeo relacionado ao humor, que se espalha via Internet]. Como em uma publicação simples do tipo: ‘Vou vender bolo de cenoura hoje, às 17h, custa cinco reais, contato pelo telefone’. Que gera os comentários: ‘bolo de que? Qual horário? Quanto custa? Como faço para comprar?’.
Claramente, os indivíduos não compreendem o texto que leram (se leram) e já desatam a comentar. Parece haver uma pressa, uma necessidade de estar/fazer várias atividades ao mesmo tempo, o que leva os indivíduos a travarem relações verdadeiramente efêmeras com os textos. O fenômeno se repete, principalmente, em sites de notícia, está tudo ali, muito explicado e definido, mas ainda assim há quem questione, ou até mesmo comente sobre um algo que nada tem a ver com o tema em questão.
A forma como a população vem se expressando na internet é a exemplificação de como as relações estão se estabelecendo no mundo real, definidas basicamente pela superficialidade. Sem ler, sem compreender, mas afoitos para dizer – a máxima de que as pessoas conversam apenas para esperar uma breve pausa para falarem de si mesmas – há uma superficialidade explícita: sem aprofundamento, sem reflexão, sem crítica. Parece que cada indivíduo se estabelece como um Sol no universo virtual, e neste sentido, o discurso alheio é sempre mais fraco.
Nesse contexto, é mais do que fácil conseguir ‘emplacar’ notícias falsas e fazê-las serem compartilhadas nos mais diversos canais online e, por extensão, no cotidiano das pessoas. Bastam três linhas de um conteúdo qualquer, para que alguém interprete de forma tortuosa e saia replicando universo afora. Por isso, a grande preocupação da imprensa e das gigantes de tecnologia em encontrar formas para barrar as ‘fake news’ (notícias falsas), sobretudo, nas eleições que se avizinham.
Entretanto, ainda que se consiga criar, desenvolver e proliferar sistemas para coibir a produção das ‘fake news’, jamais será possível exterminar os boatos e os ‘diz-que- diz’, existentes desde que o mundo é mundo. Mas seria provável amenizar o impacto dessas inverdades se houvesse o pensamento crítico, e nesse sentido, cabe à educação (familiar ou escolar) preparar alunos para que saibam entender e não somente ler, para que prestem atenção no próximo – no que está dizendo, no que está significando e na sua posição no mundo. Sem reflexão, não há aprofundamento, sem pensamento não há indivíduo. É preciso que cada um assuma seu papel de estrela, que brilha mais junto da constelação. Afinal, se todos forem Sol, não parece muito promissor o futuro do nosso universo social.

*Vivian Guilherme Marques, mestranda-UFSCAR – Caroline Janjácomo, mestranda-UFSCAR e Vinício Carrilho Martinez, professor da UFSCar

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