O maior telescópio do mundo começa a se tornar realidade

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Olá amigos.
Nós já falamos, aqui, sobre o maior telescópio do mundo, o European Extremely Large Telescope (E-ELT), projeto da União Europeia (UE). Em março de 2014 começou a construção da estrada asfalta para acessar o topo da montanha Cerro Amazones e, em julho do ano passado, o nivelamento do seu topo, para receber o telescópio e as edificações para a instalação dos equipamentos e hospedagem dos astrônomos, astrofísicos, biólogos, matemáticos, dentre outras profissões.
A notícia agora é a produção, na semana passada, dos seis primeiros espelhos hexagonais do espelho primário do E-ELT, pela empresa alemã Schott, em Mogúncia, próxima a Frankfurt. Eles têm 1,4 m de diâmetro cada. Sabe quantos serão no total? Nada menos de 798 espelhos de 1,4 m cada que permitirão ao E-ELT ter um espelho primário de impensáveis 39,4 metros de diâmetro.
O que isso quer dizer? Que o E-ELT será cinco vezes maior que os maiores telescópios em uso, como o Very Large Telescope (VLT) da própria European South Observatory (ESO) da UE, tudo construído no deserto do Atacama, no Chile. Tanto o E-ELT quanto o VLT se encontram a cerca de 3 mil metros de altura, nos Andes, que cruzam o deserto do Atacama, a 130 quilômetros de Antofagasta, no Chile.
Há várias razões por o Atacama ter sido escolhido para a implantação da maioria dos grandes projetos de telescópios. Primeiro, trata-se da região mais árida do mundo, quase nunca chove, o céu portanto está quase sempre livre de nuvens, disponível para as observações astronômicas. Depois o ar seco melhora a qualidade das imagens obtidas, em relação a ar rico em vapor d’água. Mais: estar a 3 mil metros de altura reduz bastante os efeitos indesejáveis da atmosfera na definição das imagens, apesar do sistema de óptica adaptativa avançada do E-ELT.
O E-ELT no Cerro Amazones permitirá a entrada de 15 vezes mais luz que o VLT hoje em uso. Em relação ao olho humano, o E-ELT garantirá a entrada de 100 milhões de vezes mais luz. Quando olhamos para uma região do céu a olho nu detectamos um determinado número de estrelas. Ao fazermos com um telescópio amador, de 10 cm de diâmetro, nos impressionamos como aquela mesma porção do céu tem mais muito mais coisas para ver. Entrou mais luz, isso foi o que permitiu observar mais astros. Imagine com um telescópio de 39 metros de diâmetro.
O E-ELT representará provavelmente o maior avanço da humanidade no estudo do cosmos. O telescópio espacial Hubble já revolucionou nossa compreensão do Universo. O VLT também nos tem ensinado muito, regularmente. Mas o E-ELT possivelmente nos dará a chance de responder as questões que acompanham a humanidade desde a sua origem, como se estamos sós no Universo.
Calma, não estou falando que o E-ELT fará contato com eventual vida extraterrestre, mas nos permitirá as primeiras observações de planetas fora do sistema solar. Desde a suas primeiras descobertas, em 1994, nós temos provas apenas indiretas da sua existência. O E-ELT deverá fazer com que tenhamos imagens desses planetas, desvendar sua atmosfera, suas características, a possibilidade de abrigar vida.
Por garantir a entrada de tanta luz, corpos celestes que ainda hoje não enxergamos, como as primeiras galáxias formadas pouco tempo depois do big bang, que deu origem ao Universo, há 13,8 bilhões de anos, poderão ser agora identificados e estudados. Em outras palavras, o E-ELT nos levará até a origem do Universo. Muitas perguntas hoje sem resposta provavelmente serão respondidas.
Não é tudo: o E-ELT deverá lançar muita luz sobre os dois maiores mistérios da ciência, o que são matéria e energia escura. Sabemos que a matéria que observamos, chamada de bariônica, a que nos forma, bem como a tudo que vemos, constitui somente 4% do Universo. O restante é assim distribuído: 71% energia escura e 25% matéria escura.
Alguns dados da imponência do projeto do E-ELT: a cúpula do telescópio terá 80 metros de altura, algo como um edifício de 26 andares. O custo total do projeto é de 1,1 bilhão de euros (R$ 4,4 bilhões). Entrará em operação em 2024.
Os seis espelhos produzidos na semana passada na Alemanha serão encaminhados, agora, para a França, onde receberão a parte final do tratamento. É necessário ser absolutamente preciso, qualquer deformação microscópica implica a formação de imagens imprecisas dos objetos focalizados.
O E-ELT não atuará apenas na faixa da luz visível do espectro eletromagnético, senão também na frequência do infravermelho. Explico: você já deve ter visto na TV a documentários sobre a natureza, com imagens registradas à noite nas savanas africanas, onde aparece o contorno dos corpos dos animais. Aquela é uma câmara que opera no infravermelho.
O E-ELT também poderá enxergar o Universo segundo o mesmo princípio. Esse recurso é importante porque com o infravermelho é possível observar estruturas, astros, fenômenos que se escondem atrás das nuvens de poeira de milhares de anos luz de extensão tão comuns no espaço, o que não é possível com o telescópio que opera apenas na luz visível. É grande a expectativa na comunidade científica com relação ao E-ELT. Uma coisa é certa: nosso compreensão do Universo será outra.
Como vai começar a mudar já a partir do ano que vem, com a entrada em operação do sucessor do Hubble, o James Webb Telescope, da Nasa. Ele tem um espelho de 6 metros, enquanto o Hubbles tem 2 metros, mas estará a 1 milhão de quilômetros da Terra. O James Webb vai operar principalmente no infravermelho, embora também no ótico. Seu custo já ultrapassou os 8 bilhões de dólares (R$ 26 bilhões). Abraços.
liviooricchio@gmail.com

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