Exemplos que arrastam…

Ao tomarmos conhecimento de iniciativas como a conservação e restauração da casa da família Mônaco de Luca, da família Fontes (parente de Ulysses Guimarães) e da residência da família Siqueira Campos, posteriormente de Inácio Xavier de Negreiros e de Miguel Arcanjo Rinaldi (ex-sede do Arquivo Público Municipal), sentimos que apesar dos pesares, existe ainda a esperança de que nossa cidade preserve, ao menos, um pouco do charme e beleza, que a tornava especial em toda região. Em conjunto, esses imóveis compõem uma das esquinas mais bonitas de Rio Claro (na área da avenida três, com rua sete, antigas Ruas Direita e Boa Vista; provável local da segunda Capela, “Curada” e de acessos subterrâneos aos “Túneis”).
O casarão da família de Antonio Mônaco de Luca (que se prolonga até o antigo “Hotel Central”), construído em meados do século passado por José Ribeiro de Almeida Santos Filho, com entrada lateral e porão habitável, de arquitetura de valor principalmente ambiental, apresenta notáveis elementos: envasaduras com vergas em ogiva; janelas de vidraça de abrir com bandeira e escuro ou de veneziana; cobertura com telhas francesas, cimalha, platibanda; alpendres com estruturas de ferro, portão e gradis. Guarda ainda pinturas murais atribuídas ao artista plástico rioclarense, Alfredo Frahan.
Consta que a escultura do Monsenhor Botti, em bronze (do renomado escultor Vilmo Rosada, 1941), preservada pela transferência para o adro direito da Matriz de São João Batista), foi realizada na garagem daquele casarão pertencente à família de sua esposa, Belmira Mônaco Rosada.
A antiga residência do Intendente Manoel Pessoa de Siqueira Campos, do século XIX, reformada no início do século XX, hospedou o Imperador D. Pedro II e a Imperatriz D. Thereza Christina (quando da segunda viagem a Rio Claro), em novembro de 1886. De alto valor histórico e cultural, abrigou por vinte anos o Arquivo Público Municipal, 1984-2004 (na atualidade, “Casarão da Cultura”, com intensa programação cultural).
Sabe-se que a Prota. Ana Maria de Almeida Camargo, diretora nomeada à época da fundação do Arquivo, que brilhantemente dirigiu, conservou as cores originais do prédio (fachadas levemente avermelhadas, porta e janelas tabaco), de acordo com o desenho “Praça da Liberdade em 1890”, do presidiário Cypriano Pitaguay, pintado por detrás das grades da Cadeia (hoje Fórum, pintura original de paradeiro incerto, quadro óleo/t, cópia – Aloysio Pereira).
Oportuno lembrar que na administração do prefeito Cláudio Antonio di Mauro, o jardim do casarão sede foi removido: os canteiros (recortados por passeios formavam belos desenhos), bancos e luminária, além do portão. Ocorrida inclusive, a mudança do acervo daquele local privilegiado para o Bairro Alto do Santana.
A casa de morada inteira construída pelo Dr. Alfredo José Fontes, habitada em 1937 por sua esposa, D. Ida Penazzi e demais familiares, foi adquirida pelo Colégio “Puríssimo Coração de Maria” que a preserva, levantando no enorme quintal anexo às novas instalações da Escola. É o único edifício de fachadas decoradas com azulejos de fina louça nas cores azul e branco, importados de Portugal; o que torna a edificação ainda mais imponente.
O primoroso trabalho realizado na recuperação destas antigas residências procurou preservar a maioria das características originais dos imóveis, adaptando-os, ao mesmo tempo, ao uso moderno e racional do espaço. Propiciando a feliz constatação de que progresso e modernidade não precisam ser sinônimos de destruição.
Esperando que tais exemplos arrastem, lancemos nossos olhares à Praça da Liberdade (primeiro centro histórico da cidade, paisagem integrante da esquina mais bonita), na expectativa da salvaguarda dos monumentos lá existentes: a Árvore da Liberdade (sequoia, conífera exótica, longeva, plantada para marcar a passagem da República, tomada por plantas parasitas, definha; tendo a placa informativa subtraída); a Coluna da República (obelisco em homenagem aos rioclarenses, sobre o restabelecimento da “Constituição”, violada em 3 de novembro de 1891); o marco comemorativo à promulgação da Constituição Federal de 1988 (com informação histórica equivocada); a escultura de José de Bonifácio de Andrade e Silva (1922, fundida na “Escola Profissional”, de autoria de Gustavo Biancalana, envolta em zinabre); o marco do Centenário da fundação de Rio Claro (1927, do italiano Pio Fiederigi, desbastado por limpezas não orientadas, com pichações, o calçamento ao redor alterado ); a herma do Dr. Vasco da Silva Mello (1967, Vilmo Rosada, pedestal com marca indelével de lixamento); do Lions Club (1967, imundo, havendo partes quebradas, placa informativa subtraída); Parlamento (1917, usada a parte inferior como depósito); dos vasos estilo Corinto (desmazelados, trincam); o Pavilhão Nacional, a homenagem ao Deputado Ulysses Guimarães (busto da autoria de Joel A P, furtado, com réplica em resina) e o recém-inaugurado monumento alusivo ao Centenário do Escotismo de Rio Claro.
Cumpre ressaltar que o casarão dos azulejos azuis (portugueses), que se localizava na avenida dois, esquina da rua dois, edifício de notável mérito arquitetônico, principalmente de alto valor histórico, cultural e ambiental, foi demolido por Decreto Municipal de 1982 (onde morou Guilherme de Almeida, o “Príncipe dos Poetas”, tendo escrito a primeira composição poética, o soneto “Beijos”).

Casarão da família Mônaco de Luca (atual Clínica Odontológica)
Casarão da família Mônaco de Luca (atual Clínica Odontológica)
Residência da família Fontes (hoje, “Colégio Puríssimo”)
Residência da família Fontes (hoje, “Colégio Puríssimo”)
Antigo prédio sede do Arquivo Municipal (atual “Casarão da Cultura”)
Antigo prédio sede do Arquivo Municipal (atual “Casarão da Cultura”)
“Praça da Liberdade” – Rio Claro – 1890 – Aloysio Pereira – cópia
“Praça da Liberdade” – Rio Claro – 1890 – Aloysio Pereira – cópia
Vaso em estilo Corinto que ornamenta a Praça da Liberdade
Vaso em estilo Corinto que ornamenta a Praça da Liberdade
Monumento ao Mons. Botti na Praça, defronte à Matriz (foto: Artibano Spedo)
Monumento ao Mons. Botti na Praça, defronte à Matriz (foto: Artibano Spedo)

 

Paisagem da esquina histórica vendo-se casarões e a Praça da Liberdade
Paisagem da esquina histórica vendo-se casarões e a Praça da Liberdade
Casarão dos azulejos azuis, portugueses (foto: Artibano Spedo)
Casarão dos azulejos azuis, portugueses (foto: Artibano Spedo)

 

Anselmo Ap. Selingardi Jr.
Perito Judicial em Arqueologia e Documentação Histórica
Inscrição: N. 1417 SP

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