2018, UM ANO CLARAMENTE ESCURO

Carlos Brickmann

O presidente Michel Temer, usando sem parar a máquina do Governo, prometendo ampliar ainda mais as vantagens oferecidas a quem o apoia, mantendo-se ao lado de cavalheiros amplamente conhecidos como Romero Jucá, Eliseu Padilha, Moreira Franco, atraindo para seu grupo mais pessoas vocacionadas para integrá-lo, como o deputado Carlos Marun, tem o apoio de 6% do eleitorado – um número como o ostentado, veja só, por Dilma. Por que usar maneiras tão discutíveis de fazer política, para ter resultados tão frustrantes? Por que, com tão pouco apoio, ensaia tentar a reeleição?
Simples: porque a primeira obrigação de um político é sobreviver. Vale tudo, portanto, para manter-se no cargo, mesmo tendo de chamar de Vossa Excelência alguns cavalheiros que só agora aprenderam a usar talheres às refeições (e a devolvê-los no final do banquete). Sobreviver não quer dizer que continue dando as ordens – que essas, mesmo em seus melhores tempos, dava em voz tão baixa que o gravador de Joesley não pôde captá-las direito. Sobreviver significa ficar livre de juízes de primeira instância, como Sérgio Moro. Tentar a reeleição segue a mesma lógica: findo o mandato, Temer perde o foro privilegiado e cai nas mãos dos juízes de primeira instância, como Moro. Temer só não tentará a reeleição se houver um acordo que lhe garanta foro privilegiado ou indulto. Sem isso, não perguntem a Temer se prefere o demônio ou Moro. E se ele responde?
Perdão demais
Indulto é decisão privativa do presidente da República. O Supremo não deveria se intrometer no assunto, mas se intrometeu (e, cá entre nós, foi bom). O presidente decide, mas decidir aumentando ainda mais as regalias dos delatores é meio muito. Pense num dedo-duro bem safado, que trocou amigos e cúmplices por uma pena que é quase um prêmio. Ganharia mais um prêmio, ficando livre de cumprir outro pedaço daquela pena de mentirinha com a qual foi premiado, e sem pagar multa nenhuma? Dá inveja dos bandidos que roubam o Tesouro e, sem dó, entregam até a mãe.
Temer, mestre de Constituição, sabe que foi além do razoável. Se sabe, por que fez? Para indicar a aliados que, se apanhados, terão apoio, pois alguém lá em cima gosta deles. Que sigam votando com Temer. A arma de Temer para a reeleição é a economia. Se tudo der certo e ele ficar, será bom para o bando todo. Bando, claro, no bom sentido; é sinônimo de “grupo”.
É isso aí
Por falar em Carlos Marun, uma pessoa nova no grupo sempre é alguém que ainda não se acostumou a narrar os fatos da maneira que agrade os companheiros. Pois não é que Marun, agora ministro da Secretaria de Governo, acaba de admitir que está pedindo apoio à reforma da Previdência especialmente para quem recebe recursos oficiais?
“Não vamos abrir mão de pleitear o apoio dos agentes públicos brasileiros e, especialmente, daqueles beneficiados por ações do Governo”, disse. Ou, em linguagem menos rebuscada, é recebendo que se dá. É bom aproveitar a verdade antes que o ministro Marun aprenda a dizê-la.
O golpe e “o górpi”
O governo da Venezuela expulsou o embaixador brasileiro, por “representar um Governo de extrema direita” – na linguagem petista, “o górpi”. As coisas estão agora mais claras: a Venezuela está entre os quatro países bolivarianos que pegaram dinheiro do BNDES para realizar obras e, agora, dão o golpe no credor, não pagando as prestações. Segundo a Operação Lava Jato, há nesses empréstimos, com os quais seriam pagos os serviços de empreiteiras brasileiras, farto superfaturamento, que em parte voltou ao Brasil para pessoas bem relacionadas. Maduro falou mal do Brasil, do Canadá (que também expulsou diplomatas venezuelanos) e de Portugal (ver nota abaixo). Mas a crise que a Venezuela procura para ter um inimigo externo e abafar a crise interna é com outro país: a Guiana. Tão logo o vizinho descobriu petróleo na fronteira com a Venezuela, Maduro passou a reivindicar a região. Tenta intimidar o vizinho com os jatos Sukhoi que comprou da Rússia. Não vai adiantar: a Guiana tem o apoio de Brasil e Colômbia. E os Sukhoi são caças ótimos mas não voam sozinhos.
A Guerra do Pernil
O presidente venezuelano Nicolás Maduro está também em crise com Portugal. Prometeu distribuir pernis de porco neste fim de ano a todas as famílias venezuelanas, encomendou o produto a Portugal e só se esqueceu de pagar a conta – deste ano e do ano passado. Os exportadores portugueses suspenderam a operação, e Maduro acusa o Governo português de sabotar o socialismo venezuelano por ordem, claro, dos Estados Unidos.
O curioso é que o Governo português, como o brasileiro, não exporta carne nenhuma: quem exporta são as empresas produtoras. E todas têm o vicio capitalista, neoliberal e pequeno burguês de exigir o pagamento.
COMENTE: carlos@brickmann.com.br
Twitter: @CarlosBrickmann

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *