A DEMOCRACIA EM PERIGO

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Por Geraldo J. Costa Jr.
Não duvide o leitor que todo aquele que exerce o poder humano, primeiro busca atender seus interesses e os interesses daqueles que o apoiaram para que ele chegasse ao poder, e nele se manter, o tanto quanto possível e oportuno. Depois, é que ele vai pensar em corresponder minimamente aos interesses daqueles que legitimaram a sua chegada ao poder. Assim, agem os políticos.
Entenda-se. O eleitor legitima o eleito, com a vitória que lhe concede através do voto. Mas não paga a campanha do eleito, enquanto candidato, não viabiliza seu acesso aos meios de atuação estratégicos da sociedade. O eleitor raramente bate à porta do eleito. Mal sabe, muitas vezes, onde e como encontrá-lo. Mas, quem pagou a campanha do eleito, sabe. E a bem da verdade, nem precisa bater à porta, agendar horário para ser atendido.
Com qual dos dois o eleito se sentirá mais comprometido? Com aquele que lhe é mais próximo, com o qual mantém contato quase diário, íntimo, por vezes até promíscuo, aquele que pagou sua campanha, viabilizou politicamente sua candidatura, cedeu palanque para seu discurso? Ou para o eleitor, que ele, o eleito, sequer sabe quem seja, porque se confunde na massa de eleitores?
Por motivo de que nos falta ainda a noção de um comprometimento sério com o país, e nos falta também a noção da nossa responsabilidade de eleger corretamente os nossos representantes, nós elegemos candidatos, como que querendo nos livrarmos de um problema que nos chateia e muito nos incomoda, a política. Mas em fazendo isso, nós oferecemos a arma com a qual seremos traídos, senão vitimados. Normalmente somos.
Escolher representantes através do voto, num círculo de dezenas, quando muito, centenas de pessoas, sem acesso a nenhum instrumento de campanha que não seja o discurso, e de apoio que não seja o moral, como ocorria na Grécia, na origem e primórdios da democracia, talvez seja fácil. Fazê-lo num universo de milhares de eleitores, com instrumentos de campanha cada vez mais sofisticados, e com apoio cada vez mais ilícito e imorais, são outros quinhentos, com o perdão do trocadilho.
Como se vê, a democracia precisa ser aprimorada, sob pena de fadar-se ao desaparecimento, cedendo espaço a algo tão perigoso e maléfico, senão pior, quanto os regimes totalitários.
Nós, cidadãos, eleitores, nós precisamos rever nossos valores, corrigirmos nossos defeitos, que, ainda são muitos, e aprimorarmos as nossas qualidades, morais, sobretudo, porque delas, resultam a qualidade daqueles que nos representam. Se eles são maus, incapazes, se traem a nossa confiança, é porque, provavelmente, em lugar deles, faríamos o mesmo.
De nada adianta, uma democracia consolidada, se doente. Corpos perfeitos e bonitos, quando adoecidos, se não tratados, morrem.
Só teremos uma classe política melhor, uma democracia saudável, quando, antes, nós nos melhorarmos como pessoas humanas.
O colaborador é escritor
jcostajr2009@gmail.com

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