SAI OU FICA?

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Por Geraldo J. Costa Jr.
Podem fazer beicinho os adeptos do livro impresso. Mas este objeto, de aquisição de conhecimento e de encantamento para uns e de ornamentação para outros, tende a desaparecer da forma como fora concebido. Isto porque é inevitável que as novas gerações introduzam aos poucos novos hábitos, costumes e padrões de comportamento.
Os livros agora estão no celular. O mundo cabe dentro de um celular. Verdade. Com este instrumentinho eficiente de comunicação, pode-se tudo. Ou quase. Trabalha-se, estuda-se, escreve-se e publica-se. Pede-se coisas. Vende-se coisas. Dissemina-se ideias, para o bem e para o mal.
O Itaú Cultural lançou recentemente a campanha “Leia para uma Criança, também no celular”, onde livros infantis são acessados a qualquer momento e em qualquer lugar.
Os livros já foram parar nos tablets, também. É uma comodidade. Ou uma chatice. Depende do ponto de vista. Livros mal cuidados causam espirros em pessoas alérgicas à poeira. Ah, mas aquela sensação de folhear as páginas, admirar a capa, nada a substitui. Certamente não pensam assim a molecada que nunca soube o trabalho que dá pesquisar em enciclopédias, porque, quando se deram por gente, já estavam inseridas na comodidade do doutor, professor, analista e conselheiro Sr. Google.
É o progresso, meu velho! As coisas mudam. E não adianta espernear. Tudo o que se comprova útil tende a ser produzido em larga escala. Tudo o que é produzido em larga escala é copiado. Tudo o que é copiado gera disputa. A disputa exige o aperfeiçoamento para manter o interesse e a opção do público a que se destina. E o público, cada vez maior, mais exigente, mais antenado com as modernidades, portanto, cada vez mais dependente delas. Disseminar ideias e cultura através dos livros é lindo e poético, mas está ficando ultrapassado.
O que para no tempo, vira peça de museu. Cai no esquecimento, no desuso. Verifica-se isto nas instituições, e também nas pessoas, que apesar de sua importância e reconhecida eficiência para desempenhar determinada tarefa, são botadas pra escanteio, quando se acomodam na zona de conforto da estabilidade.
O nosso amigo livro impresso tem pelo menos uns 500 anos de existência. É um senhor idoso. Tornou-se vulnerável e lento.
E o mundo está muito rápido, tudo se modifica na velocidade de um relâmpago. Diariamente, a partir de pesquisas de opinião pública, cria-se necessidades para se vender facilidades. Sempre foi assim. Mas de uns anos para cá essa estratégia que mantém vivo o interesse pelo consumo por parte das pessoas, ganhou uma velocidade jamais vista.
O livro impresso, às duras penas, resiste ao tempo. Vem se adaptando às transformações e o faz com relativo sucesso. Belas edições, papéis de excelente qualidade, leveza, visual atrativo. Mas daqui a 50 anos é provável que sofra até uma campanha de minorias voltadas à preservação das florestas. Afinal, para que livros numa estante, se eles podem permanecer esquecidos do mesmo modo, num aparelho de telefone celular?
Não estarei aqui quando esse dia chegar. Mas não me admiraria se isso viesse a acontecer.
O colaborador é escritor

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