Rio Claro: 15 de Novembro de 1889

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Antigo casarão sede da Fazenda Angélica em deplorável estado de conservação

O Coronel Gualter Martins Pereira, Barão de Grão Mogol (Decreto Imperial de 17 de setembro de 1873), nasceu em Itacambira, centro pecuário e de mineração ao norte de Minas Gerais. À época do seu nascimento, em 1826, Itacambira pertencia à cidade de Grão Mogol. Arrematada a Fazenda Angélica, de propriedade do London Bank, em 1881, por Rs.305:000$000 (trezentos e cinco contos), o Barão migrou para Rio Claro.
Habitada em 1883, a nova sede da Fazenda Angélica foi obra realizada por cerca de oitenta escravos de procedência mineira e baiana.
O casarão foi construído em um lugar plano e aprazível, às margens do Rio Ribeirão Claro, com a frente voltada para o oeste. Todo rodeado de janelas, com uma varanda de grades de ferro em toda extensão da ala exposta ao sul, de estilo “Oitocentista”, o prédio possui o indefectível sótão e ampla escadaria de acesso ao pavimento superior.
O Barão, pessoa de destaque no Município de Rio Claro, foi eleito pelo partido monarquista à vereança municipal no triênio de 1886 a 1890, período em que ocupou, também, a Presidência do Legislativo.
Homem culto e progressista abraçou depois os ideais republicanos pregados por Campos Salles, Cerqueira Cesar e Alfredo Ellis. Renunciou publicamente ao título honorífico de “Barão de Grão Mogol” e, como cidadão, em 5 de fevereiro de 1888, quando Rio Claro libertava seus escravos, à frente daquela iniciativa, discursou no Largo do Teatro São João (Phenix). Portanto, Rio Claro foi uma das cidades pioneiros na libertação dos escravos, antes mesmo da Lei Áurea.
Ao ser proclamada a República, em 15 de novembro de 1889, coube-lhe, no dia seguinte, como Presidente da Câmara (primeiro Prefeito republicano de Rio Claro), a missão de anunciar oficialmente ao povo rioclarense o grande acontecimento. Para marcar a passagem do trigésimo dia da República no Brasil, foi plantada na Praça da Liberdade uma sequóia (a “Árvore da Liberdade”, conífera exótica, longeva, atualmente, tomada por plantas parasitas, definha, tendo a placa identificativa subtraída). A solenidade (pomposa cerimônia prestigiada pela população rioclarense, ao som da “Marselhesa”, hino francês, considerado o hino da liberdade de todas as nações civilizadas – ainda não havia sido composto o Hino Nacional Republicano), foi aberta com as emocionadas palavras do Sr. Gualter Martins Pereira.
Faleceu o Barão na Fazenda Angélica, às 4.20 horas, na manhã de 15 de dezembro de 1890, sendo sepultado no Cemitério São João Batista. Consta no recibo n. 407 (Livro 95): “Recebi do Senhor Joaquim Jose de Sá a quantia de oitocentos mil reis 800$000 pela sepultura na quadra particular para o cadaver de Gualter Martins. Rio Claro, 15 de dezembro de 1890. O procurador da Intendência Francisco de Almeida Camargo”.
Depois de trinta anos, uma de suas netas encontrou documento em que ele expressava o desejo de ser enterrado junto de seus escravos; seus restos mortais foram transladados para a fazenda na década de 1920.
O túmulo do Barão (em que havia uma lápide – já roubada – com a seguinte inscrição: “Obedecendo a sua última vontade, repousam aqui, os restos mortais de Gualter Martins, Barão de Grão Mogol, orae por ele”), em canavial próximo do Casarão, teve sua cruz de pedra derrubada pela Usina, que a recolocou, cimentada.
Cumpre ressaltar que nesta região do Distrito de Ajapí, houve enorme concentração de escravos; exemplificativamente, no Bairro da Mata Negra, onde permanecem, ainda hoje, construções e cemitérios daquele tempo.
A propósito, esperamos que os responsáveis pelo Patrimônio e Preservação da História do Município da atual administração do prefeito João Teixeira Júnior, carinhosamente chamado “Juninho da Padaria”, efetuassem a correção da equivocada data do plantio da “Árvore da Liberdade” (como sendo 08 de outubro de 1888), colocada na nova placa comemorativa à promulgação da Constituição Federal de 1988, inaugurada naquela Praça. Sem contar que o casarão sede da antiga Fazenda Angélica está relegado ao extremo abandono; em desmoronamento.

Árvore da Liberdade em morte agônica
Árvore da Liberdade em morte agônica

Q 5 (1)

Placa alusiva com registro histórico equivocado
Placa alusiva com registro histórico equivocado
Túmulo do Barão rodeado por canavial em total abandono
Túmulo do Barão rodeado por canavial em total abandono
Coronel Gualter Martins Presidente da Câmara Municipal
Coronel Gualter Martins Presidente da Câmara Municipal

Anselmo Ap. Selingardi Jr.
Perito Judicial em Arqueologia e Documentação Histórica
Inscrição: N. 1417 SP

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