NOS 172 ANOS DA CÂMARA MUNICIPAL DE RIO CLARO-SP

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PRÉDIO DA CÂMARA MUNICIPAL EM 1850

O professor que assinou a independência
de Rio Claro e dominou Botucatu no chumbo

Parte inicial da história do primeiro secretário da Câmara Municipal de Rio Claro. O professor que virou o chefão de Botucatu e comandou a política paulista daquela região no chumbo.

Em 1845 Rio Claro tornou-se independente de Limeira ao ser elevada à categoria de Vila, como se classificava na época. Com a alteração, a comunidade política local passava a ter administração própria através de uma Câmara Municipal formada por sete vereadores.

A separação não foi amigável, mas permeada de intrigas. As tentativas de boicote por parte de Limeira tinham motivos óbvios. Para o vizinho município, a independência de Rio Claro significava a perda de uma imensidão de terras, prejuízo com recolhimento de impostos, além da formação de um reduto eleitoral concorrente. Rio Claro passaria a dominar uma região que seguia além de Brotas.
A intriga começou pela mobilização de fazendeiros locais fazendo abaixo-assinado pela independência encaminhado à Assembleia Legislativa, a quem competia aprovar a media. A favor estava o então deputado Antonio Paes de Barros, depois barão de Piracicaba. Ele foi um dos fundadores de Rio Claro. Do lado contrário estavam os vereadores de Limeira, que acusavam os rio-clarenses de ignorantes, pobres, manipuladores e incapazes para a administração pública. As acusações são conhecidas pelas crônicas memoriais da cidade.

Cartas de um lado e outro esquentavam o tempo na Assembleia Legislativa. O enfrentamento ficou conhecido como a disputa entre tatus e indaiás. O primeiro termo fazia referência a Tatuibi, antigo nome de Limeira. O termo indaiás identificava os partidários de Rio Claro, distrito associado a tipo de palmeira com este nome.

Fracassado o boicote de Limeira, o governo paulista sancionou a lei de desmembramento a 7 de março de 1845. Os indaiás elegeram seus vereadores. O futuro visconde de Rio Claro, José Estanislau de Oliveira, líder do grupo, foi confirmado como presidente. A posse do presidente ficou marcada para acontecer em 26 de outubro de 1845. Mas em Limeira. Ele teria que prestar juramento ante aos vereadores adversários. Sentindo-se injuriado pelas críticas até ali sofridas, Estanislau decidiu não ir. A decisão foi irreversível.

Foi daí que entrou para história um paraquedista que havia caído em Rio Claro por conta de haver sido nomeado o primeiro professor para uma escola pública na cidade. Seu nome era Tito Corrêa de Mello, que depois teria insólita trajetória na política paulista. Estanislau o institui como procurador para tomar posse em seu nome.

Com o presidente oficialmente reconhecido em tal circunstância, Estanislau marcou para 9 de novembro a posse dos demais seis vereadores. Assim aconteceu e a Câmara Municipal de Rio Claro passou a administrar a cidade. Na época não havia prefeito. Os vereadores exerciam as atividades executivas e legislativas.

O jovem Tito, ele tinha em torno de vinte anos, tornou-se a partir dali integrante da roda graúda dos políticos indaiás. Foi nomeado secretário do governo local. As atas dos primeiros anos da Câmara Municipal foram redigidas e assinadas por ele. Sua rápida ascensão pode ser explicada por ser um dos poucos alfabetizados na cidade com algum conhecimento para redigir atas.

Não deixa de ser curioso notar que o presidente da Câmara de Limeira, que liderou o boicote contra Rio Claro, era Manoel José da Carvalho. Anos depois ele acabou se instalando em Rio Claro como agrimensor e logo foi eleito vereador local. No exercício da profissão, prestou serviços de demarcação de ruas do povoado em formação. É ele mesmo. Aquele que projetou o cemitério de Rio Claro e morreu no dia da inauguração, em 01 de novembro de 1875. Foi sepultado em Finados. No dia seguinte. O seu é o túmulo número um.

Quanto ao momento da independência de Rio Claro cabem alguns destaques.

Desde o ano anterior a cidade enfrentava uma epidemia de varíola, que dizimava a população. As crônicas memoriais disponíveis detalham o assunto. Por sinal, a incidência de varíola, hanseníase e febre amarela foi uma constante até os anos 1920.

Politicamente a cena estava tumultuada desde 1842, quando paulistas, sob o comando do senador Vergueiro, fundador de Rio Claro, Limeira e Piracicaba, e do senador Feijó, tentaram um levante contra o governo de Pedro II.

Ambos eram expoentes da Corte com participação ministerial. Eles representavam os interesses liberais contra os dos conservadores, que os haviam removido do poder no Rio de Janeiro.

Fracassada a tentativa de revolução, Vergueiro e Feijó acabaram presos. Depois foram anistiados. O episódio influenciou negativamente nas cidades em que Vergueiro exercia influência. O que retardou a independência de Rio Claro e também de Limeira. As duas pertenciam a Piracicaba. A chamada província (estado) de São Paulo ficou marcada pela suspeita, motivo pelo qual perdeu o Paraná, que era território paulista e conseguiu sua independência.

A nomeação do professor Tito para a primeira escola pública de Rio Claro sofreu atraso por este mesmo motivo. O governo estadual ensaiava os primeiros momentos de organização do ensino público.
Era para ele ter iniciado ter tomado posse em 1843, mas em meio ao tumulto assumiu as aulas em 1845. De alguma maneira não esclarecida, o jovem Tito também envolveu-se na tentativa de revolução, por sua vez em Sorocaba, cidade de Feijó e sede da resistência contra o governo imperial. Igualmente, Tito foi anistiado. Só daí foi aparecer em Rio Claro.

A permanência do primeiro professor público na cidade foi breve. Não chegou a quatro anos. Ao longo de sua vida, Tito morou em São Paulo, Itu, Itapetininga e Botucatu, onde faleceu na passagem para o século XX. Sua origem é relativamente obscura e mobiliza pesquisadores. A tendência é identifica-lo como sendo mineiro.

Já em 1847, o jovem Tito deixava Rio Claro casado com a filha de
José Gomes Pinheiro e seguiu para Botucatu com o objetivo de cuidar das terras do sogro.

Em Botucatu ele imprimiu seu nome na história paulista de maneira polêmica e violenta. O período que vai de sua chegada àquela cidade à sua morte tornou-se conhecido em Botucatu como a “Era do Capitão Tito”.

Mas esta é outra história, que fica para a sequência, com a crônica “Tito, da pena ao chumbo”.
J.R.Sant´ Ana
03 de novembro de 2017

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