URBANISMO

Telhas e tijolos na formação do centro histórico de Rio Claro

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Telhas e tijolos na formação do centro histórico de Rio Claro

A influência urbana de uma igreja que não chegou a existir

As primeiras construções que vieram a formar o centro histórico de Rio Claro entre 1820 e 1860 foram basicamente de pau a pique com cobertura de sapé ou palha por duas aventadas condições naturais. A primeira seria o predomínio de terreno arenoso da vizinhança e a longa distância para se extrair material em bancos de argila.

Esta consideração aqui avaliada toma por base referências de Zulmiro Ferraz (1927), que vê o estímulo ao uso de material cerâmica na cidade a partir da frustrada construção da Matriz Nova, cujas obras foram iniciadas em 1865 e abandonadas em 1867 por falta de recursos.
O prédio, demolido entre 1885 e 1888, que tinha paredes de quatro metros de altura, foi erguido até os telhados onde hoje é Lago do Índio, no Jardim Público.
Zulmiro é quem diz: “Pode-se dizer que o iniciador das construções com tijolos foi o velho francês Marcelino Girard, que fora empreiteiro da construção da célebre Matriz Nova, a qual não passou de uma esperança que não se realizou jamais”.

Urbanização e olarias
Seja como for, por época da construção da igreja, o município ganhou impulso urbano com a abertura de olarias que passaram a produzir tijolos e telhas, além de artefatos domésticos.
Com a oferta de argila, o sistema de construção de pau a pique foi substituído pela taipa de pilão, com barro socado. Prédio remanescente deste tipo na cidade é o Museu Histórico e Pedagógico “Amador Bueno da Veiga”, na esquina da Rua 7 com a Avenida 2.
Ao longo deste texto irá conferir-se, além das referências a Ferraz, detalhes sobre a frustrada construção da Nova Matriz bem como alguns comentários de viajantes europeus que ao visitarem Rio Claro destacaram o aspecto aflitivo e característico de uma cidade sobre terreno arenoso. “Rio Claro é poeirenta como o deserto do Saara”, registrou um dos visitantes. Eles comentam também a qualidade das construções de casas, sobrados e alinhamento das ruas.

Retrospectiva
Antes, cabe rever itens básicos do texto “A indústria cerâmica paulista na formação de Rio Claro e região” (Sant´Ana, 2017) para se conferir o panorama em que transitou a produção cerâmica local com a transformação das olarias em cerâmicas industriais, superadas as fases do pau a pique e da taipa de pilão.
Na região, as olarias se distribuíam por Santa Gertrudes e pelos bairros de Sobrado, Batovi, Serra D´Água, e São Bento com produção artesanal.
O Almanaque da Província de São Paulo para 1873 registra Rio Claro como o segundo município paulista com maior número de olarias. O primeiro era Campinas. Dentre as cidades com mais olarias, destacam-se: Campinas – 13; Rio Claro – 11; São Paulo – 10; Sorocaba – 9; Itu – 8; Limeira – 6. Piracicaba, Araraquara e Santos tinham 5 cada uma.
O Almanaque São João do Rio Claro para o mesmo ano, organizado por Tomas Carlos Molina, divulga que havia 4 depósitos de cal e as 11 olarias de Rio Claro tinham seus pontos de venda na área central, nas ruas 3, 7 e 8 e nas avenidas 1, 2 e 3. Na época as vias tinham nome. A numeração seria foi adotada em 1886.
Os proprietários traziam sobrenomes português, espanhol e alemão. Os sobrenomes são Gonçalves, Rodrigues, Gurgel, Guimarães, Bueno, Russo, Godoy e Hebling. A forte presença de sobrenomes italianos na indústria cerâmica iria se dar a partir dos anos 1880.
A mão de obra para a construção civil e serviços do segmento abrangia 1 arquiteto, 11 pedreiros e as turmas de “Marcellino Gerar, Felix Flores, escravos de Amorim, da viúva Franco e muitos outros” e 33 mestres de obras e carpinteiros, informa Molina. Notar que apesar da grafia diferente, o referido Marcellino é o mesmo empreiteiro da construção da Matriz Nova, obra paralisada em 1867,
A primeira grande fábrica de produtos cerâmicos do Brasil foi fundada em São Paulo, em 1893, por quatro irmãos franceses, naturais de Marselha. O nome da empresa era “Estabelecimentos Sacoman Frères”, posteriormente alterado para Cerâmica Sacoman S.A. Suas atividades foram encerradas em 1956. O nome das telhas conhecidas por “francesas” ou “marselhesas” é devido à origem destes empresários, conforme o Anuário Brasileiro de Cerâmica, 1979.
Entre as primeiras cerâmicas da cidade, o álbum “História de Rio Claro”, publicado por Romeu Ferraz em 1922, traz publicidade da empresa suíça e alemã “Serraria e Cerâmica Schmidt, Meyer & Cia”. Original de 1910, a empresa produzia tijolos e telhas em suas unidades de Santa Gertrudes e Corumbataí.

Urbanização do centro
Zulmiro Ferraz assinala a urbanização do que viria ser a área central a contar do impulso vivido pela elevação do povoado à categoria de Vila. O que significava independência política e administrativa de Piracicaba e Limeira com governo próprio em Rio Claro devido à instalação da Câmara Municipal e posse dos primeiros vereadores em 1845. Seguem registros do autor.
“Com a instalação do município um novo alento se apoderou dos habitantes de São João do Rio Claro, e a lavoura cafeeira progredia, incessantemente, enriquecendo os lavradores diligentes.”
“A Vila ia abrindo novas ruas que seguiam o alinhamento primitivo com as enormes praças da Matriz, do Jardim, da Boa Morte, da Várzea (Espaço Livre) e da Santa Cruz.”
“Fazendeiros e negociantes construíam casas confortáveis, amplas, mas sem arquitetura alguma; poucas eram as assobradadas e não existia senão o Sobradão do Amorim.”
“A Câmara começava a fazer os passeios das ruas com pedra brutas, arredondadas, que causavam martírio aos transeuntes. Alguns proprietários mais caprichosos, porém, tinham o cuidado de calçar as beiradas de seus prédios com umas lajes arroxeadas que vinham dos terrenos calcários de Ipojuca (Ipeúna). “
“Os centros das ruas, principalmente da Avenida 1, para os lados da Matriz, eram areais terríveis onde se atolavam os pés até os tornozelos.”
“Quem queria beber água boa mandava buscar no Bicão, que ficava nos fins da Rua 6, então chamada de São João. Quase todos tinham poços nos quintais, cujas águas eram salobras.”
“A construção de tijolos ainda não era usada. Como a terra da cidade fosse somente sílica, sem argila, os edifícios de taipas eram pouquíssimos, pela dificuldade de trazer saibro de longe.”
“Dai a razão porque os antigos edifícios foram construídos de pau a pique, tais como a primitiva igreja matriz, a de Boa Morte, a de Santa Cruz, o velho Teatro São João, o palacete de José Elias Pacheco Jordão (Avenida 3 entre ruas 6 e 7), o palacete Molina (Avenida 1 entre ruas 7 e 8), e muitos outros edifícios que posteriormente foram reconstruídos com tijolos.”
“Pode-se dizer que o iniciador das construções com tijolos foi o velho francês Marcelino Girard, que fora empreiteiro da construção da célebre Matriz Nova, a qual não passou de uma esperança que não se realizou jamais.”

Pau a pique
Descrição de como se fazia uma construção em pau a pique é encontrada no mesmo autor. No caso, ele descreve como foi levantada a primeira capela da cidade, em 1827, data referente à fundação da cidade.
“O povo da região levantou a pequena e rústica capela de São João Batista bem no meio do quarteirão entre as avenidas 3 e 5 da Rua 7, no atual Largo da Matriz.” No local citado encontra-se hoje a capela do “Puríssimo Coração de Maria”. Na sequência, a igreja foi construída no terreno onde se encontra, na Rua 6, entre as avenidas 3 e 5.
“A capelinha era coberta, a princípio, de palmas de indaiá entrelaçadas em tipiti, as suas paredes de pau a pique, isto é, com esteios de cerne e barrotes e ripas de palmito jissara, eram barreadas apenas, sem reboque de cal. O tosco templo cristão não teria mais de 60 palmos de comprimento, 30 de largura e 20 de altura.”

Areia e poeira
Visitantes estrangeiros que estiveram em Rio Claro entre 1850 e 1890, período da formação urbana, referendam a visão de Zulmiro quanto à presença de areia, poeira e à construção de casas. O período corresponde à época de definição de projeto, construção e demolição da Matriz Nova.
O embaixador suíço Johann Jakob von Tschudi visitou fazendas da região e a cidade em 1858 e divulgou suas impressões dois anos depois. Segundo publicou, Rio Claro tinha 35 fazenda de café, 6 engenhos de açúcar e diversas fazendas de gado. Em detalhe, assinalou: “As ruas são poeirentas como o deserto do Saara, e o pó é sufocante”.
De sua visita a cidade em 1886, Alfonso Lomonaco, conforme indica Helmut Troppmair, destacou da cidade que “suas ruas longuíssimas, perfeitamente planas, são cobertas de branca e fina areia.”
Documento de 1887 da Comissão Central de Estatística aponta que naquele ano há havia sobrados, tipo de construção que Zulmiro indicara que antes de 1860 não existiam. “Possui grande número de prédios assobradados e elegantes e alguns sobrados modernos construídos com apurado gosto.”
No mesmo ano o turista alemão Maurício Lamberg mostrou-se impressionado por algumas características da cidade. Suas impressões foram registradas no livro “Brasil”, três anos depois.

A influência urbana de uma igreja que não chegou a existir
A influência urbana de uma igreja que não chegou a existir

Na publicação, ele diz:
“Esta é uma pequena cidade horrivelmente monótona, porém construída com regularidade e que nada fica a dever a uma aldeia alemã.”
“Sua população de oito mil habitantes arrasta-se pesadamente em meio da poeira mais espessa que vi em minha vida. Se me queixei da poeira em Campinas, só aqui vim saber que quantidade enorme de pó um homem pode vencer.”
“Nesse lugar tão enfadonho, que desafia qualquer descrição, eu não queria nem sequer ser enterrado, apesar de haver no local um cemitério realmente bonito. E por isso, apressei-me em partir”.
Resta conferir a trajetória da construção e demolição da Nova Matriz, mas isto é outra história, que fica para outra vez.

Historiador – J.R.Sant´Ana – 29/10/2017

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