Darcy Ribeiro: Compreendendo o Brasil Assimilação ou segregação

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A formação do povo brasileiro nasce da opressão entre dominador e dominado.
Os massacres sucessivos dos povos indígenas desfiguraram o contorno étnico, e o ingresso dos negros – cerca de 6 milhões até 1.850 – que foram tratados como “bestas de carga”, extenuados no trabalho, deram uma nova face àgênese brasileira. O processo de miscigenação edificou o novo gênero humano.
Alforriado e elevado à “liberdade”, o negro introduzido às novas formas de exploração, que apenas o permitiram integrar-se como sub proletário, seguiram a mesma metodologia de segregação impostas à sua chegada.
Mais do que a questão racial, um novo componente se aflora na proteção dos círculos privilegiados; entra opredomínio social, fator determinante de manutenção da classe dominante.
A desculturalização dos indígenas e dos africanos constituiu no novo gênero humano uma tábua rasa, onde o índio comunitário ou o negro tribal foram domesticados a aceitar suas condições servis. A brutal opressão dominadora da classe senhoril os levaram à conceituação de que o povo não existe para si, e sim para os outros, que a sua manutenção na miséria é dada pela vida e a única opção é a sua resignação e assimilação.
De outro lado, as classes dominantes resistem às inovações da Revolução Industrial, devido ao seu caráter arcaico de deseuropeização para a manutenção de seus privilégios e interesses que estão arquitetados na ordenação estrutural, aqui imposta.
Apropriando-se de nossa independência, que não concebeu em absoluto nossa descolonização, a classe dominante enxergou mais uma conveniência em afluir mais lucros por meio do domínio às classes subalternas.
As transfigurações étnicas no Brasil resultaram quatro importantes consequências:
a-) biótica – pela qual os seres humanos, interagindo com outras forças vivas, podem transfigurar-se radicalmente. Citamos aqui o caso das epidemias originadas pelo europeu e que foi fator de aniquilação de um imenso contingente indígena;
b-) ecológica – pela qual os seres vivos por conviveremnesse mesmo ambiente foram afetados uns aos outros em sua forma física e em suafunção vital. É o caso da admissão de novas espécies de animais, como por exemplo, a vaca, o porco e a galinha;
c-) econômica – que converteu a população de uma condição determinada de existência material para outra, em detrimento de si própria, e pode levá-la ao extermínio. É o caso da escravidão que desgarrou a pessoa de seu contexto vital para convertê-la em mera força de trabalho.
d-) psicocultural – que dizimou sistematicamente populações, removendo a esperança, e consequentemente o próprio desejo de existência. Caso dos índios que se deixavam morrer, por não ambicionar a vida que lhe era oferecida pelo europeu.
A quebra do orgulho nacional, o preconceito social e a discriminação, introduzidos em nossos valores básicos, somaram-se para a nossa formação que está entrelaçada à dominação de classes.
A assimilação, assim como a segregação, são elementos capitais na luta de classe enraizada na formação do Brasil.

Henrique Matthiesen

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