Darcy Ribeiro – Compreendendo o Brasil: A formação de uma classe dominante

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O inevitável choque civilizatório, empregado pelos colonizadores no Brasil, descortina o abismo conceitual de sociedades profundamente distintas.
Portugal era uma sociedade bipartida, onde as condições rural e urbana estavam estratificadas em classes embutidas de uma cultura erudita e letrada,integradas na economia com a ambição obrigatória da navegação para expansão.
Já a brasileira estava enraizada na multiface tribal, de uma sociedade indígenainsciente do complexo processode mercado, de economia, de monopólio, na sua forma de vida e sua cultura era suficiente para suas ricas existências.
O rompimento evolutivo da população indígena, subjugando-a à escravatura e à quebra étnica, foi o alicerce de uma colonização conceitualmente de salvacionismo, repetida cruelmente com os africanos aqui trazidos.
As bases estabelecidas nesse processo foram determinantes em nossa gestação com a incorporação da tecnologia européia aplicada à produção, ao transporte, à construção e à guerra com uso de instrumentos de metal e de vários dispositivos mecânicos.
A mudança dos conceitos de solidariedade embrionária no parentesco, distintivo do mundo tribal igualitário, por outras formas de estruturação social, que bipartiu a sociedade em componentes rurais ou urbanos, e a estratificou em classes antagonicamente opostas uma da outra. Introdução da escravatura indígena, posteriormente da escravatura africana, assim como o processo de catequese.
Estruturação sociopolítica única como classe dominante um patronato de empresas e uma elite patriarcal dirigente, cujas cátedras eram tornar viável e lucrativa a colônia, e eliminar qualquer insurgência interna ou externa.
Conceituada como uma filial lusitana, com um rígido controle social e ideológico, a consolidação se edificou em nossa sociedade na multiplicidade dos encontros e desencontros culturais, na miscigenação étnica, e na desconstrução das origens nativas.
A força de uma sociedade como a portuguesa, já predeterminada, a tecnologia empenhada e a falta de unidade dos índios e dos negros oriundos da conceituação tribal, impediram a formação de uma classe dominante nativa.
Eram conglomerados díspares que não se entendiam, assim como os africanos apartados culturalmente, degradados de suas raízes e convertidos em mera mão de obra escrava.
Foi com o enfrentamento de dois fatores que a gestação étnica ocorreu: o primeiro com a aniquilação dos grupos indígenas que não aceitando a nova condição escravagista acabaram se afastaram do litoral ou foram chacinados pelas batalhas ou pelas pragas que o novo mundo trouxera; e o segundo foi manter à força a regência colonial sobre os núcleos neobrasileiros que se multiplicaram na condição de dependência com a metrópole.

Henrique Matthiesen

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