Suissinato das universidades

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*Cristovam Buarque
O futuro de um país tem a cara de sua escola no presente. Cortar recursos para a universidade é como suspender transfusão de sangue para o país. O que acontece com a UERJ é um exemplo. Ainda mais quando percebemos que a crise é de todo ensino superior.
Embora a falta de verbas seja a causa mais visível, a tragédia tem motivos que exigem autocrítica. Há décadas a universidade estatal brasileira vem cometendo o suicídio de uma morte anunciada, apressada pelo assassinato por governos irresponsáveis: abandono e acomodamento formam o veneno do “suissinato”.
A qualidade do ensino superior depende diretamente da educação de base. A universidade assistiu à degradação do ensino infantil, fundamental e médio sem lutar politicamente para forçar prioridade para elas. Também não se dedicou a formar bons professores para a educação de base.
A academia falhou ao não lutar contra a irresponsabilidade fiscal, aplaudindo a construção de estádios e implantação de programas populistas e fechando os olhos à corrupção, o déficit agora é pago com o corte de verbas. A universidade deve lembrar que a gratuidade é paga com dinheiro da sociedade.
Diante do previsível esgotamento fiscal do Estado, a universidade precisa ser mais eficiente na gestão dos recursos e na captação de verba complementar em fontes não estatais, como fazem as universidades em todo o mundo. Mesmo em tempo de austeridade gastamos mais do que as universidades europeias e asiáticas, as melhores do mundo.
A universidade se contenta em ser escada social, pela outorga de diplomas, no lugar de ser alavanca para o progresso, pela inovação do saber em todas as áreas. Está desconectada do setor produtivo. Perdemos a sintonia com os rápidos avanços do conhecimento: considerar carreiras e diplomas como permanentes. Não se internacionaliza nem adota os novos métodos de ensino à distância.
Além do corte de verbas, a crise da universidade tem tudo a ver com sua rendição ao corporativismo, ao partidarismo, desprezando o mérito e sem um pacto de qualidade com a sociedade. Ao longo de anos foram tantas greves que a população chega a imaginar que a atual paralização da UERJ é apenas mais uma delas, não decorre da falta de recursos por irresponsabilidade do governo.
Se o Brasil quer encontrar um rumo, precisamos salvar a UERJ e as universidades da crise financeira. Para isso, as instituições precisam salvar a si próprias, fazendo autocrítica, reformando-se para estar à altura dos desafios do conhecimento e do esgotamento de recursos. Abandonar as universidades, como acontece com a UERJ, é uma forma de assassinar o futuro, mas manter a universidade sem uma profunda reforma é cometer suicídio institucional.
Cristovam Buarque é senador pelo PPS-DF e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).

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