O exemplo que vem de cima, um dos grandes males do Brasil

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Livio Oricchio, de Nice, França
Aqui em Nice, na França, onde resido, e em Bordighera, Itália, do outro lado da fronteira, meia hora de carro, apenas, de Nice, costumo me reunir e conversar com amigos, cidadãos de importante formação acadêmica. Falamos sobre os mais variados temas, como aquele que mais nos atinge, hoje, o da imigração.

Há centenas imigrantes nas ruas, oriundos da África, tentando passar do lado italiano para o francês a fim de chegar em Calais, no norte da França, e de lá de alguma forma imigrarem para o que pensam ser o seu Shangrilá, a Inglaterra.

Mas conversamos, também, sobre o Brasil. Se você acha que a violência é o que mais chama a atenção dos estrangeiros em relação ao país, está enganado. Obviamente, quando eles sabem que este ano mais de 100 policiais já morreram no Rio de Janeiro, a maioria assassinada pelo crime organizado, meus amigos ficam estarrecidos.

A pergunta mais óbvia deles é: o que estão fazendo as forças armadas que não declaram guerra a esse poder paralelo que tomou conta da nação?

Mas eu comentava a respeito do que mais falamos. O principal, ultimamente, é o poder judiciário brasileiro. Eles sempre esperam que eu leve cópias das reportagens publicadas nos sites G1, da Globo, e do UOL, principalmente. Lá eu traduzo para eles. Ouvi de um amigo francês: “É surreal”.

A última série de li para os meus amigos é sobre Gilmar Mendes, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Agora, assim que voltar da Malásia, para onde embarco nesta segunda-feira, vou levar mais uma série de reportagens onde o cidadão em questão com certeza será, de novo, notícia no Brasil.

Vocês devem se lembrar do episódio em que o Ministério Público Federal (MPF) fez enormes esforços para decifrar, em detalhes, o esquema de corrupção milionário no sistema de transportes públicos no Rio de Janeiro, a Operação Ponto Final.

Diante da vasta e concreta documentação reunida, o juiz federal Marcelo Bretas emitiu mandados de prisão a todos os envolvidos diretamente, como o milionário empresário Jacob Barata Filho, conhecido como “o rei do ônibus no Rio” e mais cinco acusados.

Mais que de imediato, Gilmar Mendes analisou o pedido de habeas corpus dos advogados de “rei do ônibus” e os cinco envolvidos. Também como num passe de mágica Mendes tirou todos da cadeia. Instantes depois, surgiu na imprensa uma foto de Mendes ao lado de Jacob Barata no casamento da filha. Quem era o padrinho? Acertou, o próprio Mendes.

Questionado sobre um eventual envolvimento emocional no caso, Mendes foi até agressivo na resposta aos jornalistas. O MPF pediu o seu afastamento do caso. Sem sucesso. Dá para entender melhor meu amigo francês parar de sorrir, expor uma expressão séria e dizer o que mencionei, “surreal?”

Agora o mesmo Mendes foi sorteado para julgar o habeas corpus do empresário mais bem sucedido do Brasil, ao menos era: Joesley Batista, do grupo J&F, controlador da JBS, envolvida até o pescoço na Lava Jato. Estamos falando do desvio de bilhões e bilhões de reais, que dariam para atenuar senão resolver vários problemas crônicos do país, como o fornecimento de água tratada e o sistema de coleta de esgotos, base de muitas das doenças que fazem a mortalidade infantil brasileira ser assustadoramente alta.

Mas se depender do histórico de Mendes no caso, Joesley por mandar trocar a roupa da sua cama, na sua mansão, que em breve vai dormir em casa, deixará a prisão.

Delatores da JBS fizeram com que o procurador Ângelo Villela e o advogado Willer Tomaz fossem presos. Mas, para estarrecimento do MPF e da Procuradoria Geral da República (PGR), já estão soltos. Foram liberados pelo voto de minerva de Mendes. Nem todos sabem, mas o próprio ministro Gilmar Mendes foi citado por um dos delatores da JBS. Chocante.

A PGR pediu novo afastamento de Mendes. E ouviu em resposta do ministro que a PGR fez contratos criminosos com os delatores da Lava Jato.

Agora a cereja do bolo. O Grupo J&F confirmou para o jornal Folha de São Paulo que destinou ao Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP) R$ 2,1 milhões em patrocínio para os seus eventos. Sabe quem é o sócio do IDP? Isso mesmo, o próprio, o ministro Gilmar Mendes.

O que esperar de um país em que a sua suprema corte de justiça dá exemplos contínuos de toda forma de desmando? Parte importante dos seus cidadãos, sem estudos, cultura, discernimento, acredita que esse é o modelo de sobrevivência, a pilhagem, a prevaricação da função que exercem, não importa qual, das mais simples às mais importantes para os destinos do Brasil, como a de ministro do STJ.

Dia 15 deste mês, o general da ativa do exército Antônio Hamilton Mourão disse durante palestra, em Brasília, que seus “companheiros do Alto Comando do Exército” entendem que uma “intervenção militar” poderá ser adotada “se o judiciário não solucionar o problema político”, em referência à corrupção sem limite que varre o Brasil.

Militar no poder é sinônimo de o país andar para trás, representa um atraso profundo. Mas militar realizar tarefas que o judiciário não faz, por conta do interesse pessoal (dá para acreditar?) de alguns de seus integrantes, tenha a certeza de que levaria 200 milhões de cidadãos, a maioria esmagadora de honrados homens e mulheres, às ruas para festejar.

Agora, os militares têm de estabelecer no seu plano de ataque não apenas a classe política, mas também a eliminação desses focos de virulência bárbara e injustiça que fazem tão mal ao Brasil quanto o promovido pela classe política, os existentes no judiciário, onde esse indivíduo, Gilmar Mendes, é um dos líderes.

liviooricchio@gmail.com

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