Darcy Ribeiro Compreendendo o Brasil O processo civilizatório

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Ao ponderarmos a obra de Darcy Ribeiro verificamos que a história civilizatória, em especial no processo que se deu a colonização no Brasil, está no tempo passado como pressuposto essencial de compreender o presente e projetar o futuro.
Compreender as matrizes culturais, todas as suas contradições e o seu desmantelamento, torna-se fundamental para traçarmos nossas perspectivas.
A partir da revolução tecnológica que impulsionou as Grandes Navegações estruturou-se a edificação de novos impérios, dentre os quais, o português obtive grande êxito.
A premissa de um império salvacionista criou um cenário atípico da experiência árabe – uma das raízes da formação portuguesa-, que visava apenas conquistar áreas, e não converter religiosamente ninguém.
O processo messiânico estabeleceu os parâmetros de suas colônias em uma nova formação socioeconômica das terras “conquistadas”, e soma-se a isso, ainda, as premissas do capitalismo e do acúmulo excedente.
Dentre a geopolítica europeia, na rivalidade entre Portugal e Espanha, as alianças pontuais foram inevitáveis. A luta pela hegemonia entre os múltiplos conflitos econômicos, sociais e religiosos levaram a Inglaterra a uma espécie de colonização mais homogênea na América do Norte; não sob o mantra messiânico, mas sob a rege e a influência da reforma protestante iniciada na Alemanha.
Nosso processo civilizatório teve como precursora a síntese do massacre, do “gastar-se” gente,e na imposição de uma classe dirigente infiel, inclusive ao seu povo.
O estabelecimento do Senhorismo, que se sucede através dos séculos, em não admitir reconhecer os direitos, a não ser na multiplicação de mão de obra escrava ao apartheid social, na cultura do assimilacionismo.
O forçoso projeto de europeizar o Brasil provou-se um retumbante fracasso colonizador. Despojados de suas terras, encarcerados em seus corpos, resumidos em mercadorias para uso de seus senhores, o adestramento da obediência foi um dos maiores êxitos em nosso processo civilizatório.
Felizmente, a birrenta resistência de nossa natureza resistiu a esse ímpeto.
A ordem social era sagrada, e seu papel como mero servil desta ordem era prescrito por “deus” já que nossas elites de senhores eram aparadas pelo Estado que tinha a benção dos céus.
A quebra étnica dos índios e negros, e até mesmo dos europeus, de dominação transfigurada em filial lusitana, impediu a formação de uma classe dominante nativa, abrindo caminho para uma classe dominante e patriarcal.
No Brasil de índios e negros, a principal obra dos colonizadores não foi o ouro, não foram as mercadorias produzidas e exportadas, e nem mesmo as incontáveis riquezas aqui pertencentes, a grande herança deixada foi a forçada mestiçagem que se multiplica a espera do seu destino.

Henrique Matthiesen

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