Não seremos acusados de contaminar Saturno e suas luas

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Livio Oricchio, de Nice, França

O fim da missão Cassini, da Nasa, ganhou importante espaço na imprensa do mundo todo, sexta-feira, depois de orbitar Saturno, seus anéis e o complexo sistema de luas desde 2004. Nós abordamos o tema no texto da semana passada. O nosso conhecimento desse gigante gasoso e até da formação do sistema solar cresceu exponencialmente.

E, como mencionado no último encontro aqui, a sonda e seus complexos e precisos instrumentos revelaram que em duas das suas luas, Titã e Encélado, a possibilidade da existência de formas de vida, ainda que das mais simples, é uma realidade.

O nosso foco hoje é exatamente esse. Quando os homens descobrirem vida fora da Terra será, com certeza, uma das maiores conquistas da ciência em todos os tempos. Mas há um aspecto nessa história que pode lançar sobre a humanidade uma acusação universal, eterna e não perdoável: o próprio homem levar a vida aos locais onde pesquisa sua existência.

Vamos esmiuçar um pouco a questão? Você já deve ter visto imagens da preparação das sondas, satélites que serão lançadas ao espaço, nos centros da Nasa ou da ESA, a agência europeia. A impressão é de que os técnicos trabalham em um centro cirúrgico. Usam roupas especiais, luvas, tocas e antes de entrarem nas salas de trabalho tomam banho com antissépticos.

Isso tudo é feito para que os veículos que vão se aproximar de outros planetas, luas, asteroides, cometas, como já enviamos, não transportem consigo bactérias, vírus, fungos, ou qualquer outra forma de vida microscópica. Já imaginou se eles chegam nesses astros, encontram condições para a vida crescer e passam a se reproduzir lá?

A humanidade seria a responsável pela contaminação. Em um tribunal do espaço, daqui a mil anos, poderíamos ter um representante da Terra tendo de se defender da acusação imposta por habitantes de um planeta de outro sistema solar. Ficção? Sim. Mas hoje.

Você deve ter visto que a Cassini foi lançada na direção de Saturno, para entrar na sua atmosfera e ser destruída. Viajando a algo como 110 mil quilômetros por hora, velocidade alucinantemente elevada, enfrentou as primeiras camadas de gases. Enquanto isso, seus instrumentos registravam tudo o que era possível, pois nunca havíamos chegado tão perto de Saturno, e em tempo real enviavam a Terra.

O atrito com o hidrogênio, hélio, nitrogênio, dentre outros gases da atmosfera, elevou rapidamente a temperatura de Cassini até a sonda literalmente ser desfeita, derreter. Se houvesse alguém nas nuvens de Saturno enxergaria um corpo incandescente atravessando o espaço.

Mas por que destruir Cassini, depois de ser lançada da Terra há exatos 20 anos e por 13 anos nos encher de dados preciosos sobre o sistema de Saturno? Para começar, seu combustível estava acabando. Para que combustível no espaço, a gravidade não gera os empuxos? Sim. E esse é o problema. Cassini estava na órbita de Saturno com suas impressionantes 62 luas.

A cada hora a gravidade do planeta ou de uma ou mais luas começava atrair Cassini. Para manter a sonda na trajetória desejada, como destiná-la a sobrevoar também Titã e Encélado, é preciso enviar um comando, via rádio, aqui da Terra. A antena da sonda recebe a mensagem e o computador comanda os pequenos motores a jato para com breve spray provocar a mudança de rota desejada.

Era o combustível químico desses jatos que estavam acabando. Com tantas forças para puxar Cassini, gerada pela gravidade de Saturno e suas luas, o centro de comando da missão tinha de intervir regularmente.

Voltando à questão do porquê da destruição de Cassini. Sem combustível, a sonda poderia tomar a direção, por exemplo, de Titã e Encélado e se chocar com a superfície. Experimentos mostram que a vida microbiana pode sobreviver a esses impactos, por mais devastadores que sejam.

A Nasa tomou todos os cuidados para que Cassini se aproximasse de Saturno, em 2004, estéril, não contaminada. Mas não é possível obter 100% de garantia. Há seres vivos microbianos que resistem à radiação de toda natureza.

Assim, para evitar o risco de daqui a mil anos os habitantes da Terra terem de sentar no banco dos réus, acusados por seres de outra galáxia, de termos contaminado nossos vizinhos com formas de vida do nosso planeta, com consequências impossíveis de prever, talvez devastadoras, a melhor solução é destruir Cassini. Sua completa desintegração, gerada pelo calor intenso, capaz de derreter a sonda de metal, eliminará o risco de contaminação.

Só lembrando, Titã tem lagos de metano, um gás em estado líquido, possui também uma atmosfera. Os cientistas acreditam que há importantes semelhanças com a Terra primitiva. E Encélado tem um oceano de água salgada sob sua camada de gelo no polo sul. As duas reúnem condições biológicas de, em princípio, abrigarem vida, assim como Europa, uma lua de Júpiter.

E é exatamente para Europa que vai decolar a próxima grande missão da Nasa, possivelmente em 2022, para a partir de 2025, quando lá chegar, tudo dado certo, começar a nos enviar dados sobre essa lua, distante algo como 600 milhões de quilômetros, bem mais perto dos 1,3 bilhão de quilômetros de Saturno.

Os dados de Cassini permitirão que nos próximos dez anos a comunidade de astrônomos, astrobiologistas, físicos, químicos, dentre outros profissionais, estudem seu rico sistema.

Em resumo, podemos dormir tranquilos que não seremos os responsáveis por contaminar Saturno e suas luas.

liviooricchio@gmail.com

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