O JULGAMENTO DE JANOT

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Alexandre Garcia
Esta é a última semana de Rodrigo Janot na chefia da Procuradoria-Geral da República, uma instituição que ganhou poderes e autonomia na Constituição de 1988 e que nunca teve um chefe tão marcante quanto agora. Ainda é cedo para julgá-lo. Vai ser preciso esperar pelas consequências de sua administração na Procuradoria. Mas não há como reconhecer que desde o envolvimento de Joesley, o Procurador foi para a berlinda. Essa berlinda seria tribuna de honra ou banco dos réus, dependendo as diferentes e opostas opiniões que se formou dele. Para os petistas, um perseguidor de Lula; para outros, um perseguidor de Temer. Mais sensato é esperar as consequências.
Por enquanto, as consequências foram danosas para a economia brasileira. Quando se anunciou a delação de Joesley e a gravação no Jaburu, a atividade econômica e o emprego que esquentavam, em maio, receberam um balde de água fria. Além disso, Janot embarcou no barulhento trio-elétrico de declarações que contagiaram a Justiça. “Enquanto houver bambu, vai flecha” ficaria bem na boca de um artilheiro de equipe de futebol, no intervalo de um clássico. E ele não está sozinho nesse clássico: juízes do Supremo também são loquazes, bem além dos autos.
Mas aí, flechas que foram poupadas em relação ao delator premiadíssimo Joesley Batista, acabaram atingindo o próprio pé do Procurador-Geral. Mesmo de pé flechado, ele ainda foi a um bar num setor isolado de Brasília, para se encontrar casualmente com o advogado de Joesley. Depois desse suspeito episódio, continuou atirando flechas, como se elas tivessem o dom de apagar os estragos de Joesley, do ex-procurador Miller e do advogado. Desde maio, parece apressado em pegar o Presidente da República e até emagreceu. Reconheça-se que alguns de seus antecessores eram criticados como engavetadores. Na situação atual, um engavetador, sob o argumento de que resta a Temer pouco mais de um ano de governo e mexer com o Presidente afetaria a combalida economia, um engavetador engavetaria, em nome da paz no país.
Nos seus últimos dias, Janot lançou a campanha “Todos juntos Contra a Corrupção”, mostrando que esse não é um trabalho só dele, da Polícia Federal, do Ministério Público, da Justiça Federal, mas uma responsabilidade de todos. E que começa no cidadão e vai até o político, a autoridade. Nessa direção, não o inverso. Nossa mania brasileira, no país do jeitinho e do malandro, da propina generalizada, do desrespeito às leis e à ordem, nos faz olhar para fora de nós. E ainda alegar que o exemplo vem de cima. Pois podem ter certeza de que começa embaixo. Janot ainda poderá continuar seu trabalho no Ministério Público, mesmo fora do cargo de Procurador-Geral. Mas com Janot ou sem ele, a tarefa é nossa.

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