Darcy Ribeiro – Compreendendo o Brasil – Gestação Étnica

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Velho uso indígena, o Cunhadismo foi preponderante na formação do povo brasileiro. Ao dar uma moça indígena como esposa ao colonizador se estabelecia o “temericó” que consiste na incorporação de estranhos na sua comunidade. Assim que ele assumisse, estabelecia,automaticamente, laços que o aparentavam com todos membros da tribo.
Vários europeus tinham mais de oito“temericós”. Esse artifício da cultura indígena possibilitou ao colonizador o recrutamento de mão de obra para seu trabalho e serviu como gênese da mestiçagem, originando o brasileiro em sua primeira versão, conhecido como mameluco, que tem sua origem etimológica na linguagem árabe que significa “propriedade”, “escravo”, “pajem”, “criado”. No Brasil, ficou conhecido como o mestiço com ascendência da mistura de brancos e indígenas, que é a base da nossa formação.
A explosão mameluca fez com que a Coroa Portuguesa, ameaçada em seus interesses, impusesse a Donataria – que era um ato do rei de Portugal, para doar extensos lotes de terras aos seus conterrâneos portugueses da mais alta confiança para administrá-los e assim recebiam a posse perpétua de tais terras, além do título de capitão e governador. – Este ato ficou conhecido, no Brasil, como Capitanias Hereditárias.
Em processo pleno de prosperidade econômica, múltiplas dificuldades surgiam com a rebeldia indígena em não se escravizar.
A dupla rejeição sofrida – pelos pais portugueses, que os viam como impuros filhos da terra e, portanto mão de obra servil, e pela mulher índia que era apenas considerada um depósito de sementes, – o gênero humano aqui edificado pautava-se em ser moldável a qualquer circunstância, com o adestramento ideológico, cedendo e dobrando-se ao mundo rude.
As tensões jesuítas com os colonizadores também radiavam conflitos, e muitos foram solucionados por meio de massacres e derramamento de sangue.
Dentre nossa gestação étnica, a matriz africana se introduziu à passagem brasileira, com sua múltipla cultura em uma situação já pré-estabelecida de escravos, com o engenhoso sistema colonial de desafricanizá-los.
A diversidade étnica contribuiu para sua domesticação, assim como o engenhoso processo de brutalidade de apartar suas descendências espalhadas, propositalmente, pelo vasto território brasileiro, e quebrar qualquer lastro de unidade.
Surge então, desta mestiçagem de africanos e europeus, o mulato, que tem sua etimologia originária da palavra “mula”, em espanhol, que designa o cruzamento de cavalo com jumenta ou jumento com égua.
Já na miscigenação entre índios e negros africanos temos a origem do cafuzo, que são os caracterizadospela pigmentação da pele escura, quase negra, os lábios grossos e carnudos e os cabelos lisos.
Ressalta-se, até hoje, que os negros conscritos nos guetos da escravidão, assim como os índios, trazem suas marcas indeléveis das tortura imprensas no corpo e na alma, prontas a explodir na brutalidade racista e classista que forjaram nossa gestação étnica.
O preceito do autoritarismo impingido em nossa “civilização” é incandescente ainda hoje, uma vez que a preponderância de nossa classe dominante está sempre predisposta a torturar, massacrar e machucar os “escravos e rebeldes”.
O assombroso processo desculturativo os preservaram humanos, proeza essa devido ao um esforço inaudito de auto-reconstrução de desfazimento.
Porém, nota-se que os colonizadores não conseguiram também preservar sua gênese europeia e foram transfigurados do mesmo modo, devido ao longo processode dominação de uma nova espécie.
Este caldeirão inflamado produziu uma nova espécie do gênero humano edificados na desindianização, desafricanização e deseuropeização.

Henrique Matthiesen
Bacharel em Direito
Jornalista

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