Sexta-feira termina a missão espacial não tripulada mais bem sucedida da história

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Livio Oricchio, de Nice, França

A missão não tripulada enviada ao espaço mais bem sucedida de todos os tempos terá o seu Grand Finale sexta-feira, dia 15. Estou falando da Missão Cassini, que de quando entrou em órbita no fascinante sistema de Saturno, com seus anéis e luas, em 2004, depois de ter sido lançada em 1997, revolucionou nosso conhecimento não apenas dos objetos estudados, mas de nossa compreensão do sistema solar.

Sem falar na contribuição sem igual na busca por formas de vida fora da Terra. Cassini descobriu que duas luas de Saturno, Encélado e Titã, podem abrigar vida. Falaremos mais disso.

Nesse momento a sonda Cassini está em órbita de Saturno, a uma distância aproximada de 1 bilhão e 250 milhões de quilômetros de nós aqui na Terra. É tão loge que as fotos enviadas para o centro de controle da missão, no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa (JPL), em Pasadena, Califórnia, levam 1 hora e 20 minutos para serem recebidas. E viajam a velocidade de luz, 300 mil quilômetros por segundo.
Você pode acompanhar, ao vivo, o andamento da Cassini através deste link:
https://saturn.jpl.nasa.gov/mission/saturn-tour/where-is-cassini-now/

Repare que em relação a Terra a Cassini se desloca a impressionantes 84 mil quilômetros por hora. A nave se aproxima velozmente das nuvens mais altas de Saturno, onde sexta-feira penetrará para ser destruída. Isso mesmo, o atrito com as camadas de hidrogênio e hélio, os gases mais presentes no planeta dos anéis, fará com que a sonda seja pulverizada. Dentro de um mês, apenas, a Cassini completaria 20 anos de vida no espaço e alguns de seus sistemas já não funcionam como no início da missão.

Os vários recursos da Cassini, como instrumentos capazes de mensurar com precisão a magnetosfera de Saturno, a composição atmosférica, registrar imagens na luz visível, infravermelho e ultravioleta, dentre outros, são alimentados com eletricidade produzida por três geradores termoelétricos que usam plutônio como combustível. Seus sistemas já dão sinais de desgaste, daí a decisão da Nasa de enviar comando para a sonda entrar na atmosfera do planeta, algo inédito em relação a Saturno, e enviar mais dados e fotos para análise, até o calor a “derreter”.

A missão representa uma das maiores conquistas do intelecto humano. Foi lançada no dia 15 de outubro de 1997, de Cabo Canaveral, na Flórida, e entrou em órbita de Saturno a 1º de julho de 2004. Passamos a saber com maior precisão do que é feito Saturno, uma bola gigante de gás com 120 mil quilômetros de diâmetro, dez vezes maior que o da Terra. Muitos dos mistérios dos seus anéis foram desvendados, como sua composição, dimensão e origem. Precisaríamos ilimitadas linhas para descrever o que Cassini nos revelou do complexo sistema de Saturno e suas luas.

Duas áreas em particular merecem maior destaque. O primeiro diz respeito a uma sonda que a sonda Cassini liberou. Foi no dia 14 de janeiro de 2005. A sonda Huygens, projetada para uma proeza sem precedentes, pousou na segunda maior lua do sistema solar, Titã, sexta de Saturno, em órbita do planeta a 1,2 milhão de quilômetros. Para se ter uma ideia da sua dimensão, o diâmetro equatorial de Titã mede 5.151 quilômetros, enquanto a nossa lua, uma das maiores também, 3.474.

Os cientistas ficaram entusiasmados quando viram as imagens da sonda Huygens entrando na densa atmosfera de Titã, única, e pousando na sua superfície. Descobriram que há lagos, estuários, e mares de metano. Faz tanto frio em Titã, média de 150 graus negativo, que os gases metano e etano presentes se apresentam em estado líquido. E chove em Titã, mas não água, senão metano. As condições dessa lua se assemelham a da Terra primitiva.

Outra descoberta impressionante da Cassini aconteceu quando a sonda sobrevoou a baixa altitude (o chamado flyby) outra lua, Encélado, pequena, somente 500 quilômetros de diâmetro. Descobriu que há sob a camada de gelo de água, no polo sul, água em estado líquido. Cassini detectou gêiseres de mais de 100 quilômetros de altura lançados no espaço pela força dos vapores formados nesse oceano de água de Encélado. E junto dele havia partículas de cloreto de sódio, ou seja, sal. Há, com certeza, uma fonte de calor debaixo da camada de gelo, para justificar a água salgada em estado líquido, exatamente como na Terra e onde a vida floresce.

Não é por outra razão que a Nasa e a Agência Espacial Europeia (ESA) estudam enviar para Encelado e a uma lua de Júpiter, Europa, de características semelhantes, uma missão na busca de formas de vida extraterrestre. Estima-se que sua existência, sob a camada de gelo, seja uma realidade, tomando-se por base o que acontece na Terra.

O nome Cassini é uma homenagem ao astrônomo e matemático italiano Giovanni Cassini, que entre 1650 e 1700 exerceu suas atividades científicas mais na França, na Academia de Ciências de Paris, do que próximo a Gênova, onde nasceu. E a sonda Huygens é uma reverência ao astrônomo, físico, matemático e horologista holandês Christian Huygens, cientista que avançou bastante no estudo dos anéis de Saturno e descobriu Titã, a imensa lua explorada pela sonda que leva seu nome.

O Grand Finale da Missão Cassini será transmitida ao vivo pelo site da Nasa (www.nasagov) e do JPL. Convém confirmar o horário, pois sempre pode haver algum imprevisto. A sonda vai deixar a órbita atual para começar a entrar na atmosfera do planeta dos anéis oferecendo nova gama de dados preciosos.

Antes de encerrar, alguns números para expor melhor a dimensão da Missão Cassini. Os homens do comando enviaram, nos 20 anos de sua duração, desde o lançamento, nada menos de 2,5 milhões de comandos, via rádio. A sonda fez 162 sobrevoos (flybys) das luas de Saturno e descobriu seis novas (no total são 62). Cassini completou 294 órbitas ao redor desse gigante gasoso e registrou 443.048 fotos até agora. Na entrada da atmosfera enviará outro lote precioso, pelo ineditismo, como mencionado.

O custo total da missão é de US$ 3,9 bilhões (R$ 14 bilhões), da concepção ao Grand Finale. Em troca, a humanidade ganhou, até o momento, 635 GB de dados científicos de inestimável valor. Nada menos de 27 nações participaram da Missão Cassini. Por conta do seu sucesso, outras estão em curso de produção.

liviooricchio@gmail.com

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