Darcy Ribeiro Compreendendo o Brasil O enfrentamento dos mundos

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As matrizes que compõem a formação do Brasil têm naturezas distintas, e consequentemente provocaram os mais variáveis conflitos, em função das visões e culturas profundamente indissolúveis das suas crenças, e de seus respectivos modos de vida. Neste contexto, surge a luta de sobrepujar um ao outro.
Evidentemente que a matriz portuguesa, com seu tirocínio de ser um povo ciente de seus objetivos “civilizatórios”, imbuídos da sagrada sina de salvaguardares da Cristandade, nos tempos das Cruzadas, e com a corte sedenta de acúmulo econômico, enxergaram na matriz indígena e nas novas terras, a mais oportunachance de se enriquecer nesse ninho de, segundo eles, hereges.
O desmoronamento da fé em Maíra, seu Deus sol, levou os índios às ruínas das bases de sua vida social e de seus valores mais profundos; e a catequização missionária dos jesuítas caiu como um flagelo sobre os índios. Afinal, por suas iniquidades de seus pecados, que o bom deus do céu incidira sobre eles como um galgo selvagem ameaçando lançá-los ao inferno.
O bem e o mal, a virtude e o pecado, o valor e a covardia, tudo se embaraçavae se conflitava.
O choque civilizatório foi fatal para a matriz indígena, pois na contextualização de sua desindiginização, saíram do paraíso tropical para lógica perversa da escravatura e da catequese. O veneno irresistível do novo, como as ferramentas dos adornos e as aventuras os faziam presas fáceis frente às faces colonizadoras.
Após o primeiro impacto, o enfrentamento dos índios foi inevitável e eles resistiram até o limite possível, porém o conceito de tribo da qual eles viviam – desajustada -, em uma ação coesa, encontrou um inimigo tecnologicamente mais avançado, bem armado e organizado.
Tragicamente os mares carregaram com os portugueses, os mais eficientes agentes exterminadores da matriz indígena. Junto com eles chegaram ao novo mundo doenças letais como a varíola, a caxumba, dentre outras; até mesmo uma simples gripe foram fatais para os índios.
Desprovidos de qualquer caráter humanitário, o propósito da colonização jesuíta enfrentou a selvajariados colonizadores leigos que utilizavam as mais perversas formas de escravizar os índios, sendo que este confrontoteve consequências diretas na Igreja Romana e na Coroa portuguesa.
Discrepantes em si, a colisão de mundos tão diferentes levou o olhar português à afirmação conceitual de serem eles próprios os “novos Cruzados”, chegando a conjecturar se a indianada fazia parte do gênero humano e, se teria salvação.
O banho de lixívia em suas almas era inevitável. Afinal, a antropofagia em rituais selvagens, a ociosidade, os costumes pagãos, eram intoleráveis nas crenças europeias da época.
Imbuída de protagonistas da revolução tecnológica mercantil, a matriz portuguesa tinha em seu cerne os traços sociais de uma formação sociocultural imperial, mercantil e salvacionista.
Ideologicamente desenvolveu um catolicismo messiânico com o desígnio irrenunciável de erradicação dos dissidentes mundanos, associado à aspiração de riquezas e de hegemonização.
A constituição conflituosa na formação do Brasil começou sob o signo da imposição cultural da matriz portuguesa que vencera sua primeira grande batalha no mundo novocom a desindinização, porém começaram eles também a se deseuroperizar.
Um novo gênero humanogerminava.

Henrique Matthiesen
Bacharel em Direito
Jornalista

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