ARQUIVO HISTÓRICO DA FAMÍLIA RIOCLARENSE

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Rio Claro e sua gente

Álvaro Sebastião Pinto Lopes (in memorian)

O Jornalista José David Teixeira

Invariavelmente trajando terno cinza, chapéu da mesma cor, relógio com corrente sobre o colete, o indefectível guarda-chuva pendente do braço, o andar pesado e lento, as costas arqueadas pelos anos, assim eu o via diariamente subindo a avenida Um em demanda da estadão da Paulista, para esperar a chegada do trem das 11 que vinha da Capital.
Esperar o trem das 11 era para os rio-clarenses daquela época, um dever imperioso e gostosamente cumprido.
A estação se enchia de gente curiosa que ia ver quem chegava e quem partia. Lá estava no meio do povo, o Major David, com olhos de lince, vasculhando a vasta plataforma e anotando em pequeno caderno o nome de pessoas gradas que iriam no dia seguinte figurar nas suas sociais.
Quando, por qualquer circunstância se esquecia de levar o pequeno bloco, fazia as anotações no próprio punho da camisa, dando depois imenso trabalho à pequena Cecy para limpá-lo.
Todos na cidade conheciam o Major como Zé David. Ele mantinha seu Diário do Rio Claro às duras penas, numa difícil época em que na cidade, pequena e pacata, nada acontecia. Nos idos de 1920, Rio Claro não tinha mais que 20 mil habitantes.
O Major também lutava e se aborrecia com o número não pequeno de leitores relapsos, que, lendo habitualmente o jornal, relutavam em pagar a assinatura não obstante o preço irrisório de 20 mil réis por ano. Zé David não podia por isso ter muitos auxiliares. Contava somente com o paginador, o tipógrafo, o homem que comandava a velha impressora Marinoni e alguns entregadores domiciliares. Mesmo assim, quando um deles faltava, sua filha, a esperta Cecy, saia sobraçando dezenas de exemplares para que não faltasse a entrega matinal de porta em porta. Duros tempos aqueles, em que os que trabalham no Diário de hoje, não sabem o que foi o Diário de ontem.
No jornal, o Zé David fazia de tudo. Redigia as notícias sociais, atendia pessoas, escrevia o artigo de fundo, revisava, saia à rua para as reportagens, realizava a cobrança das assinaturas e ainda velava pela parte comercial e contábil.
Religiosamente o Diário estampava na primeira página as muito esperadas e lidas Cabriolas. Nelas ele aproveitava para instilar nas entrelinhas o sutil veneno que fluia de sua pena irônica. Nas Cabriolas e no Ouvimos Dizer profligava a incapacidade, a desídia, a incúria, as omissões dos chefes políticos, dos prefeitos e dos detentores do poder municipal. Eram alfinetadas dadas com tato e pouco dolorosas, para evitar fáceis melindres.
O jornal saía diariamente menos quando faltava energia elétrica e quando a vetusta impressora Marioni se negava a trabalhar. Quem passasse altas horas da noite pela sede do jornal, ouvia, saindo do fundo da oficina, o ritmado blém-blém da velha e resfolegante máquina impressora clamando por substituição.
Zé David não gostava de se meter em política. Seu negócio era jornal. Se vez por outra deixou-se levar por ela, foi para atender injunções de amigos. Desejava ficar equidistante dos partidos, longe das tricas e futricas locais, que não raro tomavam virulento aspecto.
Equilibrar a receita com a despesa era o drama que se repetia todo fim de mês. A assinatura do jornal não dava para cobrir os gastos, que eram muitos. Não fossem os anunciantes e os contratos mantidos com a prefeitura, para a regular publicação das atas da Câmara, dos balancetes, dos alvarás e atos do prefeito, o jornal de há muito teria o destino inglório e efêmero de tantos congêneres do nosso Interior. Zé David era um homem normalmente sisudo. Seu rosto raramente se abria em largos sorrisos. Cumpria fielmente as obrigações sociais de repórter, comparecendo a elas mais por dever de ofício que por natural inclinação. Para noticiar uma festa de casamento tinha o Major uma frase chapa que servia para todas elas: a mesa dos simpáticos nubentes, ricamente ornamentada em forma de I, estava repleta de saborosas iguarias e regada de vinhos raros e finos…É que em todos os casamentos daquele tempo, a forma da mesa era sempre a mesma e os vinhos, embora fossem de São Roque eram para o Major, por motivos óbvios, raros e capitosos…Para o deputado Eloy Chaves, que constantemente vinha de trem para Rio Claro, tinha Zé David outra chapa estereotipada: está entre nós, vindo da Capital do Estado, o operoso deputado estadual Dr. Eloy de Miranda Chaves, o principal diretor da nossa Central Elétrica. Nunca chamava a avenida Um por esse nome, mas por Pimpona, nome frequentemente mencionado em suas crônicas.
Zé David, além de jornalista, manteve veleidades de romancista e poeta. Assim é que escreveu um romance de costumes denominado Xintan, que foi publicado sob a forma de folhetins.
Sempre contando com limitados recursos, o Major foi um esforçado e incansável batalhador que lutou denodadamente para manter rodando o seu velho jornal, quase centenário.
Ele faleceu no dia 17 de março de 1934. Na véspera de sua morte, por uma dessas macabras coincidências, ele escreveu em suas Cabriolas um comentário sobre a saída de um enterro que ia, com grande acompanhamento para o cemitério municipal…

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