A ODISSÉIA DE UM SONHADOR

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Vale repetir sempre uma história bonita!
O barbeiro David José não estava lá muito contente na sua Campinas e pesquisava por conta própria um novo rumo – um lugar em que o futuro lhe oferecesse melhores perspectivas de vida. Pelos viajantes que vinham do oeste ele tomava informações e ficou interessado numa tal de São João Batista do
Rio Claro, uma pequena e poeirenta localidade que estava se formando e já tinha até um belo cemitério, logo ali. Arrumou as tralhas e ei-lo aqui chegado para continuar na sua labuta. Pensava muito no filho de pouca idade que tinha o nome do pai invertido e, – que diabos! -lia demais e não queria trabalhar no seu ramo.
Mas, a família descendo na São João, se adaptou e logo entendeu o negócio de ruas retas com nomes que lhes eram dados livremente pelo povinho, conforme o seu jeitão ou lugar: era do Campó, do Meio, Direita, Formigas, da Matriz, da “Cadêa” e outras tais extravagantes. Não interessava; o que valia era montar o seu salão, ganhar o seu dinheirinho formando a freguesia e levando a vida…
De fato, o pequeno José David era bastante inteligente e vivia com livros e lápis na mão nas horas vagas, mas os dois – sonhava o velho – manejando tesouras e navalhas teriam o seu negócio de fazer inveja na vila nascente. E que ninguém duvidasse…
O futuro mostraria que o outro filho é que faria isso, pois Azael David Teixeira adotou o ramo do pai e montou mais tarde também a sua barbearia onde – coisa curiosa ! – criava sanguessugas hamburguesas que fornecia para as sangrias na Santa Casa ali na rua dois avenida três. Hoje, sanguessuga é sinônimo de … “ambulância” como vemos todo dia nos jornais, num quiproquó impressionante de deputados e senadores.
Conclui-se que o velho era um mau profeta e estava redondamente enganado porque o outro pirralho, de fato, só queria ler, ler, ler e escrever, escrever, escrever.
O rapaz levava os dias no seu novo “habitat” mas, contrariando o pai, largou as tesouras e foi se empregar nas oficinas dos jornais “O Tipógrafo” e “O Tempo” e ali a flor desabrochou, “com o sapo caindo na água…”
Nesse emprego conseguiu amealhar algum dinheiro e em março de 1.886, aos vinte e cinco anos – comprou do dono da tipografia o jornal semanal “O Tempo” que em lº de setembro começou a rodar já com o nome “profético” de… Diário do Rio Claro – hoje completando a bela efeméride de um século e vinte oito anos! E igualmente num novo século. Nele sua perspicácia introduziu colunas diferentes como “Troco Miúdo” e “Cabriolas”, além de notícias, reportagens ou escritos humorísticos e políticos que logo caíram na simpatia dos leitores.
Mas não foi este o primeiro jornal de Rio Claro. Existiram antes o “Echo do Povo”, o “Estrella D’Oeste” o hebdomadário “O Alpha”, já em 1901, dirigido por Eduardo Leite – e outros. Mais tarde, sempre o Diário enfrentando tormentas e nascimento de uma ou outra nova publicação – mas o Major David, impoluto na sua direção, realizou o sonho.
Aloysio Pereira contava que, no mesmo dia de seu falecimento, em 16 de março de 1.934, de um lado aparecia a notícia de sua morte e de outro era publicada ainda a coluna “Cabriolas”. Aloysio não era seu contemporâneo, pois quando ele nasceu o Major David já era quarentão !
Ele exercia um sacerdócio do mais autêntico jornalismo, indo buscar na fonte, a notícia. Sua pessoa era vista sempre na estação da Paulista à espera do próximo trem e então lá vinha a notinha…”chegou ontem de São Paulo, etc. etc.” bem diferente dos computadores de hoje, com seus disquetes que fazem tudo.
Gostando algo da política, em 1.892 ele foi eleito pelo Partido Republicano “Sallista” Vereador à nossa Câmara e não quis tomar posse, cedendo o lugar, justamente, ao Chefe do seu partido que era o Coronel Joaquim Augusto de Salles, – cujo nome foi dado ao Grupo Escolar da rua sete.
O seu “Diário” teve a glória de antecipar em 98 dias a Lei Áurea que Isabel, “A Redentora” promulgaria em 13 de maio de 1.888 com o fim da escravatura.
O objetivo de sua existência sempre se chamou “Diário do Rio Claro”, mordido que fora desde o início pela mosca do jornalismo – e foi seu redator por quarenta e oito anos !
No afã dos linotipos o Major David era insubstituível e todos os seus familiares de alguma maneira professaram idêntica fé. Assim, os filhos Dr. Atos, José David Júnior, Jodate, Zoraide, Cecy, Davina e outros e mais tarde também, os escendentes como a Mara, o Jodate, etc.
O mesmo Aloysio nos contava que, quando faltava um entregador, ele “investia” a pequena Cecy na função e lá saía a meninota a levar de porta em porta o “produto do dia” porque …”os leitores têm o direito sagrado de receber o jornal”.
E assim ele chegou até este início do século vinte e um da mais perfeita tecnologia- quando brilha no ar a estrela centenária – nas mãos do time de Geraldo Zanello que, sem nenhuma dúvida, orgulhosamente pode olhar para trás, dando o seu alô e respirando aliviado dizer: “Major, a tarefa continua sendo cumprida…”

Parabéns a todos !

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Midiel Christofoletti (in memorian)

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