Darcy Ribeiro – Compreendendo o Brasil – Matriz Afro

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“Sem esmagar a iniqüidade
Que tem na boca sempre a liberdade,
Nada no coração;
Que ri da dor cruel de mil escravos,
Hiena que do túmulo dos bravos,
Morde a reputação!”
Castro Alves
Considerado o berço da humanidade, estudos indicam que o gênero homo surgiu no continente africano há mais de dois milhões de anos.
Multicultural tem a África branca, ao norte onde predominam os povos caucasóides e semitas e na chamada África Negra, ao sul do deserto do Saara, encontram-se os povos pgmmeus, bosquianos, hotentotes, sudaneses e os bantos. Esta heterogeneidade se reflete nas mais de mil línguas diversas do continente, sem dimensionar os dialetos.
Dentre as matrizes que formam o povo brasileiro, temos a africana, cuja origem provêem majoritariamente de Moçambique, Angola, Congo e Nigéria. Vieram escravizados no designo de construir o Brasil, e gerar lucros para os “donos” da empresa que era o novo mundo conjeturado pelos colonizadores.
A multiculturalidade desses povos foi fator primordial para a sua dominação, a falta de unidade lingüística, religiosa e de costumes contribuiu para “passividade” do domínio, agrega-se a estratégia colonizadora de dividir as famílias para regiões longínquas (pai no sul, mãe no nordeste, filho no Norte) numa evidente desafricanização dos negros.
Em terras hostis o Negro era submetido a um intenso processo de desculturação, forçado a abandonar completamente sua herança cultural, coagido a se adaptar as condições do Senhor “seu dono” que também sofria da deseuropização.
Conscritos nas senzalas da escravidão os negros desafricanizados, foram participes da construção do Brasil, e de uma nova civilização de seu tempo. Não nos moldes idealizados pela cora portuguesa ou a Santa fé Romana.
Mas com as deformidades de uma cultura espúria que servia a uma sociedade subalterna ao jugo dos Senhores, que através da bestialidade humana mais atroz, porem eficiente domesticou os sobreviventes do massacre que foi nossa colonização.
Milagrosamente que tanto os índios como os negros, submetidos na engenhosa metodologia de desculturalização por meio brutal conseguiram conservar a humanidade, e traços culturais de sua gêneses étnica.
A multiface étnica de nossa morenidade é um dos grandes legados que temos em nossa sociedade, na musica os negros edificaram o batuque, o gingado, o maracatu, na própria língua a riqueza dos dialetos aportuguesados nos trouxeram expressões como, acarajé, cafuné, dengoso, dentre mais de 360 vernáculos que estudiosos catalogaram. Na culinária incontáveis heranças de nossa matriz africana encontramos, assim como na literatura , nas artes, na ciência e na religiosidade plural que coexiste no Brasil.
Mas, carregamos as mais densas cicatrizes do torturador imprensa na alma que esta sempre pronta a estourar na brutalidade racista e classista.
Incandescente na contemporaneidade, em tantas autoridades, sempre predispostas a porretear os oprimidos simplesmente para machucar e para atestar sua situação de superioridade social ou política.

Henrique Matthiesen
Bacharel em direito
Jornalista

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