ASSUNÇÃO (2)

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Ana Lucia Missaglia Guarnieri
“Escritores do século X tinham em vista provas históricas e não razões teológicas sobre a Assunção corporal de Maria ao céu. (…) hoje o universo canta, jubiloso e convicto: Maria foi levada ao céu, rejubila-se o exército dos Anjos. No Ano Santo de 1950, veio a definição desta verdade como fé”. (Pe. Geraldo Pires de Souza, 1989, em comemoração das leituras do Evangelho de Domingo,20/8/2017).
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Leonardo Boff, responsável pela Teoria da Libertação, é que melhor resume os estudos sobre a psique humana, quando escreve: “O homem-psique é um universo constituído de pulsões, emoções, sentimentos, paixões, arquétipos ancestrais, imagens carregadas de significado, símbolos poderosos e energias fortes de vida e de morte, como o poder, a sexualidade, o amor, a indiferença e o ódio.Todas estas realidades psíquicas podem elevar o ser humano até os píncaros da contemplação e de fusão com a divindade, como podem afundá-lo até o abismo profundo da barbárie e da violência”.
Sobre o corpo humano, o grande teólogo (mais de 80 livros publicados) afirma que a propaganda midiática explora o corpo dividido: ou desvinculado do espírito, ou o espírito desmaterializado do corpo. E nessa falta da totalidade do corpo (-tipo “cachorro sem dono”?) a mulher leva a pior, pois a visão machista, usando partes femininas, fazem dela um objeto de consumo.
Finalmente, Leonardo Boff trata do espírito e cita Santo Agostinho: “Meu coração inquieto não descansa enquanto não repousa em Ti” (Livro X, 27).
Segundo o estudioso, todos os seres são portadores de informações, inscritas em seu código genético. Essas vão estocando-se e organizando-se, mais e mais, na medida em que o universo avança e ganha maior complexidade. No nível humano se alcança um patamar elevadíssimo de complexidade, aparecendo sob a forma de consciência.(…) A diferença entre o espírito de uma floresta e o do ser humano não é de PRINCÍPIO, mas de GRAU.O mesmo princípio funciona em ambos, criando, em nós, subjetividade e alta capacidade de relação. Na floresta, com uma expressão própria, também gestando unidade e dinamismo, entrelaçando relações, a floresta aparece como floresta, também conectada com todo universo, com suas energias e forças, diretivas e da Terra.(Aqui nos lembra a cura do cego pelo Senhor Jesus ao abrir-lhe a visão, quando começou a ver uma árvore, sinal da sua religação com Deus e conexão com a vida, onde tudo que existe é habitado por espíritos. Ou como escreveu Machado de Assis:”HUMANITAS é o princípio. Há nas cousas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível, – ou para a linguagem do grande Camões: Uma verdade que nas cousas anda/ Que mora no visível e no invisível).
E aí Leonardo Boff recorre a Maria, na sua Missão e Assunção: “O extraordinário do homem-espírito é poder entrar em comunhão com Deus. (…) Louvá-lo por sua grandeza e amor, por ter criado todas as coisas e continuar dizendo(!) com Maria: Faça-se em mim, segundo a Vossa Palavra, FIAT, faça-se, renove-se e exista”.
Como educador, ele nos cita Paulo Freire, para quem “ninguém liberta ninguém; nos libertamos somente em Deus”. E Deus é Amor (I Jo, 1-10). Através da História é que se conhece a liberdade, feita do rompimento das amarras, pois o Reino de Deus, como disse o próprio Senhor, vindo do Alto, não é desse mundo. Basta ver, por exemplo, que 3 dias antes de se suicidar (27 de Abril de 1945) Hitler escreveu: “No fim de tudo vem-me o arrependimento de ter sido tão generoso”, ou seja, por não ter podido mandar exterminar trinta milhões de eslavos, pois os seis milhões de judeus que mandou às câmaras de extermínio não foram suficientes ao que havia determinado.
Em 1965, Manuel Bandeira escrevia: “Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos.(…) O bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato./O bicho, meu Deus, era um homem”. Hoje, o Governo não se importa que 60.000 Brasileiros sejam assassinados, por ano( 5000 por mês) nem que a taxa do desemprego tenha subido de 14 para 26 milhões de desempregados. Muito menos ainda com a má distribuição de renda e com a inversão de valores que vão fazendo a última Guerra aos pedaços (Papa Francisco).
Na mensagem conclusiva, Boff escreve: “ o novo mundo ou será mais espiritual ou não será”e cita o antropólogo Darci Ribeiro:”há a humanidade-corpo faminta (…) humilhada por ser tratada como carvão a ser consumido no processo produtivo”, necessitando de comer dignamente todos os dias.
E foi no Evangelho de Domingo (20/08/2017) que a Assunção de Maria- assunta na sua totalidade de corpo e de alma ao céu – foi lembrada com a visita que Ela fez à prima, Santa Isabel. E na beleza desse encontro de solidariedade, a Ascensão do Novo Mundo felizmente se desenhou no tempo e no espaço, sem limites, abertos por seu divino Filho:”PASSARÁ O CÉU E A TERRA, MAS AS MINHAS PALAVRAS NÃO PASSARÃO”.(Mateus, 24, 35).(E na História é assim: aos que se arriscaram pela própria liberdade e para os outros se escrevem poemas e se erguem monumentos, não para seus algozes, os que entram na contramão da Vida).

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