Ascensão e queda do Muro de Berlim. Há 56 anos começou a ser construído.

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Livio Oricchio

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Hoje o mundo lembra, com tristeza, dos 56 anos do início da construção do Muro de Berlim. Mas também celebra, com alegria, o fato de no dia 9 novembro de 1989, ou 28 anos depois de sua edificação, a população dos dois lados da capital alemã começar a destruí-lo, como resultado do fim do comunismo. Vale a pena revermos um pouco dessa história que custou muitas vidas e é rica de simbolismos.

No dia 7 de maio de 1945 a II Guerra Mundial acabou na Europa. Os nazistas se renderam aos aliados. A Alemanha estava arrasada. Estados Unidos, Rússia, França e Inglaterra dividiram o país em quatro partes na famosa Conferência de Potsdam. Cada um administrava a sua. Berlim ficava dentro da área controlada pelos russos. Assim, a cidade era dividida em duas, a parte oeste, dos capitalistas, e a leste, dos comunistas.

A relação entre Estados Unidos e os russos que era de aliança, pois tinham um inimigo comum, os nazistas, se deteriorou rapidamente. Era o início da Guerra Fria. Joseph Stalin, o líder russo, criou a Cortina de Ferro, formada pelas nações que a Rússia invadiu no fim da II Guerra e impôs sua dominação, como Polônia, Tchecoslováquia, Hungria. Essa união gerou, em 1955, o Pacto de Varsóvia. Elas formavam a União Soviética.

O mundo foi dividido entre capitalista, dos aliados dos Estados Unidos, e comunistas, da União Soviética. Essa divisão se estendeu para dentro da capital alemã. Até então, os residentes do lado oriental, no leste de Berlim, a área ocupada pelos soviéticos, podiam solicitar um visto e visitar o lado ocidental, dos aliados, apesar das restrições crescentes e a elevação da animosidade entre as duas correntes filosóficas e econômicas mundiais. Com um agravante: os dois lados dispunham de vasto arsenal atômico.

Como a República Federal da Alemanha, a do oeste, a capitalista, experimentava grande crescimento, a República Democrática Alemã (RDA), do leste, era a própria imagem de um país fantoche dos soviéticos. Sua industria estava sucateada, não havia economia de mercado e a qualidade de vida era baixa, com carências de toda natureza, para não mencionarmos a total falta de liberdade de expressão.

Assim, entre 1945 e 1961 nada menos de impressionantes 3,5 milhões de alemães orientais fugiram para a Alemanha Ocidental, dos capitalistas, em busca de oportunidade de trabalho, melhores condições para viver. O líder da RDA, Walter Ulbricht, levou a ideia de construir o Muro de Berlim ao líder soviético, Nikita Khrushchov.

No dia 13 de agosto de 1961, o dia amanheceu em Berlim com os militares ocupando a linha de fronteira entre os lados oeste da cidade, da Alemanha Federal, e do leste, da RDA. O prefeito da capital, Willy Brandt, e o chanceler alemão ocidental, Konrad Adenauer, protestaram com energia. Várias manifestações do lado ocidental aconteceram nos dias seguintes. A criação do muro separou famílias também. Algumas permaneceriam 28 anos sem se ver.

A histórica ordem 101 assinada por Ulbricht causou revolta e, claro, medo: a ordem autorizava atirar em quem tentasse passar do lado oriental para o ocidental. O muro atingiu 66,5 quilômetros de extensão, tinha 302 torres de observação e redes metálicas eletrificadas.

Havia um ponto onde os dois lados se comunicavam, sob rigorosa administração dos militares, o conhecido até hoje Check Point Charlie. Era nesse ponto que os dois lados trocavam espiões, por exemplo.

Hoje, próximo do Check Point Charlie há o Museu da Fuga. O acervo mostra a engenhosidade dos alemães em escapar da RDA para viver num mundo muito mais avançado, o da Alemanha Ocidental. E algo como 5 mil cidadãos conseguiram enganar o severo controle dos alemães orientais, ao mesmo tempo em que centenas morreram.

No fim dos anos 80, o líder soviético, Mikhail Gorbachev, entendeu que o comunismo, como defendido por seu país, havia fracassado. Aquele modelo de sociedade, de economia, não funcionava. E deu início a Perestroika, uma inesperada abertura da União Soviética, política e econômica.

A relação com os Estados Unidos, com o mundo capitalista, mudou de novo. As acusações recíprocas cederam espaço ao diálogo. A Rússia precisava de investimentos externos, atrair o capital, criar oportunidade de trabalho, modernizar-se, a globalização era uma realidade.

O presidente dos Estados Unidos, Ronald Regan, e Gorbachev, começaram a negociar o fim do Muro de Berlim. As nações da Cortina de Ferro estavam em ebulição, ávidas para acabar com a dominação soviética. Uma reação em cadeia havia sido detonada.

Em 1987, Gorbachev ouviu seu amigo, Regan, lhe pedir, em Berlim: “Tear down this wall” ou “Destrua esse muro”. Mas foi só no dia 9 de novembro de 1989 que os alemães ocidentais, já de noite, começaram a receber os seus irmãos do leste, com uma grande festa.

O mundo havia mudado, radicalmente. E a queda do Muro de Berlim representou um marco dessa transformação que, segundo historiadores, institucionaliza também o fim da Guerra Fria.

liviooricchio@gmail.com

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