O OVO DE COLOMBO

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Alexandre Garcia

Políticos, para terem sucesso, também precisam da ajuda da sorte. Esta semana, em Salvador, o prefeito de São Paulo, João Dória, foi bafejado pela sorte. Um ovo foi arremessado contra ele e acertou sua cabeça. Foi como se fosse um ovo caído do céu. Na manhã daquele dia, em São Paulo, Dória havia recebido a visita – e elogios – do Presidente da República. Temer afirmou que Dória “tem uma visão nacional”. Lançou o prefeito de São Paulo para além do município e do estado. Horas depois, o ovo de Salvador certificou isso. O grupo de onde partiram ovos passou atestado de importância nacional a Dória, além de confessar temor a ele.

Dória, novo na política mas já importantíssimo no PSDB, recebeu elogios do Presidente de Honra do PMDB. Temer o chamou de “parceiro e companheiro” em São Paulo. E em Salvador, no mesmo dia, era aplaudido pelo prefeito da capital da Bahia, o jovem ACM Neto, liderança importantíssima do DEM. Aplausos com atestado de poder demonstrado pelo medo dos arremessadores de ovos. No dia seguinte, o Governador tucano Geraldo Alkmin, que não estava presente na troca de afagos entre Temer e Dória, prometeu numa solenidade a que estavam presentes Temer e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM: “quero dizer a Temer e Maia e contem conosco” para passarem as reformas.

Os elogios de Temer a Dória ficaram parecendo um lançamento de candidatura nacional. No mesmo dia, perguntaram a Alkmin o que achava e ele respondeu que o PSDB é quem decide. Para não parecer uma crítica aos elogios, no dia seguinte o governador se solidarizava com Temer nas reformas. Temer, sem popularidade, não tem condições de bancar um candidato, como fez Lula com Dilma e com Hadad. Teria ido acenar aos tucanos uma composição, com Dória para presidente? E Dória, na Bahia no mesmo dia, ao lado de ACM Neto, foi motivo para especulações de uma chapa Dória-ACM Neto, significando não apenas uma aliança PSDB-DEM com apoio do PMDB, mas também uma composição Sul-Nordeste.

Especulações, como se percebe. Mas já no ano de véspera das eleições gerais. Seria um Centrão bem significativo, pois ficaria no meio de dois extremos: numa ponta Bolsonaro, a prometer dureza contra bandidos e arruaceiros, e na outra Lula(se a Justiça deixar), do partido que está apoiando a ditadura de Maduro e prega uma Constituinte como a do venezuelano. Dória deve estar agradecendo o bendito ovo, também cheio de significados, com o qual pode fazer uma gemada. E é simbólico: a locução latina ab ovo indica o começo; além disso, o ovo é o alimento mais completo, depois do leite materno. E foi um ovo quebrado que abriu a jornada de Colombo para descobrir a América.

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