Darcy Ribeiro Compreendendo o Brasil Matriz Tupi

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Um dos grandes enigmas dos historiadores e antropólogos brasileiros é decifrar a nossa formação, nossas mais profundas raízes. Em um ato heróico, Darcy Ribeiro, dedicou anos de sua vida em pesquisas e análises para produzir sua obra prima “O povo brasileiro”, onde descortina nossas identidades e nossas origens.
De origem sincrética, de uma fusão desordenada de índios, portugueses e negros, nasce, na concepção antropológica de Darcy Ribeiro, um Novo Mundo, uma nação a ser construída, em um processo de mestiçagem jamais visto.
Cerca de 10 mil anos, oito milhões de índios habitavam as terras brasileiras em perfeita comunhão com a natureza. Não configurava apenas uma nação, mas várias nações em uma só. A trindade étnica edificada na formação do povo brasileiro encontra na matriz indígena sua primeira vertente; majoritariamente a ramificação Tupi, que a partir do noroeste da Amazônia, colonizou praticamente todo o Brasil, expulsando e escravizando os povos indígenas rivais.
Característica essencial para compreender o Brasil do século XV é verificar que, cada tribo, com seu modo de vida e crença, com seus costumes comuns e sua língua própria, eram rivais e lutavam entre si por conquistas territoriais.
Um perfil comum entre as tribos era que, estas já dominavam o território brasileiro antes da chegada dos portugueses; edificavam as malocas (casas) onde habitavam, em média, 600 índios cada. As mulheres cuidavam do plantio e do cultivo, enquanto os homens fabricavam arco e flecha utilizados na caça.
Exímios conhecedores da natureza sabiam para o quê servia cada planta, cada bicho, e desta forma, no alento de sua força e sabedoria, bastavam-se em auto-suficiência.
Acreditavam na vida pós-morte, esperançavam um paraíso, um jardim de sapucaias feito de cantos e danças. Sua realidade dos sonhos e a cordata se misturavam em suas crenças e modo de vida. A harmonia de cada evento e de cada ato tinha sua simbologia muitas das quais míticas.
Ilustres artesãos tinham no perfeccionismo uma ação constante na indivisível arte do trabalho.
Aqueles tidos como guerreiros, dentro da sua tribo, enxergavam nas batalhas uma função social na ocupação de espaço. Com um código de honra próprio, os índios tinham na guerra sua ação mais honrosa.
Se um inimigo caísse na tribo rival, aquele que o aprisionava batia em seu ombro e dizia: “Faço-o meu escravo.” Fugir jamais, pois o cativo tinha a ciência exata do que o esperava, e sabia que moralmente, seria respeitado em sua dignidade.
Antropofágicos, os atos sobrevinham por ensejos que ultrapassavam a função biológica do alimento. A ingestão da carne humana do cativo acontecia como uma decorrência de ações simbólicas desenvolvidas em condições de guerra entre diferentes povos. Tal ato era efetivado em uma circunstância festiva.
Após o aprisionamento do guerreiro inimigo, os tupinambás proporcionavam uma mulher para casar com o prisioneiro.
No dia do ritual antropofágico, uma grande festa era realizada para que a ingestão da carne humana ocorresse. A esperança dos participantes envolvia valores bastantes característicos. Em primeiro lugar, essa morte era avaliada positivamente pelo próprio guerreiro conquistado, pois o inevitável fim da vida seria consagrado pela experiência de conflito. Ao consumir a carne do guerreiro, os componentes da comunidade acreditavam vingar os seus ancestrais. Curiosamente, o responsável pela execução – não poderia consumir a carne – e, depois de eliminar o preso, ficava um período resguardado, e modificava o seu nome. As carnes mais duras eram secadas e comidas pelos homens e as partes mais moles eram cozidas e consumidas pelas mulheres e crianças da comunidade.
Socialmente tinham a dimensão que a terra não era propriedade pessoal de um líder ou de um cacique, mas um bem comum de sua comunidade, em uma edificação social planificada, e com uma clara divisão de tarefas.
Não havia apropriação de especialização, desconstituindo o poder que emana do saber não objetivando o mando. A tradição e a experiência elevam a liderança despossuída do patriarcalismo, mas na conciliação.
Era um verdadeiro Éden despossuído da verticalização social, da luta de classe, do egocentrismo, do irracional capitalismo, do acúmulo pelo acúmulo.
A matriz tupi integrada à natureza coexistia pacificamente com seu meio, com suas crenças, com seus rituais. Eram os verdadeiros donos do Brasil.

Henrique Matthiesen
Bacharel em Direito
Jornalista

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