O que levou os Estados Unidos ao uso da bomba atômica em Hiroshima, há exatos 72 anos

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Não há como não falarmos, hoje, do ocorrido há exatos 72 anos, a explosão da primeira bomba atômica numa guerra. A tragédia chocou a humanidade. Os norte-americanos escolheram como alvo Hiroshima, no Japão.

Mas o que fez o presidente norte-americano Harry Truman concordar com o uso da bomba e causar a morte de cerca de 120 mil pessoas, a maioria civis, no momento da explosão, e outras 80 mil na sequência, decorrente das queimaduras e contaminação radioativa?

De fora, uma decisão dessas equivale à aprovação de um genocídio. E como se não bastasse, três dias mais tarde Truman autorizou o emprego de uma segunda bomba atômica, sobre outra cidade do Japão, Nagasaki, com a morte de 60 a 80 mil cidadãos já no primeiro dia.

Não estamos aqui para defender um ato dessa natureza, mas é importante, também, entender o que fez o governo dos Estados Unidos arcar com o ônus eterno de recorrer a artefatos nucleares contra seus inimigos, cujas vítimas eram, na grande maioria, inocentes.

A II Guerra Mundial já havia acabado na Europa desde o dia 7 de maio daquele ano, 1945, com a assinatura da rendição incondicional dos alemães. Na Ásia, no entanto, os norte-americanos lutavam contra o Japão, que havia atacado Pearl Harbour, dia 7 de dezembro de 1941, e invadido a China, Coreia, Malásia, Birmânia e as Filipinas, dentre outras nações.

Agora os Estados Unidos empurravam os japoneses de volta ao seu território. Quatro meses antes do uso da primeira bomba atômica, os norte-americanos haviam invadido o arquipélago de Okinawa, no sul do Japão, a um custo alto de vidas humanas: 40 mil. A defesa foi tenaz porque os japoneses sabiam que os aviões decolando de Okinawa bombardeariam o país com frequência, como aconteceu.

O Estado Maior dos Estados Unidos informou Truman que a invasão da ilha de Kyushu, a primeira das principais ao sul, onde há a grande cidade de Fukuoka, e em seguida a penetração no coração do Japão, a ilha de Honshu, das cidades de Osaka, Kyoto e Tóquio, fariam as forças armadas norte-americanas perderem algo como 200 mil soldados, as operações de guerra seriam ferozes e longas.

Pouco antes do fim da guerra na Europa, no contra ataque alemão na Batalha das Ardenas, na Bélgica, em janeiro de 1945, as baixas no 3º Exército do poderoso comandante George Patton foram elevadas. No total, em apenas um mês de conflito, os Estados Unidos perderam quase 90 mil homens, contando todas as frentes no Velho Mundo.

E agora, seis meses mais tarde, a operação Downfall, a invasão terrestre de duas das principais ilhas do Japão, Kyushu e Honshu – as outras duas são Shikoku e Hokkaido – custaria outras 200 mil vidas, segundo o secretário de guerra, Henry Stimson. O Japão reuniu tudo o que ainda havia de recursos para se defender. A população civil, sofrendo já todo tipo de privacidade, mesmo de alimentos, também se mobilizou.

Esse era o problema que o governo do presidente Truman tinha de resolver, como se explicar à opinião púbica, como encarar a perda de tantos e tantos cidadãos do seu país? O número de mortes que eles causaram ao inimigo não entra na conta, lógico. A morte do adversário representa a própria salvação.

O bombardeio das cidades japonesas, apesar da devastação causada, como o realizado nos dias 9 e 10 de março, sobre Tóquio, não reduzia o ímpeto guerreiro samurai dos japoneses. Nada menos de 100 mil pessoas morreram nesses ataques, feitos com armas convencionais, muitas incendiárias.

Os Estados Unidos mantinham nessa época um programa de pesquisa nuclear para fins militares, o projeto Manhattan, pois sabiam que os alemães faziam o mesmo. Só que o projeto liderado pelo Major General Leslie Groves e o físico Robert Oppenheimer estava muito mais avançado.

Tanto que no dia 16 de julho daquele ano, 1945, realizou com sucesso o primeiro teste de uma bomba atômica da história, a Experiência Trinity, em Alamogordo, no Novo México, estado sede do Laboratório Nacional de Los Alamos, onde tudo foi desenvolvido.

O emprego dessa arma letal, uma vez obtida, era algo que o governo dos Estados Unidos passou a considerar. O 509º Grupo de Bombardeios, sob a liderança do coronel Paul Tibbets, estava já bem preparado para as missões de bombardear o Japão.

Truman e seu staff, composto não apenas de militares, estudaram o emprego da bomba atômica, recém aprovada nos testes. Ela diminuiria substancialmente o número de norte-americanos mortos. Os norte-americanos acreditavam que depois da primeira explosão, o imperador Hirohito e seu Estado Maior se renderiam. As 200 mil mortes previstas com a invasão de Kyushu e Honshu seriam evitadas a um custo impensável para o Japão, em todos os sentidos.

Assim, no dia 6 de agosto de 1945 o coronel Tibbets decolou da ilha de Tinian, nas Ilhas Marianas, no Pacífico, para um voo de seis horas. Quando chegou sobre Hiroshima, no sul da ilha de Honshu, a uma altitude de 9.500 metros, liberou a bomba atômica chamada Little Boy. Quando ela atingiu 500 metros acima do solo, explodiu. Era 8h15. Das edificações ao redor só restou parte do Museu do Comércio, mantido como ficou até hoje dentro da área do Museu da Paz, criado depois do evento, para que jamais a humanidade esqueça o que aconteceu.

Como o Japão não se rendeu, Truman autorizou o uso da segunda bomba atômica, sobre Nagasaki, a Fat Man. Os japoneses viram não ter o que fazer contra uma arma tão poderosa. No mesmo dia, para piorar muito a situação, a União Soviética declarou guerra contra o Japão. O país teria de lutar, agora, em duas frentes.

No dia 14 os Aliados concordaram com uma única condição imposta pelo Estado Maior japonês para se render: preservar a monarquia do imperador Hirohito. Assim, no dia seguinte Hirohito fez uma declaração à nação, pelo rádio, alegando que “diante da arma devastadora do inimigo prosseguir com a luta só causaria a perda de mais vidas inocentes e uma destruição incalculável”.

A II Guerra Mundial oficialmente estava encerrada. E o mundo mudado, com o advento do armamento nuclear.

liviooricchio@gmail.com

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