Há 87 anos o Uruguai vencia a primeira Copa do Mundo, competição rica de curiosidades.

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Exatamente às 15 horas e 45 minutos do dia 30 de julho de 1930, portanto há 87 anos, o juiz belga John Langenus apitou o fim do jogo, no estádio Centenário, em Montevidéu. Placar: Uruguai 4, Argentina 2. O mundo conheceu, oficialmente, o primeiro país campeão do mundo de futebol, o Uruguai, para delírio de 93 mil torcedores alucinados nas arquibancadas. As copas do mundo começavam sua história.

A primeira edição é riquíssima de curiosidades, um tanto naturais nos eventos pioneiros e numa época onde o profissionalismo dava os primeiros passos. Não havia padrões bem definidos além das dimensões da trave. Por exemplo: antes de a partida decisiva começar, houve um impasse entre as delegações dos dois finalistas. O tema é insólito: qual bola utilizar, a uruguaia ou a argentina.

A uruguaia era um pouco maior e mais pesada. Langenus, o juiz, tomou uma decisão que agradou os dois lados. O primeiro tempo seria disputado com a bola argentina e o segundo com a uruguaia. Pode não haver relação, claro, mas o fato é que o primeiro tempo virou 2 a 1 para o país da bola do jogo, a Argentina. Mas no fim do segundo tempo os uruguaios, com sua bola, viraram o placar: 4 a 2.

Até 1928, a competição internacional de futebol capaz de reunir nações de todos os continentes era a olimpíada. O Uruguai havia vencido as duas últimas edições dos jogos olímpicos. Foi ouro no futebol em 1928, em Amsterdã, e em 1924, Paris. Além disso, a nação celebrava em 1930 o centenário da sua independência da ocupação luso-brasileira.

O presidente da Fifa, o francês Jules Rimet, há tempo pensava em organizar um campeonato mundial independente da olimpíada. Como o Uruguai era o bicampeão olímpico e 1930 um ano importante da sua história, Rimet escolheu o Uruguai para a primeira Copa. Não houve eliminatórias. Até aí tudo bem, a definição foi criteriosa. O problema é que os europeus não se interessaram em atravessar o Atlântico para disputar a copa.

Rimet e o governo uruguaio interviram e enviaram carta aos filiados da Fifa para informar que as despesas de viagem seriam bancadas pela organização da copa. Da Europa para o Uruguai o deslocamento de navio demorava 15 dias. Quatro países aceitaram a proposta, Bélgica, França, Romênia e Iugoslávia.

Isso mesmo, os jogadores não poderiam permanecer duas semanas parados e entrar em campo quando chegassem. Assim, o deck dos navios foi usado como área de treinamento.

Outra curiosidade: o primeiro gol da história das copas foi marcado pelo pequeno e ágil jogador francês Lucien Laurent, no dia 13 de julho. Em Montevidéu, a França venceu o México por 4 a 1. E Laurent viveu bastante para testemunhar seu feito. Faleceu somente em 2005, perto de completar 98 anos de idade.

A participação brasileira foi bem ruim. A razão principal, a briga entre paulistas e cariocas, que fez com que apenas os jogadores que atuassem no Rio, com exceção de Areken Patuska, sem clube na época, representassem o país. O grande craque do futebol brasileiro, Arthur Friendenreich, de São Paulo, ficou de fora da seleção.

Cabeça de chave no Grupo 2, o Brasil perdeu na estreia para a Iugoslávia, 2 a 1, e goleou a Bolívia, 4 a 0, mesmo placar imposto pela Iugoslávia, daí o Brasil não passar à fase seguinte. O uniforme da seleção tinha calção azul e camisa branca.

Para terminar, mais uma do juiz belga. Ao ver os ânimos agitados entre uruguaios e argentinos dias antes da final, quase de guerra, clima que se estende até hoje, Langenus exigiu um seguro de vida e que um navio que regressaria a Europa naquele domingo tivesse sua saída atrasada para que, depois do fim da partida, escoltado por policiais, pudesse chegar no porto de Montevidéu a tempo de embarcar. Foi atendido.

liviooricchio@gmail.com

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