Brasil e Congo: semelhantes (e lamentáveis) violências!

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A República Democrática do Congo é considerada um dos países mais ricos do mundo em recursos naturais e apontado como o segundo mais bio-diversificado, atrás apenas do Brasil. Cobaldo (usado em baterias de celulares), diamante e ouro, entre outros, estão presentes em imensas jazidas, das quais apenas 10% são legalmente exploradas. O resto é contrabando. A ilegalidade no extrativismo mineral também se vê muito por aqui em terras brasileiras.
Congo e Brasil são países pobres, violadores de direitos humanos e liberdades públicas, com PIB e renda per capita ínfimas. Há mais para se comparar, pena que ainda sob o prisma negativo.
Embora a violência contra o ser humano envolva todas as classes sociais, países desenvolvidos ou não, em alguns lugares do planeta a opressão e desprezo pela mulher chamam mais a atenção. Nesse sentido, Congo e Brasil são muito próximos quando o tema é violência contra a mulher. O Brasil é o 5º no mundo, atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia, em homicídios com vítimas mulheres (em 2013 foram quase 5000). 527 mil sofrem violência sexual a cada ano; um estupro a cada 11 minutos e por aí vai, sendo que apenas 10% relatam os fatos às autoridades.
Aqui temos falta de confiança no poder público, vergonha, culpabilização da mulher, despreparo de agentes públicos, médicos sem capacitação específica para lidar com tudo isso, embora sensibilizados e prestativos, enfim, uma gama de aspectos que ceifa vidas, destrói a honra, detona princípios básicos de liberdade e dignidade da pessoa humana, desestrutura famílias e causa toda ordem de prejuízos à sociedade.
Algo positivo é que, aqui, temos a Lei Maria da Penha. Funciona? Mais ou menos! É boa na essência. Na prática, muito a avançar. País grande, grandes contrastes e “guerras” pontuais! Aqui, devemos louvar o trabalho e atuação do Navis-Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual e do Núcleo de Estudos e Ações em Direitos Humanos (Neadh), ambos da Faculdade de Medicina da USP.
Já no Congo, o estupro é considerado arma da guerra civil que já dura 15 anos. Estupros coletivos vitimizam mulheres de 5 a 80 anos. Ultimamente, bebês de 6 a 12 meses também têm sido alvo das atrocidades que lhes destrói o corpo e a alma. A brutalidade das ações nesse ambiente de guerra é caracterizada pelo uso de canos de armas de fogo, paus e ácidos!
Lá, o médico especialista Denis Mukwge (indicado ao Nobel da Paz em 2009 e chamado “O homem que conserta as mulheres”) criou técnica menos invasiva para tratar a fístula vaginal, rompimento entre a vagina e o ânus devido ao estupro violento, que causa grandes transtornos físicos e psíquicos. O médico é o maior expert do mundo nesse tratamento. Corre sério risco de vida (atua no hospital vigiado por 6 seguranças, só sai com colete e carro blindado da ONU), pois combate ostensivamente a violência às mulheres de seu país, aponta os motivos da guerra civil, alerta sobre a escravidão sexual e esterilização forçada, desnudando a miséria resultante de ditaduras e conflitos intermináveis decorrentes de uma riqueza mineral mal explorada, aliada ao total desrespeito aos princípios da dignidade do ser humano.
Aqui e lá; lá e cá, muito em comum as riquezas minerais coexistindo com a pobreza e a miséria; violência imensurável contra a mulher e conflitos peculiares, de um lado; heróis médicos e defensores dos direitos humanos, de outro.
William Nagib Filho – Advogado

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