A história de ponto e contraponto de um herói e traidor da França, o Marechal Pétain

380

Livio Oricchio

Há exatos 72 anos teve início, aqui na França, o julgamento de militar que fez a nação reverenciá-lo de todas as formas pela liderança, coragem, capacidade, carisma, devoção e amor à pátria na I Guerra Mundial, o Marechal da França, o Marechal Philippe Pétain, notadamente pelo comando na Batalha de Verdun, em 1916. Como assim, julgado se recebeu todas as honras possíveis, por ter sido fundamental na vitória contra a Alemanha?

Bem, falamos da I Guerra Mundial. Na II Guerra a história é oposta. Em 1940, já com 84 anos de idade, o Marechal Pétain fez algo que os franceses jamais pensaram ser possível: assinou um armistício com os nazistas. Ele tornou-se presidente da França Livre, a parte da nação que supostamente os alemães deixaram nas mãos dos franceses, com sede em Vichy, no centro do país.

Os nazistas não precisaram mais de um mês para derrotar a França na II Guerra Mundial, entre maio e junho de 1940, e desfilar com seus blindados na Avenida Champs Élysées, em Paris, para humilhação dos franceses.

O então presidente, Albert Lebrun nomeou Pétain para primeiro ministro com a demissão de Paul Reynaud. O Marechal assinou não apenas a rendição como um acordo com os alemães. Eles ficariam com o Norte da França e ele seria o presidente do sul, da França Livre, com plenos poderes, sem respeitar a constituição.

E acredite ou não a polícia de seu “país”, a Vichy Milice, combateria os guerrilheiros das Forças Livres Francesas, instaladas em Londres, comandadas pelo General Charles de Gaulle. Os franceses não acreditavam no aquele honrado e desprendido homem estava fazendo. Para o Marechal Pétain, como declarou tantas vezes, “foi uma forma de os franceses sofrerem menos com ocupação nazista”.

O fato é que o Marechal Pétain manteve-se à frente da França Livre, mas que na realidade era apenas um fantoche dos alemães, até o fim da ocupação nazista na França, em 1944.

Quando viu que a casa tinha caído, a liberação da França, o Marechal Pétain exilou-se na cidade alemã de Sigmaringen. A guerra prosseguia. A Alemanha tinha de prestar contas com os russos, chegando rápido em Berlim pelo Oeste, e os aliados entrando pelo Sul no seu território também.

Como era possível àquele ex-herói nacional ter voltado o fuzil contra seus conterrâneos? Em essência foi o que aconteceu ao não combater ele próprio o ataque alemão à resistência obstinada dos Maquis, por exemplo.

Acabada a II Guerra, era hora de o Marechal Pétain se ver diante do tribunal, aos 89 anos de idade. A acusação era a mais pesada possível: traição à pátria. Não importava sua condição, haveria de pagar pelo que fez. Na sua cabeça não passava de uma forma de preservar a nação que tanto amava. “Eu me sacrifiquei pela pátria”, afirmou.

O tribunal e milhões de franceses não viram da mesma forma: o Marechal Pétain foi condenou à morte por traição. O primeiro ministro do Governo Provisório Francês, ninguém menos de o General Charles de Gaulle, que conhecia muito bem Pétain por seu brilhantismo na I Guerra Mundial, transformou a pena de morte em prisão perpétua.

Assim, aquele que todo francês tinha orgulho de chamar de Marechal da França, Philippe Pétain, foi levado para a prisão no Fort de Pierre de Levée na ilha d’Yeu, no Atlântico, não muito distante do porto de La Rochelle. Viveu na prisão por mais cinco anos. No livro da sua retrospectiva histórica, o primeiro capítulo reúne feitos dignos só dos grandes homens. No segundo, algo que os franceses fazem força para esquecer.

O Marechal Pétin pediu que quando morresse suas cinzas fossem lançadas sobre Verdun, a cidade estratégica que defendeu com tanta valentia contra os alemães, em 1916, e cuja vitória se mostrou decisiva para a França não perder a guerra. Os franceses negaram. Foi enterrado em um cemitério ao lado da prisão.

COMPARTILHAR

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA