O SEMEADOR

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Ana Lucia Missaglia Guarnieri
“Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração. (…)A semente que caiu em terreno pedregoso é o que ouve a palavra (…) mas não tem raiz em si mesmo: chega o sofrimento ou a perseguição por causa da palavra, ele desiste logo. A semente que caiu no meio dos espinhos é quem ouve a palavra, mas a preocupação do mundo e a ilusão da riqueza sufocam-na e ele não dá fruto. A semente que caiu em terra boa é quem ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta” Mt. 13, 1-23. (Leitura do Evangelho de Domingo, 16/07/2017).


Eis que saiu para semear O SEMEADOR, O QUE SEMEIA. (Mc 4, 3).
Em Hebraico, o que semeia – dado essencial para conhecer a Cristo, tal como se apresenta – é semear filhos espirituais, cujos frutos, produzidos em terra boa, são calculados em 100, 60, 30.
Relendo Capitu e repensando sobre o semblante carrancudo de Dom Casmurro, após o desenlace familiar, a experiência da vocação, que é um chamado e não uma obrigação, nos é eterna, através da literatura de Machado de Assis, que, exemplarmente, responde “com 100” ao Semeador.
Escreve-nos ele que Dona Glória, mãe de Bentinho (futuro Dom Casmurro) viu cumprida sua promessa de ver o filho no Seminário que logo sai para casar-se com Capitu, “irmã-namorada” dele com quem se torna pai de Ezequiel, enquanto seu colega, Escobar, também se casa com Sancha.
Escobar morre afogado e ao participarem do enterro Bentinho percebe que Capitu olha para o cadáver com um sentimento fortíssimo. E aí se inicia a crise. Bento vê, no rosto de Ezequiel, o semblante de Escobar e não o dele, passando, cada vez mais, a notar a semelhança com o falecido, até que o casamento se desfez. Capitu e Ezequiel acabaram morrendo, no fim da estória, e Bento se transformou no rancoroso Dom Casmurro.
— Até que ponto a imaginação do ex-seminarista teria dado fim ao que tivera, então, por felicidade? – Teria cometido mesmo Capitu o adultério feminino? Ou seria remorso dele ao deixar o seminário, embora sob promessa da mãe?
Eis o porquê de psicólogos e estudiosos consultarem, até hoje, as obras de Machado de Assis, importantes não só na comunicação e na literatura, mas como portadoras do amor e da sabedoria com que as construiu, deixando espaço ao leitor (nunca sufocando-o) para que reflita, encontre-se e atenda ao chamado, já que impossível amar o que não se conhece: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
Não custa lembrar a biografia de Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839—Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908). Segundo críticos, estudiosos, escritores e leitores, foi um dos maiores senão o maior escritor da literatura no Brasil. Escreveu sobre todos os gêneros literários, foi poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, jornalista e crítico literário. Como Afro-descendente, testemunhou a Abolição dos Escravos e a transição política no país de Império para República. Descendente de pais pobres, lutou para subir socialmente, ocupando diversos cargos públicos. Junto a colegas, fundou a Academia Brasileira de Letras, sendo por unanimidade seu Presidente. Sua obra literária é imensa (expressão notável no séc. XIX e séc. XX) e é considerado introdutor do Realismo nas escolas literárias. Jamais tendo frequentado Universidade, inspirou Carlos Drummond de Andrade, John Barth, dentre outros, sendo considerado, hoje, por sua inovação e conduta audaciosa, como companheiro de Dante, Shakespeare e Camões, “astronautas” de epopéias.
Fernando Pessoa, um dos mais brilhantes analistas da literatura como expressão das lutas dentre classes sociais em superação à pobreza, foi quem concluiu: “Um homem de gênio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol”, confirmando a tradução hebraica do Semeador, onde o que “nasce da carne é carne, o que nasce do espírito é espírito”, sobrepujando a supremacia do Verbo: “Não fostes vós que me escolhestes, mas Eu é que vos escolhi”.
E como nada é ao acaso, tudo é coincidência, na semana passada, a encantadora menina de 14 anos, Maria Gabriela, nos procurou para tirar algumas pequenas dúvidas de Gramática. Ela tem cursos de dança, inglês, aulas de violino, ama ler e escrever e o título da sua redação surpreendeu: “Tudo passa, tudo passará, menos o seu machismo”, em que escreve: “ “Sou mulher que resolve não ter filhos e que é amaldiçoada por essa escolha (…) Sou o que construo da vida, não o que outras pessoas desejam que eu seja (…) Ser mulher não significa rebaixar-se: o mundo nasce de nossos ventres e, por milhões de anos…Parece que ninguém lembra disso”… Perguntando-lhe se leu sobre Capitu, ela respondeu, afirmativamente, e opinou como sendo adultério feminino para derrubar o machismo.
Os pais e os professores de Maria Gabriela merecem recompensa com futuras colocações dos jovens no mercado de trabalho, principalmente ao se tratar dos mais pobres. “Ordem e Progresso” só se completam com o Amor do Divino Mestre para que todos produzam frutos de terra boa.

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