Os grandes feitos da humanidade às vezes nos enganam

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Há 48 anos, no dia 16 de julho de 1969, decolou do Cabo Canaveral, na Flórida, nos Estados Unidos, o foguete Saturno V com a nave Apolo 11. Seu destino era a Lua. Neil Armstrong, comandante da missão, e Edwin Aldrin, pousariam no satélite natural da Terra com o módulo lunar. Enquanto isso, Michael Collins permaneceria no módulo de comando, em órbita da Lua, a 100 quilômetros de altura.

Foi um sucesso. Quer uma prova? Se você era pelo menos um adolescente nesse período, deve se lembrar o que estava fazendo quatro dias depois da decolagem da Apolo 11, especificamente no dia 20 de julho de 1969. Refresco sua memória: nesse dia, pela primeira vez um ser humano colocou o pé em um astro fora do nosso planeta, a Terra. Armstrong saiu do módulo lunar e deixou a marca da sua bota na fina composição de lava basáltica solidificada da Lua. Depois de 15 minutos foi a vez de Aldrin iniciar sua caminhada.

O tema hoje nem é exatamente esse, mas como nos enganamos depois desse histórico evento. Explico: apenas oito anos antes, no dia 12 de abril de 1961, o russo Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem a atingir o espaço. A nave da missão Vostok 1 decolou de Baikonur, no Casaquistão, levou Gagarin até uma única órbita ao redor da Terra, a cerca de 320 quilômetros de altura, e regressou. Toda a operação não demorou mais de 1 hora e 48 minutos.

Como entre o voo pioneiro de Gagarin e o mais sofisticado já realizado pela humanidade até então, o de Armstrong, Aldrin e Collins, de uma semana, se passaram apenas oito anos, todos acreditaram que voos mais altos, como a outros planetas do sistema solar, em especial Marte, era também uma questão de curto espaço de tempo.

Em 25 de maio de 1961 o presidente norte-americano John Fitzgerald Kennedy fez o célebre discurso em que convocava sua nação a levar um homem até a Lua e trazê-lo de volta, com segurança, até o fim daquela década, a de 60. E tudo era novidade para a engenharia espacial, que dava os primeiros passos.

Quase meio século mais tarde, 2017, o homem, ao menos nesses deslocamento pelo cosmos, com naves tripuladas, em vez de ter já levado homens a Marte, andou para trás. Depois da sexta e última missão do projeto Apolo, em dezembro de 1972, a Apolo 17, o homem não saiu mais da Terra.

Temos uma sofisticada estação espacial internacional orbitando o planeta, verdade, mas é aqui no telhado de casa, a 340 quilômetros de altura, a mesma do primeiro voo tripulado, com Gagarin.

Isso quer dizer que não avançamos? De forma alguma. A evolução do nosso conhecimento do espaço desde então tem sido exponencial, mesmo sem decolarmos naves com astronautas para a Lua de novo, Marte ou algum asteroide. O desenvolvimento tecnológico é tão complexo que podemos mandar sondas hiperequipadas para onde desejarmos. Custa menos e é mais seguro.

Essas sondas já entraram em órbita, pousaram ou pelo menos passaram pela tangente de todos os planetas do sistema solar: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Até do planeta anão Plutão também, apesar de estar a quase 6 bilhões de quilômetros do Sol. Nós estamos a 150 milhões.

Neste instante, temos um laboratório móvel, do tamanho de uma van, se movimentando por Marte, o Curiosity. Temos uma nave que orbita Saturno e suas Luas, Cassini, outra em Júpiter e seus satélites, Juno. Mais: pousamos uma sonda em um cometa, orbitamos um asteroide e desenvolvemos técnicas de detectar planetas em outras estrelas. Dentre tantos outros avanços notáveis.

Não estamos longe de descobrir formas de vida extraterrestre. Calma, não é um alienígena, mas vida microbiana, o mais provável de encontrarmos.

A ciência tem dessas coisas. Às vezes as descobertas, os feitos nos levam a acreditar que a partir daí tudo será diferente. Uma vez atingido a Lua, o restante é mais fácil. Você se lembra da coluna de duas semanas atrás, quando falei da velocidade dos aviões comerciais a jato.

O Comet, britânico, de 1952, o primeiro, voava na mesma velocidade que o mais moderno avião comercial, o Airbus A350, lançado em 2013: cerca de 850 km/h. E entre um e outro voo estamos falando de 61 anos.

Na corrida espacial, nesse tocante, levarmos homens a outros rincões do Universo, estamos, quanto aos feitos, nem mesmo no patamar do começo dos anos 70, pois não mandamos mais astronautas para o espaço, a não ser para a estação espacial.

Nos últimos anos houve um despertar desse sonho de viajarmos a outros mundos. Uma base lunar está em estudos e pesquisas de toda natureza para enviar uma missão tripulada a Marte, na década de 2030, ganhou fôlego na presidência de Barack Obama.

Já projetos de sondas para outros astros de interesse são muitos, como o que deve decolar em meados de 2020, da Nasa, com destino a Europa, uma das luas de Júpiter. Há fortes indícios da existência de um oceano de água salgada em estado líquido sob a sua superfície de gelo, sinal de grande potencial para abrigar formas de vida.

liviooricchio@gmail.com

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