Texto para a edição do dia 9 do Diário do Rio Claro

Há 85 anos os paulistas pegaram em armas contra a ditadura de Vargas

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Livio Oricchio

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Você já deve ter passado pela Avenida 23 de Maio, em São Paulo, aquela que contorna o obelisco do Ibirapuera e se estende até o Aeroporto de Congonhas. É possível, também, que você já circulou pela Avenida 9 de Julho. Pois saiba haver uma profunda relação dessas datas com o ano de 1932. É uma história riquíssima.

Há exatos 85 anos, no dia 9 de julho de 1932, o Estado de São Paulo pegou em armas para lutar contra a ditadura imposta pelo presidente da república, Getúlio Vargas. Na realidade, os interesses eram mais profundos, dar ao Brasil uma nova constituição.

Em 1930, o então governador do Rio Grande do Sul, Vargas, perdeu a eleição para a presidência da república para o paulista Julio Prestes. Insatisfeito e apoiado por setores militares, Vargas, um civil, liderou um golpe de estado que não apenas impediu Prestes de assumir o cargo como derrubou quem exercia a presidência, Washington Luís.

Agora ele, Vargas, era o presidente. Havia no mundo muitos déspotas que o inspiraram. Virou moda no planeta um cidadão, civil ou militar, assumir o comando da sua nação e mantê-lo a mão de ferro. Foi assim na Itália, com Benito Mussolini, um pouco depois na Espanha, com o general Francisco Franco, e em Portugal, Antonio Salazar, dentre outros.

Vargas assumiu o poder no Brasil, em novembro de 1930, com amplos poderes. Fechou o congresso, as assembleias legislativas e até as câmaras municipais. Mais: cassou a constituição em vigor, datada de 1891. Quer mais alguma coisa? No seu discurso, disse que seu governo era provisório. Uma nova assembleia nacional constituinte seria constituída.

Ficou tudo na promessa. E os homens de São Paulo, com um interventor federal no estado, designado por Vargas, pois ele depôs todos os governadores, estavam fartos daquela ditadura, por vezes sangrenta. Os protestos começaram. No dia 23 de maio de 1932, em uma dessas manifestações contra os desmandos de Vargas, em São Paulo, as tropas receberam ordem de atirar.

No confronto, quatro estudantes morreram, Mario Martins, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes e Antônio Camargo. As iniciais de seus nomes, MMDC, foram escolhidas para dar o nome ao movimento clandestino criado para derrubar o governo federal. Seus líderes articularam com a classe política, também segregada, as ações que gerariam a revolta armada.

O dia 9 de julho marca o início do que viria a ser conhecida como a Revolução Constitucionalista de 1932. Isso porque os paulistas não desejavam se separar do Brasil, como alegou Vargas para ganhar a opinião pública do restante do país e contra atacar sem piedade os “insufladores da ordem”. O que os paulistas exigiam era a convocação de uma assembleia constituinte. Não aceitavam mais a imposição do ditador supremo, ver homens de Vargas na condução dos destinos do estado.

O grande problema foi que estados como Minas Gerais e o próprio Rio Grande do Sul, que manifestavam apoio ao movimento paulista, através de suas elites, na hora do vamos ver deram para trás, deixaram São Paulo sozinha contra o restante. O único que manteve a palavra foi o Estado de Mato Grosso.

A “guerra” se estendeu de 9 de julho a 4 de outubro. O Estado de São Paulo foi atacado em todas as frentes por tropas federais. No total morreram cerca de 2000 combatentes por São Paulo e 1000 que atuaram pelo governo.

A morte desses heróis não foi em vão. As principais reivindicações do movimento originado pela morte dos quatro estudantes mártires foram atendidas. Uma nova constituição foi promulgada em 1934, dois anos depois da revolução paulista.

Mas Vargas gostou tanto do poder assumido em 1930 que em 1937, diante das articulações políticas em curso, sentiu-se ameaçado. Não hesitou: cassou a constituição, impôs uma nova, que lhe dava de novo grande poder, instituindo o chamado Estado Novo, regime, como não haveria de ser diferente, ditatorial. Vargas só caiu em 1945, deposto por militares que o apoiavam até então.

liviooricchio@gmail.com

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