RIO CLARO, 190 ANOS, VENCEDORES E VENCIDOS

297

Por Geraldo J. Costa Jr.
Rio Claro, 190 anos. Há modos e modos de refletir sobre isso. Como toda cidade, aquela conhecida como a Cidade Azul do centro-oeste paulista, tem tudo o de bom e o de ruim. Aqui há vencedores e vencidos. Há desde os mais abastados, mais cultos e bem sucedidos que comparecem aos eventos artísticos e culturais de caráter benemerente para dar sua contribuição às causas sociais de interesse público, até os da classe emergente, que venceram na vida – a maioria – a custo de muito suor, leia-se, trabalho.
Há os pobres, e eles são vistos nos corredores dos prontos-socorros, esperando atendimento, nas farmácias, onde se retira remédios de graça. Nos brechós e bazares das associações assistenciais. Na fila do Restaurante 1 Real, que, por vezes, parece não ter fim.
Há os viciados e os desocupados, nos jardins e praças, ruas e avenidas, que, a exemplo de suas vidas sem rumo e sem esperança, levam o nada a lugar nenhum, enquanto imaginam driblar a realidade.
Há os jovens que trabalham durante o dia e estudam à noite, porque desejam crescer e progredir na vida, e há os que não querem nada com nada, deixam o tempo passar, assim como as oportunidades, esperando talvez outras melhores, esquecendo-se que as melhores, já possuem que é a juventude, a esperança e todo tempo do mundo.
Se soubessem, se entendessem esses jovens vacilões, que basta-lhes vontade e um mínimo de esforço, certamente, daqui algum tempo, engrossariam a fila dos vencedores, e deixariam de ser preocupação e problema para seus familiares, governos e autoridades. Ajudariam com seu conhecimento adquirido e com seu trabalho, Rio Claro progredir mais, tornar-se ainda melhor para seus filhos e netos.
Há políticos, em Rio Claro, perdoe-me leitor, tocar em tão delicado assunto, mas há os bons e os maus políticos, e me furto de dar nomes aos bois. Concedo-lhe a honra leitor, de nomeá-los, caso julgue necessário, acho que não, afinal, dizem que um homem se revela por suas obras.
Há médicos, muitos, tanto quanto dentistas, advogados, cabeleireiros, cozinheiros… Médicos capazes, interessados, dedicados. Descobri isso ao saber-me portador de diabetes e tornar-me usuário assíduo do SUS. Mas há também, os incapazes, os desinteressados e que comparecem ao trabalho apenas por dever de ofício, resultado de uma carreira escolhida por conveniência e não vocação.
Há ruas muito boas em Rio Claro, algumas, não muitas, como a longa e sinuosa Avenida Visconde, e outras péssimas e esburacadas, a Rua 11, por exemplo, no bairro Santana, entre as avenidas 26 e 36, esquecida ao longo dos anos, pelos prefeitos, secretários de obras, vereadores…
Rio Claro dos músicos, dos escritores, que, ainda jovens, talvez tenham sonhado com uma projeção que a cidade, pelo seu tamanho e importância em nível nacional, jamais iria lhes oferecer. Salvaram-se quem pegou a mochila, fez as malas e se mandou. Quem não, e se contenta dar aulas, ou ocupar espaço nas redações dos jornais, nos estúdios das rádios, enquanto tenta esquecer o seu desejo de mudar o mundo, empurrando pra longe, cada vez mais a cada dia, a frustração. Confesso, não é fácil.
Rio Claro do basquete, vencedor, valente, glorioso, e como quase tudo que tem valor nesta cidade, esquecido. Rio Claro é mesmo assim. Adora os de fora. E vira as costas para os seus. Talvez a origem da cidade explique o fenômeno. Rio Claro pertence aos de fora. Desde o tempo dos tropeiros que por aqui pernoitavam, durante o trajeto, em busca do ouro maldito em terras de Mato Grosso. Rio Claro dos posseiros que tomavam terras que não lhes pertencia, à força do facão e da espingarda. Rio Claro das terras devolutas doadas pelo Império aos seus escolhidos e bajuladores; dos Góes, dos Pereiras, dos Costa Alves, da imagem de São João Batista, o patrono, da cidade e dos Irmãos, em honra de GADU! Rio Claro dos padres, Delfino, Rosa, Martins, Jamil. Rio Claro dos pretos, da Chácara que lhes fora roubada na mão grande e descaradamente. Injustiça jamais reparada. Rio Claro do ex-prefeito agiota, morto e sepultado, até hoje venerado, sabe-se lá o motivo.
Rio Claro dos centenários Velo e Rio Claro, de torcidas apaixonadas, e hoje, imaginárias, na saudosa lembrança dos mais antigos que ainda os acompanham.
Rio Claro linda, gostosa, e plana, ao menos, na área central. Rio Claro divertida, dos tipos inesquecíveis, o Meira, o Barreto, o Anésio.
Rio Claro do ar que se respira, ainda. Das suas bicicletas, desrespeitadas por motoristas e motociclistas, e perdendo a cada ano, mais espaço para as motocas e os carangos.
Rio Claro da frota inumerável de carros. Sobram carros (cadê o meu?), faltam ruas e avenidas. Mas chegaremos lá.
Rio Claro que adora falar de si mesma, de considerar-se mais do que é, de atribuir-se um destino glorioso, tomara seja, para o bem de sua gente boa.
Rio Claro do céu azul de Celeste. Salve, salve, Rio Claro, querida! Apesar dos pesares, eu amo você!
O colaborador é escritor, e rioclarense
Jcostajr2009@gmail.com
Texto publicado no Blog Passa a Régua

COMPARTILHAR

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA