Carta de Lisboa

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Em meio à abertura política lenta, gradual e segura, proposta pelo último ex-presidente militar, general João Batista Figueiredo, o Brasil vivenciava a mobilização pela anistia ampla geral e irrestrita.
O regime de exceção, que durava desde a deposição do governo constitucional de João Goulart, dava inequívocos sinais de desgaste. Os porões da barbárie gritavam. O milagre econômico já não enganava mais, o anseio por democracia era aspirado.
Dentre as discussões, um entrave era latente.
O que o regime faria com os trabalhistas, em especial com Leonel Brizola? Herdeiro legítimo de Vargas e Jango.
Tinha ciência eles, assim como parte do MDB, que Brizola era o fio condutor da história e que na memória do povo brasileiro ele representava a retomada do Trabalhismo ao poder para mais uma vez mudar o Brasil.
Muitos tidos como democratas que alvoroçavam contra o regime, entre eles Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, nos bastidores, articulavam a retirada do nome de Brizola como beneficiado da Anistia.
Exilado em Portugal, prestigiado pelo amigo, o então Primeiro-Ministro de Portugal, Mario Soares, Brizola reúne em Lisboa os trabalhistas espalhados pelo mundo, em um grande encontro para germinar as sementes de uma nova plataforma do trabalhismo.
(Neste encontro, os trabalhistas listaram algumas de suas prioridades como: a-) o de salvar os milhões de crianças abandonadas e famintas, que estão sendo condenadas à delinqüência; bem como o meio milhão de jovens que, anualmente, alcançam os dezoito anos de idade analfabetos e descrentes de sua Pátria; b-) o de buscar as formas mais eficazes de fazer justiça aos negros e aos índios que, além da exploração geral de classe, sofrem uma discriminação racial e étnica, tanto mais injusta e dolorosa, porque sabemos que foi com suas energias e com seus corpos que se construiu a nacionalidade brasileira; c-) o de dar a mais séria atenção às reivindicações da mulher brasileira, que jamais viu reconhecidos e equiparados seus direitos de pessoa humana, de cidadã e de trabalhadora; e que, além de ser vítima da exploração representada pela dupla jornada de trabalho, se vê submetida a toda sorte de vexames sempre que procura fazer valer seus direitos; d-) o de fazer com que todos os brasileiros assumamos a causa do povo trabalhador do norte e do nordeste, tanto por uma economia local obsoleta, como por um colonialismo interno exercido de forma escorchante pelas unidades mais ricas da federação e pelo próprio Governo Federal, que propicia sua exploração entregando às grandes empresas, na forma de subsídios para aumentar seus lucros, os recursos que deviam ser destinados àquelas populações extremamente carentes.
Infelizmente, manobras como de Golbery do Couto e Silva, impediram Brizola de recuperar o PTB, e a divisão de setores progressistas evitaram sua chegada à presidência da república.
Mas, suas idéias continuam atuais, assim como o legado trabalhista.

Henrique Matthiesen
Bacharel em Direito
Jornalista

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