UM CADÁVER ENTRE NÓS

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Por Geraldo J. Costa Jr.
08/06/2017
Há um cadáver insepulto entre nós. É o século 20. Em 1917, a sociedade humana já não morria mais de amores pela Teoria da Evolução de Charles Darwin, pelo Positivismo de Augusto Comte, nem pela Psicanálise de Sigmund Freud. Já não se deslumbrava com a lâmpada incandescente inventada em 1816 por Louis Jacques Daguerre, nem com o telefone, façanha que coubera a Antonio Meucci em 1854, e menos ainda com o grande e perigoso Dirigível, obra e arte do audacioso Solomon Andrews, em 1863, desaparecido dos céus havia já muito tempo.
Parecia que a régua dos acontecimentos importantes havia sido passada na Exposição Universal ocorrida em Paris em 1900, que tinha por objetivo enaltecer as conquistas humanas do século 19 e voltar os olhos para o século 20, então, preste a iniciar. E o século 20 se demonstraria avassalador em termos de avanço tecnológico, de informação, de disseminação de idéias, cultura, hábitos e costumes.
Tanto fez nesse sentido o século 20 que ele parece se recusar a sair de cena. E talvez uma das razões seja o armazenamento, preservação e disponibilidade de acesso às informações, e dos fatos ocorridos, através das modernas mídias, que no século 21 atingem seu ponto culminante, mas que foram gestadas durante o século 20.
Assim, imagens são preservadas, mesmo as mais antigas, com boa qualidade. Imagens estáticas, como as fotografias, e imagens em movimento, como filmes e vídeos. Isso parece contribuir para a perpetuação de hábitos e costumes praticados pelas gerações que vivem a zona intermediária do tempo, que envolve principalmente, a segunda metade do século 20 e as primeiras décadas do século 21.
As gerações antigas se recusam a sair de cena, e as novas gerações vão se impondo, chegando e ocupando espaço sem pedir licença, gerando o inevitável conflito de pontos de vista, de gostos e preferências. O meu é melhor que o seu. Não, senhor, o meu que é melhor. Esse é o diálogo infrutífero, que leva o nada a lugar nenhum, mas que desperta paixões, algumas destruidoras de relações entre pais e filhos, por exemplo.
Nas redes sociais, é comum ver postagens do tipo: No meu tempo… ou, se você é do tempo… – feitas por pessoas com não mais de 40 anos, às vezes 30. Absurdo sentir saudade do passado por mais recente ele seja? Não para essas pessoas, que se acham bastantes convencidas, de que no seu tempo, tudo era melhor. Resta perguntar a qual tempo se referem? Ao da sua infância, adolescência? Nada mais sensato. Uma vez que estas são fases da vida nas quais somos menos cobrados e temos menos responsabilidades. Então, tudo tende a ser mais leve e mais bonito.
O século 20 ensinou as pessoas que as coisas podem durar eternamente. Ele, inclusive. Até o século 19 era mais fácil esquecer as coisas, dá-las por vencidas, ultrapassadas e inúteis. Os registros históricos se davam nos livros, aos quais, bem poucos tinham acesso, também nas fotografias, quando conservadas e, na jamais superada, tradição oral, que gerava e ainda gera muitas versões de um mesmo fato.
Nos anos 1800 e batatinha ou na primeira metade dos anos 1900, perguntar para um sujeito de meia idade se ele se lembrava de como era a fisionomia exata de sua avó, talvez ele não conseguisse. Hoje, qualquer criança de pouca idade, tem a imagem da vovó gravada no seu celular, e em alta definição.
Não são só as pessoas que fazem questão de permanecer o maior tempo possível neste planeta, ao que parece as coisas também, se não de fato, porque acabam mesmo sendo substituídas por outras melhores e mais eficientes, permanecem na lembrança das pessoas que com elas conviveram. E isso é uma herança, do finado século 20, que, todavia, feito um cadáver insepulto, insiste permanecer entre nós.
O colaborador é escritor
Jcostajr2009@gmail.com

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