GP de Mônaco: e se o piloto cair no mar?

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Livio Oricchio, de Mônaco

Você já deve ter assistido pela TV, quem sabe pessoalmente, ao GP de Mônaco de F1. É um dos cenários mais bonitos e provavelmente o mais glamoroso do campeonato. Mas você já pensou na possibilidade de um piloto sofrer um acidente e cair no mar?

As chances de algo dessa natureza acontecer são muito pequenas. O circuito é todo cercado por três lâminas de guardrail e uma grade alta, reforçada com cabos de aço. Mas obviamente não se pode descartar de que ocorra, por exemplo, um carro tocar no outro, decolar, passar por cima da grade e se precipitar no Mediterrâneo.

Já aconteceu isso, mas numa dinâmica diferente. O italiano Alberto Ascari, com sua Lancia, caiu no mar na edição de 1955 do GP de Mônaco, depois de errar no ponto onde hoje é a chicane depois do túnel.

Naquele tempo não havia nem cinto de segurança. Entrar e sair do cockpit era extremamente simples e fácil. Por isso o carro tocou a água e Ascari foi lançado para fora. Consciente, manteve-se alguns segundos no mar até o resgate chegar. Não sofreu nada mais sério. Curiosamente morreria apenas alguns dias mais tarde em um acidente em Monza, durante um teste.

Hoje seria um pouco diferente. Verdade. O piloto fica “embutido” no cockpit, com apenas parte do capacete para fora e seu cinto de segurança tem seis pontos. Mais: para ele deixar o carro precisa tirar o volante, acionando uma chave que há no próprio volante para liberá-lo. Se um carro cair no Mediterrâneo no GP de Mônaco, hoje, o desafio de tirá-lo antes que se afogue é bem maior.

Mas os organizadores do evento junto dos comissários da FIA estudam a questão há anos. E existe um esquema de prontidão não apenas para a corrida de F1 como as demais do fim de semana de competição no Principado, como a F2 e a Porsche Cup.

Barcos ágeis, pequenos, equipados com motores potentes, se deslocam lentamente em dois pontos do porto, nos locais onde há essa possibilidade de um piloto cair no Mediterrâneo, ou seja, do trecho que se estende da chicane depois do túnel, onde Ascari se projetou na água, até a área da Piscina.

Em conversa com a tripulação desses barcos, mergulhadores profissionais e experientes, disseram, sem poder se identificar: “Preferimos que o piloto esteja inconsciente. Numa situação dessas é comum eles entrarem em pânico, o que dificulta muito para agirmos, pois eles se agarrariam a nós”.

O mergulhador nunca está sozinho. Assim, se o piloto se agarrar a ele o outro pode trabalhar. “Não damos oxigênio, como muitos pensam. Seria necessário tirar o capacete, é demorado. Temos faca afiada para cortar o cinto de segurança e tirar o piloto do cockpit e levá-lo à superfície, a prioridade, onde o pessoal do outro barco já o aguarda.”

O mergulhador lembra que o carro tão logo cai no mar começa a afundar. “Trabalhamos enquanto o carro já está afundando. A profundidade média na área onde esses acidentes podem ocorrer é de 10 metros. O bom é que a visibilidade do Mediterrâneo é muito boa, conseguimos ver bem o que estamos fazendo.”

Existe, ainda, uma condição extrema prevista por esses profissionais. “Se não conseguirmos tirar o piloto do cockpit por suas pernas estarem presas, decorrente dos danos de um eventual choque do carro. Nessa condição nós tiramos o capacete e colocamos no piloto a máscara de oxigênio.”

Não terminou: “Um dos barcos tem um guindaste com força para puxar o carro para a superfície, mesmo cheio de água. O piloto vai estar com oxigênio. O guindaste tira o carro da água e o coloca no solo firme, na superfície, onde uma equipe médica já começa a assistir o piloto enquanto outra age para livrá-lo do cockpit, liberar suas pernas que podem estar presas.”

Não são operações simples. Felizmente as barreiras mencionadas da pista, como guardrails e grades, reduzem muito a possibilidade de um acidente desse tipo, mas não dá para excluí-lo.

Ficar pensando nisso enquanto assistimos ao GP de Mônaco não nos levaria a lugar algum. O melhor a fazer é curtir intensamente o espetáculo, de modo geral com resultados surpreendentes, e ter confiança no grupo de mergulhadores especializados e treinados se um dia ocorrer algo do gênero. Bom GP de Mônaco para você!

liviooricchio@gmail.com

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