PERMANECER

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Ana Lucia Missaglia Guarnieri
“O fruto da justiça é semeado na paz” (Tiago, 3, 18).Introdução ao documento da CNBB (com leitura nas Missas de 20/21-05-2017) assinado por Dom Sérgio Rocha, Dom Murilo R. Krieger, Dom Leonardo Ulrich Steiner, Presidente, Vice-Presidente e Secretário Geral, respectivamente, manifestando “espanto e indignação”, diante da atual crise moral e econômica da política brasileira ( cujos políticos foram considerados genocidas por Miguel Falabella, no Domingo do Faustão -21/05/2015).


Certamente nos lembramos de que exceto a vastíssima lista dos verbos que manifestam ação, existem alguns verbos (reconhecidos como de ligação) que exprimem estado ou qualidade referentes ao sujeito. Um desses é PERMANECER. (Além de verbo de ligação, permanecer é também incoativo, ou seja, exprime gradatividade, como florescer, amanhecer, entardecer…).
Outro dia, um vídeo (YOUTUBE) nos mostrava o LET”S STAY TOGUETHER (permanecer ou ficar juntos) interpretado por Uscher, elevando “o clima” de homens e de mulheres da platéia, que vibravam com a espiritualidade do amor conjugal (com o Sim para a alegria e ao sofrimento, para a vida e para a morte) em homologia com o apóstolo Paulo ao referir-se ao Sacramento do Matrimônio: – como “é grande esse Mistério!” (Efésios, 5, 32) cujos frutos, os filhos, devem ser o agrado dos pais.
– E quanto tempo dura o êxtase? Permanece?
Quarta-feira (17/05/2017) e Dom Orlando Brandes celebrava a Missa das 18 horas, na Basílica da Padroeira do Brasil, e dizia: “Não estou aqui para um blá-blá-blá… Como representante de Cristo, chamo atenção para que devemos querer estar, todos os dias, na Casa do Senhor. Mas como é difícil aí permanecer (acrescentando que) no casamento se fica por um tempo em união, mas depois por algum desencontro se desiste. O mesmo acontece na vida religiosa”.
Ora, se santo Agostinho (354-430) um dos teólogos e filósofos mais lidos, até hoje, no seu célebre livro, Confissões, já considerava difícil o ser atraído por Deus em meio aos atrativos do seu tempo, imagine-se hoje a que disparates levam os celulares e aliados virtuais a separar famílias…”O contato pessoal já era”…
E num mundo enganado, dividido, fragmentado pela falta de compaixão, de amor e de justiça como princípio de comunicação vital entre os seres humanos – Deus é Amor (1 João, 4-8) – a notícia da crise do Governo brasileiro abomina e abala.
— Por quanto tempo pode permanecer isso?
Fomos buscar na literatura de João Guimarães Rosa (1908-1967) através da sua “escrita-imagem”, em Grande Sertão: Veredas, um retrato do inconsciente humano brasileiro: “O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!” (página 79).
Porém, como afirma Anna Freud (filha e seguidora de Freud) talvez esteja na moda predizer a morte da psicanálise. (Como no caso da crise política brasileira, mostrar o inferno pós-morte, já em vida, como total incapacidade do homem de construir a Pátria sem Deus). Para a psicanalista, entretanto, é quando atacada que a psicanálise caminha melhor.
“A gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe”… Foi em Grande Sertão: Veredas, na linguagem crua do sofrimento, que Guimarães Rosa extraiu a sabedoria de que “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver. A gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer céu e quer um fim: um fim com depois dele a gente tudo vendo.”(pág. 49)
‘QUEM PERMANECER EM MIM E EU NELE PRODUZ MUITO FRUTO”(João, 15, 1-8). São Palavras do Verbo encarnado no ventre de Maria, que veio para ficar: “Eu permanecerei convosco até o fim do mundo”(Mt. 28, 20).
A bondade de um, somada à oferta de outro, finca os passos rumo á civilização do amor, profetizada por são João Paulo II, onde não haja mais tantas crianças com câncer, como sinais de uma raça sem Deus, lembrando-se da sabedoria de Franklin D. Roosevelt: “ pelo olhar da criança é que se olha a civilização”.
Então o LET’S STAY TOGUETHER se adapta ao viço daquela camisa de cassa, vestida pela noiva do sertão, de flor no cabelo, no casamento, como “gente sã valente querendo só o Céu”, onde “até enterro simples é festa”, pois o grão que apodrece na terra dá o fruto da eterna psicanálise do Mestre, captada por Anna Freud, pois Jesus permanece conosco porque venceu a morte. Ele abriu todas as portas para que a terra se transforme num jardim e o convite de Dom Orlando Brandes, embasado nas provas da sala dos milagres em Aparecida, seja o desafio diário do cristão: permanecer, todos os dias, na Casa do Pai.

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