O guerreiro equivocado

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José Renato Nalini, secretário da Educação do Estado de São Paulo
A pensadora francesa Elizabeth Roudinesco escreveu uma biografia de Freud, como já havia escrito uma de Lacan. Procurou esmiuçar a personalidade do “Pai da Psicanálise” e valeu-se de toda a documentação disponível, produzindo uma obra de peso.
Sua intenção não foi contemplar o profissional, mas o homem. Caracteriza-o como um guerreiro, que tentou transformar o mundo, através da análise da mente humana. Equivocou-se apenas num ponto: não acreditou que Hitler pudesse acabar com a sua obra máxima, a psicanálise, daí ter permitido que seu discípulo Jones servisse ao Führer. Só se rendeu após a queima de seus livros pelo ditador, quando então aceitou fugir para a Inglaterra. Deixou dinheiro para suas irmãs fazerem o mesmo. Elas não obtiveram o “visto” e morreram em campo de concentração.
Para Roudinesco, o contexto histórico é muito importante para definir o homem e sua obra. Era uma fase em que as pessoas acreditavam que poderiam mudar o mundo. Tinham projetos. Personagem do Século XIX, Freud foi protagonista de vários fenômenos: o feminismo, o nazismo, o fascismo dentre eles. O importante é que havia ideais em questão. As pessoas acreditavam nas instituições.
O drama contemporâneo é que há um desalento generalizado, uma falta de confiança em tudo o que é estatal e uma pauta difusa que se torna inatendível por quem detenha um mínimo de autoridade estatal.
A herança freudiana sofre contínuos revezes. Não entra nas Ditaduras, permanece hostilizada pelas confissões religiosas, foi substituída por uma farmacopeia que cura todos os males.
Entretanto, a psicanálise é muito necessária, embora seja apenas uma das fases do tríptico suficiente para reduzir os problemas brasileiros: a) medicamentos; b) trabalho social de alavanca; c) psicanálise. Esta continua a ser feita por pessoas que têm dinheiro e tempo para elaborar a revisão de sua vida com o profissional.
Outros fatores surgiram no século XXI: desaparecem as histerias, substituídas pela depressão. É que, liberadas as mulheres, hoje as pressões são diferentes daquelas a elas infligidas no Século XIX. Para Roudinesco, a psicanálise continua válida para crianças e para adultos que tenham dinheiro e tempo e nenhuma pressa em obter resultados.

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