O Casarão de Grão Mogol

Neste ano, a Lei Áurea, está completando cento e vinte nove (129) anos de sua assinatura pela Princesa Isabel, 1888 – 2017. Muito embora, antes mesmo daquela Lei, Rio Claro foi uma das cidades pioneiras na abolição da escravatura.

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Casarão sede da Fazenda Angélica

O casarão de Grão Mogol, ícone histórico e cultural dos afro-descendentes rioclarenses, ainda hoje remanesce, já que, as principais Figueiras da Praça do São Benedito e da Boa Morte, foram sumariamente sacrificadas.
Na região de Rio Claro muitas, fazendas pertenciam a sociedades, quer por transações econômicas ou por situações de herança. Algumas chegaram até a pertencer a bancos estrangeiros, o que ocorreu com a Fazenda Angélica, nome em homenagem à esposa do principal acionista, Nicolau Pereira de Campos Vergueiro.
O Senador Vergueiro, agricultor progressista, foi o primeiro que, em caráter particular, promoveu a colonização estrangeira assalariada para garantir a substituição do trabalho escravo.
Em 1846 trouxe para as suas fazendas Ibicaba (Município de Limeira), e Angélica, quatrocentos e vinte e três colonos alemães e suíços, que trabalharam no regime de parceria, sob normas completamente novas e revolucionárias para a época.
A Fazenda Angélica, passando a ser propriedade do London Bank, foi comprada em 1881 pelo Coronel Gualter Martins, Barão de Grão Mogol (Decreto Imperial de 17 de setembro de 1873), migrante de Itacambira, centro pecuário e de mineração do norte de Minas Gerais, pertencente à época do nascimento do Barão, em 1826, à Grão Mogol.
O casarão foi construído em lugar plano e aprazível, ao lado de uma nascente d’água, com a frente voltada para o oeste. Rodeado de janelas, com uma varanda de grades de ferro em toda extensão da ala exposta ao sul, de estilo “Oitocentista”, apresenta também o indefectível sótão e ampla escadaria de acesso ao pavimento superior.
Os portais das janelas e portas são de pedra trabalhada. Executado em alvenaria de pedras, com empenas dotadas de envasaduras e paredes divisórias de pau-a-pique, o casarão apresenta-se fora das tradições paulistas de taipa de pilão, representando, no Estado de São Paulo, exemplo da arquitetura urbana baiana do século XIX.
Na frente do Casarão alinhavam-se terreiros de café; mais para trás, ficavam as senzalas dos escravos.
O Barão, pessoa de destaque no Município de Rio Claro, foi eleito Vereador pelo partido monarquista, para o quatriênio de 1886 a 1890; período em que também ocupou a Presidência do Legislativo.
Homem culto e progressista abraçou depois os ideais republicanos pregados por Campos Salles, Cerqueira Cesar e Alfredo Ellis. Após renunciar, publicamente, ao título honorífico de “Barão de Grão Mogol”, o cidadão Coronel Gualter Martins, em 5 de fevereiro de 1888, quando Rio Claro libertava seus escravos, esteve à frente da iniciativa, discursando no Teatro São João (Phenix) e na redação do “Diário do Rio Claro”.
Proclamada a República, em 15 de novembro de 1889, coube-lhe como presidente da Câmara, a missão de anunciar, oficialmente, o grande acontecimento ao povo rioclarense, em 16 de novembro. Faleceu o Barão na Fazenda Angélica, em 15 de dezembro de 1890, sendo sepultado no Cemitério de São João Batista.
Nos últimos anos o casarão de Grão Mogol não é lembrado nas comemorações da “Libertação dos Escravos”. Nem, sequer, na semana da “Consciência Negra”, não se levando em conta a sua conservação e preservação; relegado ao extremo abandono e deterioração.
Na atualidade, o casarão encontra-se em estado desesperador de conservação, graças às inescrupulosas intervenções estruturais realizadas durante a administração do prefeito Cláudio Antonio Di Mauro.
O túmulo do Barão (onde havia uma lápide – já roubada – com a seguinte inscrição: “Obedecendo a sua última vontade, repousam aqui, os restos mortais de Gualter Martins, Barão de Grão Mogol, orae por ele”), em canavial próximo do Casarão, teve a cruz de pedra derrubada pela Usina, que a recolocou, cimentada grosseiramente.
A propósito, esperamos que os responsáveis pelo Patrimônio e Preservação da História do Município (prefeito João Teixeira Júnior, carinhosamente chamado “Juninho da Padaria”, a secretária de Cultura, Daniela Ferraz, o diretor de Patrimônio Histórico, José Roberto Santana e a superintendente do Arquivo Público, arquiteta Mônica Frandi Ferreira), anunciem a “Restauração do Casarão” (cfr. matéria publicada no Diário do Rio Claro, edição de 15.02.17).
Oportuno lembrar que a Fazenda Ibicaba – marco da imigração européia no Brasil, servindo duas vezes de hospedagem para o Imperador D. Pedro II – teve seu “Complexo Arquitetônico” (sede, terreiro, senzala, tulha, oficina, etc…) totalmente restaurado, através de parcerias, sendo atualmente, afamado polo turístico limeirense de referência internacional.

Anselmo Ap. Selingardi Jr.
Perito Judicial em Arqueologia e Documentação Histórica
Inscrição: N. 1417 SP

 

 Antigo cartaz do filme “	O Predileto”
Antigo cartaz do filme “ O Predileto”
Túmulo da Baronesa no Cemitério Municipal de Araras
Túmulo da Baronesa no Cemitério Municipal de Araras
Casarão sede da Fazenda Angélica
Casarão sede da Fazenda Angélica
Frontispício do casarão de Grã Mogol (frente oeste)
Frontispício do casarão de Grã Mogol (frente oeste)
Parede divisória de pau-a-pique em deterioração
Parede divisória de pau-a-pique em deterioração
Salão onde o Barão fazia suas refeições
Salão onde o Barão fazia suas refeições
Prefeito Gualter Martins, em 1889, aos 63 anos de idade
Prefeito Gualter Martins, em 1889, aos 63 anos de idade
Interior do sótão vendo-se nicho entre as portas
Interior do sótão vendo-se nicho entre as portas
Túmulo do Barão rodeado por canavial
Túmulo do Barão rodeado por canavial
Antigo instrumento de suplício dos escravos
Antigo instrumento de suplício dos escravos
Testamento do Coronel Gualter Martins
Testamento do Coronel Gualter Martins

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1 COMENTÁRIO

  1. Como historiador não posso me esquivar de comentar o artigo. Os fazendeiros não foram “progressistas” em libertar os escravos e arregimentar o trabalho imigrante.

    Como salienta Warren Dean, foram os escravos, e não os fazendeiros, que afinal arruinaram o sistema do trabalho forçado, ao se recusarem a participar do mesmo, e com tal intensidade que tornou a repressão insuportavelmente dispendiosa.

    A historiografia mostra há décadas que os fazendeiros sustentaram o regime escravista até aonde deu de maneira contumaz. Quando começaram a emancipar seus escravos de maneira significativa, o regime escravista havia sido corroído por completo. Mostrar os fazendeiros como benevolentes é uma distorção da História. Como salienta, mais uma vez, W. Dean:

    Até 1888 apenas 9 alforrias foram feitas de imediato.

    “A alforria, considerada com frequência sinal de uma tendência liberal no regime escravagista brasileiro, era – pelo menos em Rio Claro – uma evidente expressão de controle paternalista. A fórmula das cartas de liberdade designavam o ato como um “graça” que o escravo merecera por sua “grande lealdade” e “obediência”.”

    Além disso, a conservação de um casarão de um dos maiores escravagistas do período em Rio Claro deve trazer a tona o ambiente de sofrimento tanto de escravos e ex-escravos, como dos imigrantes, trabalhadores livres. Para Dean:

    “O regime escravista em Rio Claro foi explorador no sentido mais extremado, pois ocasionou a queda do contingente de escravos. Somente quando as circunstâncias externas ao sistema os levaram a tanto, começaram os fazendeiros, por volta de 1850, a tentar a utilização de trabalhadores assalariados. Importar europeus, cuja inexperiência das técnicas agrícolas locais bem como dos salários e preço poderiam mantê-los nas fazendas ao menos por alguns anos. As despesas do transporte até São Paulo eram financiados pelo Governo, e pagáveis pelos imigrantes com os seus ganhos. Tratava-se na verdade de um regime semi-servil, não apenas por esse motivo mas porque o não cumprimento do contrato sujeitava o trabalhador à prisão com trabalho forçado. A tirania e injustiça desse sistema levou os imigrantes a sujeitá-lo. Ao invés de melhorar os termos do mesmo, os fazendeiros preferiram voltar ao trabalho escravo, mais oneroso.”

    “Não se pode sustentar que essa costumácia fosse sinal de mentalidade capitalista. Os fazendeiros evidentemente haviam acumulado e aplicado capital em todo tipo de empreendimentos, em particular em equipamentos de beneficiar e em ferrovias. Não se mostravam dispostos, porém, a distribuir entre os trabalhadores os lucros provenientes da melhoria da produtividade. Por volta de 1870 é de se pensar que a propriedade rural nacional tivesse aumentado o suficiente para fornecer os necessários braços para a lavoura, somada aos europeus que emigravam em números da vez maiores, mas não para o Brasil. Foram os escravos, e não os fazendeiros, que afinal arruinaram o sistema do trabalho forçado, ao se recusarem a participar do mesmo, e com tal intensidade que tornou a repressão insuportavelmente dispendiosa.

    As fazendas não teriam sobrevivido a essa crise se não tivesse aparecido outra fonte de trabalho. Proletários rurais italianos, expulsos pela necessidade extrema nesse exato momento, foram atraídos para São Paulo pela política extraordinária de subsídios governamentais totais. Os fazendeiros, então, fixaram-nos nas fazendas, colocando-os em posições mais estáveis e bem pagas do que as atribuídas aos libertos, que foram assim alijados não apenas da possibilidade de adquirir a posse de terras mas até mesmo da mobilidade social individual dentro do regime do trabalho assalariado.”

    Rio Claro foi o ponto extremo da região cafeeira desde 1850…” “Dessa maneira experimentou todos os fatores da crise. As melhores safras de café geraram ali os mais altos preços de escravos e de salários do Brasil. Sem dúvida essas condições possibilitaram experimentos esporádicos com trabalho servil, aceleraram o fluxo de escravos e de trabalhadores livres oriundos de outras províncias, desencorajaram a alforria, e finalmente capacitaram os fazendeiros locais a atrair os indispensáveis substitutos imigrantes.”

    “Seria mais válido afirmar que o desenvolvimento econômico de Rio Claro deveu-se a concessões que os fazendeiros tiveram que fazer a outras classes sociais, a fim de evitar a perda de suas propriedades. Tiveram que ceder aos imigrantes italianos muita terra para as culturas de subsistência, o que lhes possibilitou ganhar dinheiro que multiplicou as funções econômicas da cidade. Ao longo de todo o período que se seguiu a abolição, a prevalência das fazendas limitou e distorceu esse desenvolvimento. Contratos anuais estimulavam métodos de culturas extrativos; a administração era especulativa e pouco racional. A classe média urbana, relegada a transações de pequena escala, procurava monopolizar o comércio dos pequenos proprietários e dos trabalhadores rurais. Em retrospecto, os fazendeiros e os que mesclaram com eles os seus interesses podem fazer com que suas concessões pareçam heróicas. Esse tipo de historiografia não apenas é interesseira mas também procura insinuar que se deixe nas mais deles as decisões presentes. Ver as coisas por outro ângulo, portanto, não permite apenas que elas sejam vistas com mais clareza, mas que se restaure naqueles que mais os necessitam, o respeito próprio e o desejo de iniciativa própria.”

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