Nossa homenagem ao eterno Carlos José, o esportista mais querido de Rio Claro

1938

Por Edmar Ferreira

Quero dedicar essa matéria ao esportista mais querido de Rio Claro que nos deixou aos 100 anos. Com muita tristeza, faleceu Carlos José, uma pessoa honesta, humilde e cheia de carinho com a gente. Um homem que marcou seu nome em sua passagem pela terra e que me incentivou demais. Encantou e ensinou.
Fui buscar em meus arquivos uma entrevista que fiz com ele aqui mesmo para o Diário, quando tinha acabado de completar 89 anos. Como sempre, estava lúcido, sorridente e cheio de planos. Parecia que sabia que chegaria facilmente aos 100 anos. Acompanhava o Velo Clube, seu time do coração e era um dos amantes do nosso basquetebol. Sentava sempre nas cadeiras próximas à quadra.
Era tão importante para a sociedade rioclarense, que foi escrito o livro “Memórias do Senhor Carlos José”, de 72 páginas, onde foi contada toda sua vida de forma minuciosa. Aliás, uma vida cheia de vida. Um homem de caráter e de muita personalidade.
Poucos sabem, mas seu Carlos José foi o inventor do futsal. Na entrevista exclusiva que me concedeu, contou que durante um treino de pingue-pongue na SDD Cidade Nova, a única bolinha que ele tinha em mãos rachou-se. Com isso, passou a chutá-la no salão de baile, acendendo as luzes escondido do presidente Delmino Urbano. Foi então que ele colocou duas cadeiras de cada lado como traves para a meta. Um goleiro, dois defensores e três atacantes foram posicionados de cada lado e então iniciou-se o futebol de salão.
Ele lembrou que os escanteios eram batidos com as mãos e as faltas eram cobradas a uma distância de três metros. A alegria durou pouco e na primeira dividida, a bolinha foi amassada. No dia seguinte, Carlos José trouxe uma bola de tênis, mas ela pingava muito e atingia com frequência as vidraças. A solução então foi uma bola de meia, mas o presidente descobriu e ele ficou sem a nova modalidade.
Em 1954, seu Carlos José leu no jornal a introdução do futebol de salão no Brasil, mas precisamente na cidade de Campinas. Interessado, foi até lá conferir. Ele ficou abismado, pois o jogo tinha as mesmas regras que implantou em 1938. A sua ideia tinha sido “roubada”. Solicitando a ajuda do prefeito da época, conseguiu o Ginásio Municipal duas vezes por semana e introduziu o futsal em nossa região.
Com a ajuda do Sebastião Schmidt, o “Tana”, seu Carlos conseguiu as traves, as redes e as bolas de crina de cavalo. Depois de alguns anos foi criada a primeira Liga Rioclarense de Futsal, cujo presidente foi Carlos de Campos, também falecido.
De 1946 a 1950, seu Carlos José foi árbitro da Liga Municipal de Futebol, chegando a atuar em partidas profissionais. Foi diretor do Velo Clube na mesma época. Quando visitava seus pais em Bauru, se encontrava com seu amigo Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, que ainda jogava no Bauru Atlético Clube e adorava comer os bolos feitos por sua mãe.
Em 1965, seu Carlos foi eleito presidente da Federação Paulista de Futsal e escolhido o melhor dirigente do interior. Um dos momentos de maior alegria de seu Carlos José foi ter conhecido Athur Friendereinch, o mais famoso “center forward”.
Filho de Magdalena Busch José – descendente de alemão e de Domingos José – descentente de italiano, Carlos José nasceu no dia 17 de fevereiro de 1917, bem num sábado de carnaval. Sua mãe esperava com muita ansiedade o nascimento de uma menina e comprou todo o enxoval cor de rosa. Como naquela época o dinheiro era curto, ele foi obrigado a se vestir de mulher, mas levava esse episódio numa boa.
Ele viveu sua infância ao lado de mais oito irmãos: Oswaldo, Nelson, Dirce, Daicy, Domingos, Maria Heloísa e Luzia. Eles adoravam brincar de procissão. Seu pai vivia viajando, até porque era gerente dos carros restaurantes da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Estudou no Colégio Puríssimo onde cursou os quatro anos do primário e mais quatro do complementar, que dava acesso ao curso “Normal” para o Magistério.
Estudou ao lado de 37 meninas e 2 meninos e brincou de roda, lenço atrás, passa o anel, amarelinha e rezou muito na capela. Além disso, aprendeu a cozinhar, limpar a casa, lavar e passar, nada que colocasse em dúvida a sua masculinidade. Ele até brincou no livro dizendo que tinha “escapado por pouco”. Foi eleito o melhor aluno da escola em 1925.
Depois de trabalhar por 15 anos em farmácias, virou ator. Sua primeira peça foi “Choro ou Rio”. Foram 23 anos de muita dedicação, além de ser apresentador de festivais musicais. Casou-se com Dona Dulce em 29/10/1938 e permaneceu ao seu lado até o fim. Foi também gerente fundador da Unimed Rio Claro. Gostaria que o nosso prefeito prestasse uma homenagem a ele, dando seu nome em alguma praça esportiva.

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