Depois da Crise

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*Cristovam Buarque

As crises demonstram o esgotamento dos estilos de governo e de seus projetos de desenvolvimento que enfrentam a resistência de grupos beneficiados pelo velho modelo, sem aceitar as reformas necessárias. A reação dos latifundiários contra a reforma agrária levou a explosão urbana e manteve a pobreza no campo.
Nossa crise atual é o resultado do esgotamento dos recursos fiscais, usados sem restrições para atender às reivindicações de cada grupo social no curto prazo; e sem respeito às regras da boa gestão, nem aos interesses da Nação no longo prazo, sem adaptar a economia ao avanço das técnicas produtivas.
Como era previsível, acabou a possibilidade de considerar os recursos públicos ilimitados e o costume de evitar que os anseios e reivindicações de cada grupo social organizado fosse atendido. O esgotamento de recursos públicos e do protecionismo ao velho modelo levam à crise e seus sofrimentos, mas oferecem otimismo para o que poderá ocorrer de positivo quando a crise passar.
Essa pedagogia da catástrofe vai ensinar a valorizar a eficiência, a cultuar a redução de gastos, a preferir o bem-estar no lugar do consumo, a prestigiar o governante eficiente que faz mais gastando menos. A crise forçará a aceitação do limite nos gastos do setor público, quebrando a histórica ilusão fiscal de que o Estado teria dinheiro para tudo.
A reforma que impõe o Teto para gastos vai provocar a consciência republicana ao substituir reivindicações irresponsáveis por disputas responsáveis na elaboração dos orçamentos públicos.
A Lava Jato trouxe perdas econômicas e políticas ao abalar a credibilidade de grandes empresários e políticos, mas pode provocar o aprendizado de que a indecência tem custo. É possível esperar que as empresas pós crise serão mais eficientes, o eleitor será mais cuidadoso e os candidatos mais éticos.

Em nome de proteger direitos aos trabalhadores empregados, o conservadorismo impediu que o Brasil se adaptasse ao avanço tecnológico, condenando o país a baixas produtividade e competitividade. Se bem feitas, as reformas trabalhistas vão permitir que a economia seja mais eficiente e sintonizada com as exigências do avanço tecnológico.
Mas, se ficarmos prisioneiros do passado, defendendo privilégios daqueles que já participam do setor moderno em esgotamento, e o Brasil permanecer na crise por longos anos, continuando a disputa política, sem compromissos com a verdade, sem espírito público, nem visão de longo prazo, saltaremos da crise para a decadência, e desta a uma desagregação social da qual já sentimos sintomas.

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