RETRATOS

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Alexandre Garcia
O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, para justificar a escolha do filho como secretário da Casa Civil do Município, acaba de argumentar: “O melhor que tenho é meu filho.” Repetiu argumento do então presidente da Câmara Federal, Severino Cavalcante, ao nomear o filho chefe de gabinete da Presidência. Ora, o argumento certo é este: “O melhor que tenho é meu filho. Mas, como é meu filho, infelizmente não posso nomeá-lo.”
Quando o Jornal do Brasil me pediu para fazer a biografia do General Geisel, que recém havia ganho do Doutor Ulysses a eleição para presidente da República, encontrei um primo dele zangado. Explicou que em breve seria promovido e depois se aposentaria na fiscalização da Fazenda Estadual. Mas Geisel havia pedido ao presidente Médici que nenhum parente, a partir de sua eleição, pudesse ter qualquer benefício no governo. “Pago pela culpa de ser primo desse prussiano” – queixou-se o primo.
É assim que funciona a ética. Filhos e primos podem se sentir prejudicados, mas é da ética, que é superior até ao mandamento constitucional que, no artigo 37, estabelece, entre os princípios da administração pública a moralidade e a impessoalidade. E a ética não se restringe ao serviço público, é claro. Certa vez os vizinhos me pediram para fazer uma reportagem sobre problemas no bairro onde eu morava. “Eu não posso; eu moro aqui”.
Agora vejo o depoimento de Marcelo Odebrecht, citando os milhões que tiveram como destino “eu e nós” no estado brasileiro. O país afundou como nunca, geraram 13 milhões de desempregados, mas milhões foram destinados a manter “eu e nós” no poder. A moralidade, a impessoalidade, a transparência(“publicidade”), a eficiência e a legalidade preconizadas na Constituição foram letra morta. O pior de tudo é que a ação delituosa conta com o aplauso de uma boa maioria popular. Já ouvi de um honesto e ingênuo eleitor, se referindo a um político de seu estado: “Ele é muito bom; nomeou todos os parentes.” O presidente provisório José Linhares fez escola. Nos três meses em que governou, nomeou todos de sua linhagem. Assumiu porque era presidente do Supremo. Setenta anos depois, outro presidente do STF fez pouco da Constituição e deu um jeito para não dar pena para a presidente condenada. Quando me perguntam se o Brasil tem jeito, respondo que só se nós tivermos jeito, porque o Brasil somos nós e os políticos retratos dos eleitores.

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