Telescópio russo é instalado em Minas. Objetivo é monitorar o lixo espacial.

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Livio Oricchio, de Nice, França

No dia 4 de outubro de 1957, os russos chocaram o mundo, em especial os norte-americanos, com o lançamento ao espaço do primeiro satélite produzido pelo homem, o Sputnik 1. Hoje, 60 anos depois de um objeto entrar em órbita da Terra há no espaço nada menos de 18 mil deles circulando o planeta. Incrivelmente parte não tem mais função, representa lixo espacial. Tornou-se um problema.

Para monitorar esses detritos, a Agência Espacial Russa, Roscosmos, estabeleceu um acordo com a Agência Espacial Brasileira (AEB) e instalou um telescópio em Brazópolis, no sul de Minas, no Pico dos Dias, a 1.864 metros de altura.

O objetivo do programa chamado Panoramic Electro Orbital System (PanEos) é determinar a órbita desses detritos com precisão, nos dois hemisférios, o Norte, da Sibéria, onde já funciona o irmão gêmeo do telescópio de Minas, e no hemisfério Sul, o do Brasil, possibilitando a produção de um mapa com todas as órbitas detectadas.

Isso permitirá orientar novos lançamentos de satélites com maior segurança. O risco de um choque começa a se tornar uma realidade na exploração do espaço. Nunca é demais lembrar que para os satélites se manterem em órbita os foguetes que os transportavam chegaram lá à impressionante velocidade de quase 30 mil quilômetros por hora, algo como 10 km por segundo, necessária para escapar do campo gravitacional da Terra. E é nessa velocidade que o lixo espacial se desloca. Qualquer impacto, por menor que seja, as consequências são devastadoras.

O PanEos instalou no Observatório do Pico dos Dias um telescópio óptico de 75 cm de diâmetro e quatro auxiliares de 25 cm. Integrado a um conjunto de computadores, essa tecnologia avançada permite a detecção e monitoramento de objetos de apenas 12 cm de cumprimento a velhos satélites pesando toneladas, numa distância entre 120 e 50 mil quilômetros, para se ter uma ideia da sensibilidade do sistema.

O telescópio de Brazópolis trabalhará em sintonia com o seu irmão gêmeo das montanhas Altai, na Sibéria, separados por 15 mil quilômetros. Os dois enviam depois as imagens para a central de gerenciamento, em Moscou. Por conta da avançada tecnologia do projeto, o grau de automação é bastante elevado.

Uma comitiva russa esteve quarta-feira na inauguração oficial do telescópio em Brazópolis, liderada pelo diretor da agência, Igor Komarov. Do lado brasileiro, dentre os presentes estava o presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), José Raimundo Coelho.

O PanEos representa uma oportunidade à comunidade acadêmica ter contato com a pesquisa espacial. O Brasil irresponsavelmente passa ao largo da maioria dos grandes projetos astronômicos da humanidade.

Até mesmo nações de recursos técnicos e financeiros bem mais modestos que os brasileiros são mais ativas, têm maior participação nesses projetos, destinam para a ciência parte maior de seus orçamentos. Já os senadores e deputados em Brasília, ao menos a maioria esmagadora, não têm noção do que ocorre no mundo na área de Cosmologia, Astrofísica e Astronomia e da sua importância.

Nesse contexto mais amplo, o PanEos é um projeto bastante restrito, mas não deixa de ser algo. Os russos vão disponibilizar as imagens captadas por seu telescópio aos brasileiros. Nelas, além de detritos espaciais poderão ser observados vários outros objetos de interesse científico.

Essas imagens serão enviadas para o Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), instalado em Itajuba, a apenas 27 quilômetros de Brazópolis, para os astrônomos brasileiros realizarem pesquisas. O largo campo de visão do telescópio russo permite localizar, por exemplo, estrelas variáveis, novos asteroides e explosões de estrelas, as supernovas. O custo de instalação do PanEos foi de R$ 10 milhões, bancado integralmente pela Roscosmos.

liviooricchio@gmail.com

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